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Eu show Obama

Há uma frase que Barack Obama não se cansa de repetir:“Yes, we can!” Sim, ele pode vencer as presidenciais e suceder a Bush. Sim, a América pode vir a ter um presidente negro. Sim, é a mudança. Ou será apenas marketing?
26 de Outubro de 2008 às 00:00
Fotografado num acto de campanha na Carolina do Norte, na passada segunda-feira
Fotografado num acto de campanha na Carolina do Norte, na passada segunda-feira

Campanha maior que a de Obama só daqui a quatro anos, nas próximas presidenciais norte--americanas. Em orçamento,ocandidato democrata tem para gastar mais de 4,5 dólares por eleitor. O quádruplo do seu adversário republicano, John McCain. Aos 47 anos, o candidato afro-descendente é visto como o novo Kennedy e como embaixador do sonho americano. A sua imagem de marca elevou-o a 'marketer do ano', eleito pela Associação norte-americana de Anunciantes – batendo a Apple e a Nike. Será a ‘Obamamania’? As eleições são só a 4 de Novembro mas parece que já sopram os ventos da mudança nos EUA.

Era cedo para excessos de entusiasmo, mas não para lançar charme. Quando Obama venceu Hillary Clinton (ou o clã Clinton) foi à Convenção do Partido Democrata vestido pelo famoso estilista de Chicago, Hartmax. Um fato exclusivo – no valor de 1170 euros –, clássico, embora jovial, azul-marinho, com blazer de dois botões. Diz o estilista português Miguel Vieira que o favorito à Casa Branca (de acordo com as sondagens) é formal quando a ocasião o exige, 'mas adopta uma postura descontraída quando está em contacto mais directo com o público, ou mais íntimo com a sua família. E isso reflecte-se no seu guarda-roupa.' Umas vezes usa gravata, outras não. Está na moda. Para prová-lo comprou mais dois fatos azuis e três cinza na afamada loja Hart Schaffner Marx.

'Ele normalmente veste escuro com camisa branca e acho que está perfeito. As gravatas são sóbrias e os sapatos são modernos' – avalia a criadora de moda Fátima Lopes. Só um famoso cabeleireiro de Beverly Hills o criticou. Joseph Torrenueva disse que o candidato democrata tinha cabelo de 'operário'. É uma opinião que não supera os apoios fervorosos a Obama. Na abertura da semana de moda masculina de Milão, em Junho, Donatella Versace (irmã de Gianni Versace) dedicou a sua colecção Primavera/Verão 2008 ao 'homem do momento', Obama. Um 'homem tranquilo que não precisa de mexer um dedo para mostrar poder'.

'Não há dúvida que o visual é uma parte importante em todas as campanhas políticas. A sua imagem é a de um jovem moderno, determinado, que está pronto para fazer a diferença' – diz Fátima Lopes. 'É um homem que emana charme' – dobra os elogios Miguel Vieira – 'tanto pela roupa, que não é conservadora de mais, como pela postura. Até à sua maneira de falar, calma e eloquente, que de alguma forma é sinónimo de elegância'. Desafiado a vestir Obama, o estilista escolhe um fato preto, com um só botão, cintado, e uma calça justa também, a camisa branca, gravata azul-marinho e sapato preto bico-de-pato.

Na aparência Obama convence, a sua postura é 'de alguém seguro' – observa Fátima Lopes, – 'que não tem medo e que mostra que está pronto para ser o homem mais importante do Mundo'.

Após vencer nas primárias Hillary Clinton, o candidato afro-americano discursou na Convenção do Partido Democrata precisamente 45 anos depois de, a 28 de Agosto de 1963, o activista negro Martin Luther King ter dito a frase 'I have a dream' ('eu tenho um sonho'). E Obama disse, sabiamente, que se 'acreditarmos, não fracassamos'. É a esperança. O sonho americano.

'A mensagem de Obama não é específica', afirma o comentador de política internacional Miguel Monjardino. 'Parece-me que é um sentimento associado à mudança.' À permanente mudança dos Estados Unidos. 'Obama representa a América em que tudo parece possível. Ele é um enorme orador político, cheio de optimismo. O contraste com McCain chega a ser penoso.'

Há um ano, seria impensável que um candidato da ala esquerda democrata pudesse vencer Hillary Clinton, alega Monjardino. Muito menos o senador do Illinois, há apenas quatro anos na política. Mas venceu. 'Obama é uma folha em branco [politicamente] e consegue ser quase tudo, para toda a gente', remata. 'E é muito parecido com o que Reagan representou para a América. Com o que prometeram Robert F. Kennedy e J. F. Kennedy e nunca puderam concretizar porque foram mortos.' Não foi por acaso que o ex-líder cubano, Fidel Castro, afirmou publicamente que 'é um puro milagre' Obama estar vivo.

