Eugénia de Vasconcellos: "O casal é a nossa última utopia"

Madonna, feminismo, vida a dois e Igreja Católica misturam-se num livro sobre desejo, sexo e amor.
21.07.13
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Eugénia de Vasconcellos: "O casal é a nossa última utopia"
Eugénia de Vasconcellos está agora a escrever um romance Foto D.R.

A poetisa Eugénia de Vasconcellos aceitou o desafio do editor Manuel S. Fonseca para escrever sobre sexo, desejo e pecado. O resultado é ‘Camas Politicamente Incorrectas da Sexualidade Contemporânea’, agora lançado pela Guerra e Paz.

- Teve de ser convencida a escrever sobre este tema pelo editor ou aconteceu precisamente o oposto?

- Foi um convite do editor Manuel S. Fonseca, que aceitei com gosto e sem hesitar.

- Ser ex-aluna de colégio católico foi um entrave ou um incentivo na altura de escrever este ‘Camas Politicamente Incorrectas da Sexualidade Contemporânea’?

- Um entrave e um incentivo, ou seja, um prazer. Ser católica, e ter sido aluna num colégio católico, facilitou-me a compreensão da história e da arte. Os católicos vivem naturalmente o valor da expressão ritual, do símbolo como outra realidade, o pão e o vinho são o Corpo e Sangue de Cristo… está tudo dito! E, claro, os católicos têm consciência do pecado, têm de confrontar-se com confissão, e só depois acedem à comunhão. Quem tem consciência do pecado tem consciência do sagrado.

- Escreve que não se pode aceder ao fundo da sexualidade, como não se pode chegar ao fundo do oceano. Mas o certo é que o James Cameron enviou uma sonda à fossa das Marianas…

- É natural que sonde o desconhecido, é homem…

- Estando nós numa era de “hipersexualização polimorfa, indistinta, tendencialmente agressiva e pornográfica”, pode dizer-se que passámos da sociedade do espetáculo para a sociedade do porno?

- Todo o espetáculo é exibicionista e a civilização do espetáculo explora, entre outros elementos, o lado mais cru, mais óbvio e fácil do erotismo. A pornografia explora a ausência de significado, a amoralidade, a imoralidade e replica a violência da natureza. Perdemos muita coisa. A banalização da violência e a solidão profunda resultam também dessas perdas.

- Do pecado que mora ao lado transitámos para o pecado que mora em todo o lado?

- Mas quem é que tendo a Marilyn por vizinha do lado quer pecar noutro sítio?

- E até que ponto isso é culpa das várias vagas do movimento feminista?

- É difícil fazer essa avaliação. Onde não há culpa, não há pecado. Nem sagrado. E há, obrigatoriamente, a redução do valor, do valor do corpo, do valor da relação sexual, do amor, do compromisso, do valor do outro, da comunidade. Basta ver como se confunde a auto-estima com a auto-imagem. Imensas miúdas norte-americanas, como presente, quando terminam a escola secundária e antes de entrarem para a faculdade, vão pôr implantes mamários. Não é obviamente por causa dos homens, nem pelo sexo descartável que terão, mas pelo pouco valor dão ao seu próprio corpo, a si mesmas. E os pais patrocinam esta loucura. O passado só nos determina até um certo ponto, a partir daí a responsabilidade é nossa. Quanto melhor pensarmos, quanto mais soubermos, melhor faremos.

- Faz notar que a cama era o único local onde se encontra mulheres poderosas na antiguidade, pois o sexo equivalia a poder. Não encontra excepções entre Cleópatra e Catarina a Grande?

- Uma rainha ou uma imperatriz não são excepções, são condições de nascimento ou de matrimónio. As excepções são excepções e dependem de mil variáveis. Já a forma como Cleópatra e Catarina exerceram o poder demonstra o que sempre as mulheres souberam na cama e fora dela: basta tê-lo.


- Estabelece uma simetria entre feminismo e marxismo, em que o homem equivale ao capitalismo. Há fases leninistas, trotsquistas e estalinistas no movimento feminista?

