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Correio da Manhã

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EUA continuam a ser a única superpotência

Apesar do possível entendimento entre Israel e os palestinos, não será em 2005 que se eliminará o terrorismo à escala mundial. Outro ano sangrento?
2 de Janeiro de 2005 às 00:00
Miguel Monjardino
Miguel Monjardino FOTO: Guilherme Venâncio
Coordenador do Programa Avançado em Segurança e Defesa, do Instituto de estudos Políticos da Universidade Católica, Miguel Monjardino, natural dos Açores, especializou-se em grande estratégia dos EUA, armas nucleares e relações transatlânticas. Pode dizer-se que um dos seus vícios é manter um olhar sempre atento sobre o que se passa no Mundo.
ENTREVISTA
Este ano, os Estados Unidos e a China vão estar no centro das atenções?
Sim. Os EUA são e vão continuar a ser a única superpotência global. A crescente importância política e económica da China assinala acima de tudo a ascensão da Ásia. E aqui é preciso termos em conta outros países como a Índia. A ascensão da Ásia terá um forte impacto no sistema internacional.
Uma das promessas de George W. Bush em 2000 era “mudar o tom na política em Washington”. No segundo mandato, assistiremos à continuação do ‘hard power’ em detrimento do ‘soft power’?
Em termos da história política norte-americana, a vitória eleitoral de George W. Bush, em Novembro passado, foi muito expressiva. O capital político que o presidente americano ganhou será usado para fazer avançar as suas propostas políticas em termos internos e externos. Ao nível interno, a vitória de Bush vai forçar os Democratas a repensar profundamente as suas propostas políticas. Ao nível externo, o presidente americano precisa de aprofundar a rede de alianças de maneira a garantir que a estratégia da sua administração tenha sucesso e perdure no tempo.
A gravidade da situação iraquiana é o maior impedimento a novas ‘aventuras’ no exterior?
O Iraque não foi nem é propriamente uma aventura. Foi uma operação político-militar com um objectivo claro e extremamente ambicioso. Os interesses estratégicos de Washington, a necessidade de manter uma pegada militar no Iraque bastante grande e a dimensão do Exército americano significam que os EUA terão sérias dificuldades em levar a cabo uma nova operação militar de alta intensidade. O mais provável é que Washington dedique os próximos anos a tentar estabilizar e reconstruir o Afeganistão e o Iraque.
Um novo ataque terrorista em solo europeu pode estar iminente em 2005?
Não foram só os EUA que descobriram a sua vulnerabilidade a 11 de Setembro. O terrorismo que é actualmente usado pelos partidários do Islão radical será uma das mais sérias ameaças ao nosso modo de vida e à nossa liberdade. Este não será de certeza um daqueles problemas que vai desaparecer com o ano de 2005.
A crise política na Ucrânia pode ter ensombrado as relações entre os EUA e a Rússia?
A administração de George W. Bush tem sido bastante bem sucedida no seu relacionamento com Moscovo. E tem permitido aos decisores políticos americanos manter e aprofundar mesmo uma cooperação em áreas impensáveis aqui há uns anos. O principal problema da Rússia tem sido gerir as enormes consequências do rápido colapso do império soviético. Sob este ponto de vista, as reacções russas ao que se tem passada na Ucrânia são um bom espelho da imagem e da ambição que o país tem de si mesmo. O problema é o fosso em relação aos meios disponíveis
Se a resposta dos eleitores aos referendos à Constituição Europeia for ‘nim’, ou se a França optar pelo não, a UE pode afundar-se numa crise?
Os ingleses têm fama de ser euro cépticos, mas o ‘sim’ francês a Maastricht foi conseguido à tangente. A verdade é que as elites políticas europeias têm um enorme receio dos referendos. Um ‘não’ poria em risco a chamada Constituição Europeia mas não seria por isso que a UE deixaria de funcionar ou de existir.
Cinco anos depois da Estratégia de Lisboa, aprovada pelo Conselho Europeu em 2000, somos confrontados com a insuficiência dos resultados?
Os líderes europeus são excelentes ao nível retórico. O relatório de Win Kok teceu críticas severas em relação à situação actual. Em 2010, a Europa não será de certeza a economia mais competitiva do Mundo. Mas também não estamos propriamente a caminho da pobreza. Na verdade, nunca fomos tão ricos e nunca vivemos tão bem como agora.
A União Europeia e a Turquia chegaram a acordo para o início do processo de adesão daquele país ao Grupo dos 25. Consequências?
Uma futura adesão turca mudará profundamente a identidade geopolítica da União Europeia. Estamos a falar de uma União Europeia que terá fronteiras com a Síria, o Irão e com o Cáucaso. Tudo isto terá importantíssimas consequências políticas. Mas a adesão da Turquia levantará também questões culturais extremamente importantes. E levantará também ­ embora ninguém fale no assunto abertamente ­ questões de poder ao nível do processo de decisão comunitário.
O presidente da Líbia, Muammar Kadhafi, disse que a Turquia pode ser o ‘cavalo de Tróia’ do Islão radical. Estas declarações são preocupantes?