'As pessoas confiam na marca política, no envelope que ele criou, embora não se saiba bem o que está dentro', diz Miguel Monjardino. Intelecto, o candidato tem. E com provas dadas. Publicou livros reconhecidos, como ‘Dreams from My Father: a Story of Race and Inheritance’ (‘Sonhos do Meu Pai: uma História de Raça e Herança’), ou ‘The Audacity of Hope: Thoughts on Reclaiming the American Dream’ (‘A Audácia da Esperança: Pensamentos sobre a Reivindicação do Sonho Americano’). Foi ainda director do prestigiado jornal de Direito da Universidade de Harvard, nos EUA – onde se formou em Direito. 'A dúvida é se tem um temperamento (um carácter) de primeira classe' – interroga Monjardino – 'se não tiver, não será um presidente de primeira classe'.

Muitos americanos vêem-no como o ‘salvador’. 'A personalização da política nos EUA é grande, mas Obama tem tido um percurso difícil. A sua vitória perante a senhora Clinton não foi fácil', explica o politólogo António Costa Pinto. 'Mas foi-lhe favorável ter construído (e merecido) uma imagem de juventude, de ter iludido com grande relevo a questão ‘da raça’, que ainda marca alguns segmentos do eleitorado.' Costa Pinto não vê em Obama comparação com os portugueses. Neste sentido, 'o eng. Sócrates vem do modelo Blair'.

O professor Marcelo Rebelo de Sousa considera que Obama 'perdeu todos os debates com a senhora Clinton. Já com McCain, ele subiu um bocadinho o seu registo, o suficiente para ganhar praticamente todos os debates. Embora nos dois últimos estivesse já em jogo o factor crise e o facto de o eleitorado já estar virado para ele.'

Pese embora, 'Obama tem uma imagem física excepcional. É alto, é magro, está em boa forma física. Tem uma presença simpática que contrasta com a de McCain. Os debates em pé foram terríveis para McCain.' Diz Marcelo Rebelo de Sousa que o primeiro passo para a vitória democrata foi dado nas primárias e antes das primárias. E foi consolidado nos últimos dois meses.

'Obama transmite a imagem do candidato incumbente. Aquele que antes de ser presidente já o era' – avalia o crítico de televisão Eduardo Cintra Torres, recordando os três debates televisivos entre os dois candidatos presidenciais. 'Obama tem a vantagem de que as pessoas já o imaginam lá [na Casa Branca] e por isso é mais fácil votarem nele', frisa. 'A retórica dele é da mais alta qualidade. E não serão só promessas. Mas eu também quero ouvir promessas. Ao aderir a um discurso político, uma pessoa compra um sonho.' E será Obama um produto de marketing político? 'Impossível' – responde Cintra Torres. 'É impossível não estarmos a ver ‘the real thing’, o homem, em um ano de campanha. Para ser eficaz, o marketing tem que se adaptar ao produto.'

Américo Guerreiro, ex-presidente da Associação Portuguesa de Agências de Publicidade, admite que as campanhas americanas são diferentes das europeias. 'Observa-se o adversário como um concorrente comercial', diz. Seria como ter dois produtos semelhantes, que precisam de destacar pormenores para se favorecerem face ao concorrente. Mas serão McCain e Obama tão semelhantes? 'McCain tem muito do perfil de Jimmy Carter [ex-presidente dos EUA, entre 1977 e 81, e Nobel da Paz]. O Obama tem mais o perfil dos novos cidadãos do Mundo. Dos quais a América está cheia', compara o ex-publicitário. E acrescenta que 'o primeiro presidente de cor tem a responsabilidade de não poder falhar. Um branco pode.'

Ainda no campo da publicidade, Edson Athayde considera que 'a campanha de Obama não é nenhuma revolução'. Para o publicitário, a viver agora nos EUA, 'trata-se apenas de uma campanha bem cuidada (e bem financiada) que ajuda a passar a mensagem de um candidato que, ele sim, representa ventos de mudança. A campanha é mais do mesmo, o candidato é que é diferente.'

Obama vende como verdade o slogan 'Yes, we can!' ('sim, nós conseguimos'). Diversas personalidades renderam-se ao seu optimismo: a cantora colombiana Shakira; Jon Bon Jovi até deu cerca de 23 mil euros à campanha; a rainha da música pop, Madonna; o autor do romance ‘Man in the Dark’, Paul Auster; ou mesmo o ex-secretário de Estado do presidente republicano George W. Bush. Quando Colin Powell manifestou apoio a Obama, a campanha atingiu o valor recorde de 111 milhões de euros em apoios financeiros. Até ao final de Agosto, tinha angariado quase 470 milhões de euros.

E muito se deve à forma inovadora de angariar fundos através do site da campanha (barackobama.com). E aí, destaca João Canavilhas, especialista em blogues políticos, 'a omnipresença do candidato, com espaços em ‘softwares’ sociais ('Obama everywhere') e a tentativa de responder à multiculturalidade característica da sociedade americana, usando diferentes tipos de discursos e de conteúdos, que respondam às expectativas dos eleitores' (ver caixa). O democrata optou ainda por envolver os apoiantes na sua campanha. 'Este apelo desenvolve nos eleitores sentimentos de pertença em relação à candidatura.'Será que a Casa Branca vai ser a sede da ‘Obamamania’?

MCCAIN TAMBÉM VESTE MARCAS CARAS

Esta imagem tornou-se num ícone do terceiro debate. Os democratas aproveitaram--se do momento infeliz do republicano. Mas McCain também se veste de forma elegante – fatos clássicos de tons escuros e gravatas sóbrias. Chegou a ser noticiado que ele usava ténis de viagem do estilista italiano Ferragamo, no valor de 400 euros. Na Convenção Republicana, a sua mulher, Cindy McCain (herdeira de um império), usou jóias avaliadas em 230 mil euros. Contudo, a campanha dos republicanos já gastou 116 mil euros para vestir a candidata a vice-presidente, Sarah Palin.

MERCHANDISING E SITE À AMERICANA

'A mudança é a lei da vida. E aqueles que olham apenas para o passado ou para o presente, certamente irão perder o futuro' – disse John F. Kennedy (em tradução livre para o português). E Barack Obama certamente acredita na mudança. Ao aproveitar esta frase para os ‘pins’ da sua campanha – entre o seu rosto e o do antigo presidente dos EUA, – pretende transmitir optimismo e dar aos norte-americanos o ideal que Kennedy deixou na memória antes de ser assassinado. Não há recordação de uma campanha tão colossal como a de Obama. O merchandising vai muito além dos tradicionais ‘pins’, t-shirts, bandeiras, bonés ou autocolantes. A marca Obama – porque mais do que um candidato à Casa Branca, ele tornou-se numa marca americana – vende botões de punho e porta-chaves, incluindo em prata. Mas há também canecas, garrafas para água, carteiras, malas, cintos. O site BarackObama.com é um dos mais poderosos instrumentos criados. Mal uma pessoa se regista nesta página, ou simplesmente a visita, é logo convidada a dar um donativo. E essa forma de financiamento (com a recolha de fundos anónimos) é realmente inovadora e eficaz. Por outro lado, o candidato democrata usa a internet para convocar pessoas, para levar os seus apoiantes a envolverem-se na campanha, para falar directamente a cada pessoa – o que na comunicação social nunca conseguiria. Obama aproveita o facto de que a mensagem circula, e muito, na internet.

UM ESTILO PERFEITO PARA FÁTIMA LOPES

Em Obama 'há um cuidado em todos os detalhes, o cabelo está bem e tem uns dentes perfeitos' – observa Fátima Lopes. A criadora de moda acrescenta que 'ele normalmente veste de escuro com camisa branca. As gravatas também são sóbrias e os sapatos são modernos'. Uma imagem que sobressaiu do segundo debate com McCain (foto ao lado). Aqui, segundo o estilista Miguel Vieira, Obama denota 'uma postura numa tentativa de se manter mais perto do eleitorado, ou seja, como um político acessível'. Obama é o homem mais influente do Mundo – eleito pelo portal da internet AskMen.com, ficando Steve Jobs (patrão da Apple) e Michael Phelps (nadador com oito medalhas de ouro olímpicas) nos seguintes lugares – e foi o homem mais bem vestido de 2007 – segundo a revista ‘Esquire’ –, antecedido pelo último ‘Bond’, Daniel Craig.

SCARLETT JOHANSSON E ‘SIMPSON’ VOTAM NELE

O YouTube é outra das plataformas que passam a mensagem de Obama. 'Yes, we can!' ('Sim, nós conseguimos!') foi além de uma frase proferida pelo candidato, foi cantada em Fevereiro por will.i.am dos Black Eyed Peas para o vídeo ‘We Can08’. Scarlett Johansson (na foto, ao lado de Obama) foi apenas uma das celebridades que deu a cara no vídeo, a preto e branco, vencedor de um Emmy. Depois de ganhar a simpatia de estrelas de Hollywood, o candidato democrata convenceu mesmo ‘Homer Simpson’ (da série ‘Os Simpsons’) a votar nele. Ainda nos desenhos animados, pior está McCain que foi parodiado pela polémica série ‘Family Guy’. Ou que até foi 'presenteado' com uma mensagem de ‘apoio’ da al-Qaeda, numa mensagem difundida num site islamita (al-Hesbah).

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