Infelizmente para todos nós, o cavalo de Tróia do Islão radical já está entre nós há bastante tempo. Por exemplo, quatro dos terroristas que levaram a cabo os ataques de 11 de Setembro viveram bastante tempo em Hamburgo. E basta olhar com atenção para o que se passa em muitas mesquitas e escolas em países como a França, Alemanha e Holanda para percebermos a dimensão do problema europeu nesta matéria.
O primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon está preparado para iniciar um diálogo com os palestinianos. O próximo ano oferece novas oportunidades para a paz?
A morte de Arafat remove um dos principais obstáculos para a negociação de uma solução que ponha fim a este longo conflito. A paz exige sempre compromissos e cedências. E exige também lideranças políticas fortes e consensos políticos internos.
Os colonatos da Judeia, Samaria e de Gaza avisaram que vão resistir à evacuação prevista no Plano de Desconexão de Ariel Sharon. Um conflito sem fim à vista?
A retirada israelita de alguns dos colonatos na Faixa de Gaza colide com uma certa imagem de Israel. O paradoxo aqui é que Ariel Sharon foi um dos mais importantes defensores dessa imagem de Israel nos anos 70 e 80. A retirada proposta por Sharon é uma bomba política e está na origem de uma enorme discussão em Israel sobre a melhor maneira de negociar um acordo que ponha fim ao conflito.
George W. Bush considerou “possível” a criação de um Estado palestino independente até ao fim do seu mandato, ou seja, em 2009.
A solução do conflito no Médio Oriente seria algo que beneficiaria a grande estratégia americana na região. Permitiria também que muitas das energias que são gastas com este problema em muitos países do Médio Oriente fossem canalizadas para a resolução de questões internas. Mas é importante ter presente algumas coisas. Primeiro, os EUA podem pressionar mas não podem impôr uma solução. Uma paz imposta seria uma paz provisória. As lideranças israelitas e palestinianas têm de querer a paz. Segundo, em política internacional não há milagres. Esperar que um problema tão complexo como o conflito entre israelitas e palestinianos se resolva com um estalar de dedos de George W. Bush é uma ingenuidade. Ainda por cima perigosa.
O chefe do gabinete da CIA norte-americana, em Bagdad, alertou para a degradação da situação no Iraque. A única solução: um governo capaz de impor a sua autoridade e promover a prosperidade. Um objectivo possível de ser atingido em 2005?
A reconstrução do Iraque é um projecto para uma geração. Um governo que seja visto pelos iraquianos como legítimo e forças militares e de segurança iraquianas bem equipadas e treinadas são essenciais para que a reconstrução se inicie e se mantenha. O problema é que as forças militares e de segurança iraquianas só deverão estar treinadas e equipadas como deve ser em 2006. Até lá os militares americanos terão de continuar a desempenhar um papel bastante visível na tentativa de estabilizar o país.
As primeiras eleições nacionais, marcadas para 30 de Janeiro, podem resultar na criação de instituições iraquianas plenamente legítimas e permitir a esse país retomar as rédeas de seu destino?
O grande problema é saber como atrair para o processo político iraquiano e para as eleições de 30 de Janeiro os partidos políticos sunitas. Os sunitas são minoritários no Iraque mas dominaram politicamente o país. A sua exclusão do processo político poderá levar a um aumento de violência no país. A paz no Iraque dependeu sempre de uma negociação entre sunitas, xiitas e curdos. No que toca à construção de instituições legítimas estamos a falar de algo essencial para a vida de uma sociedade civilizada.
A instalação de um governo democrático no Iraque contribuirá ou não para de democratização de todo o Médio Oriente?
No derrube do regime de Saddam Hussein foi extraordinariamente controverso. Mas esse derrube gerou uma enorme onda de choque regional. E chamou também a atenção para os enormes bloqueios políticos, sociais e económicos do Médio Oriente. O nacionalismo árabe e o socialismo podem ter excitado os intelectuais e os professores universitários mas o resultado no Médio Oriente foi desastroso. O futuro do Iraque pode ser incerto mas uma coisa é certa: hoje em dia fala-se cada vez mais em reformas no Médio Oriente.
A SUBIR
Ariel Sharon: Depois da morte de Arafat, e quando os palestinos se preparam para escolher um novo líder, o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, já garantiu que se encontra preparado para iniciar um diálogo com os palestinos. Mas lembrou que primeiro é preciso acabar com o terrorismo. Para Miguel Monjardino, a retirada israelita de alguns dos colonatos na Faixa de Gaza, prevista no Plano de Desconexão do governo, é uma “bomba política” está na origem de uma discussão em Israel sobre a maneira de negociar um acordo que ponha fim ao conflito. Paz mais próxima?
A DESCER
Islão radical: A rede terrorista al-Qaeda está presente em mais de 60 países e o Islão radical progride na Europa. Globalmente, os riscos terroristas contra os ocidentais e os interesses ocidentais nos países árabes parecem ter aumentado depois do início da guerra no Iraque, em Março de 2003. O terrorismo que é actualmente usado pelos partidários do Islão radical será uma das mais sérias ameaças ao modo de vida ocidental, não será de certeza um daqueles problemas que vai desaparecer com o ano de 2005.
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