- Então não há? Cuidado, não tropece nos corpos caídos das mulheres trucidadas em cada transição de poder.

- Tendo em conta o bruá causado por Assunção Esteves após ordenar a evacuação das galerias da Assembleia da República, arrepende-se de, tal como ela, ter citado Simone de Beauvoir?

- Não! Simone de Beauvoir é um dos poucos nomes a reter do feminismo. Já o existencialismo e a ideia do género ser uma construção cultural, que dispensa a biologia, me parecem erros proporcionais às virtudes da sua inteligência. Portanto, grandes erros. Mas Sartre não era flor que se cheirasse e isso dá volta à cabeça de qualquer pessoa…

- Está preparada para reacções negativas à sua afirmação, muitíssimo politicamente incorrecta, de que excelentes mães, amantes e profissionais ao mesmo tempo é coisa que não há?

- As mulheres sabem que não há. Não padecem desse lirismo masculino.

- A prostituição e pornografia são caminhos para uma sexualidade que dispensa a cama?

- São duas expressões da sexualidade e são categorias da imaginação que se convocam e levam para a cama. Comunicam com a arte, a pintura, a literatura... Ou não teríamos Caravaggio nem Picasso. Nem Pierre Klossowski, nem Nabokov. Nem Paula Rego nem Agustina Bessa Luís.

- Escreveu que se tornou “difícil distinguir entre um ídolo da pop e uma prostituta de rua”. A presença hiper-sexualizada de Madonna foi uma espécie de cavalo de Tróia?

- Sim, sem dúvida. É bem pensada essa do cavalo de Tróia. Madonna fez mais pelo feminismo do que o feminismo fez por ela. Trouxe a transgressão, o pecado, a culpa, a punição, os elementos icónicos do catolicismo na altura em que a pop passou de música a encenação musical, portanto, já sob o primado da visão: do vídeo para o grande espetáculo das digressões e da própria vida já fora do paradigma da privacidade.

- Quantas compradoras de sapatos de saltos altíssimos têm uma leve consciência de que estão a usar algo que passou das strippers e prostitutas para sapatarias de todo o mundo?

- Leve, muito leve. Como quase todas as mulheres que viram televisão desde pequenas, foram ao cinema, cantaram em coro com os vídeos das suas cantoras preferidas… Os saltos altos não são inocentes, são uma afirmação de poder. É por isso que são cada vez mais altos, altos ao ponto de não se conseguir dar mais de meia dúzia de passos com eles, e se ter cunhado a expressão 'sapatos para estar sentada'. Que é só outra forma de dizer: para ser objecto de desejo e manifestação de poder. Não são sapatos, são acessórios de um trono pagão…

- Como consegue compreender que a cantora Rihanna tenha voltado a namorar com um homem que a espancou?

- Compreender? Não compreendo. Mas o que é que a paixão tem a ver com a compreensão? Ele bateu-lhe porque houve uma falha no processo da sua própria socialização, e quando a civilização falha surge de dentro do homem a besta. Sade, Darwin, Freud explicaram-nos isso muito bem. Está-me sempre a puxar pela língua… Não digo mais nada, então e os meus ricos leitores? Não quer que leiam o livro?


- Se aquilo que começa por ser marginal logo passa a pertencer a uma elite, e depois massifica-se, como sucedeu ao sadomasoquismo com a trilogia de romances ‘As 50 Sombras de Grey’, outras formas marginais de sexualidade estarão decerto na calha para serem partilhadas por milhões. Arrisca adivinhar qual será a próxima?

- Sim, claro. É a que estou agora a escrever: a amorosa. Um romance que é um caminho entre literatura e a poesia. Actualmente nada é mais marginal do que o amor, nenhuma forma de sexualidade é mais marginal do que a amorosa.

- Encara como normal que raparigas menores tenham práticas sexuais em idades que seriam impensáveis há apenas uma geração?

- O que é a normalidade? A normalidade é aferida estatisticamente. A idade de início da vida sexual ativa estabilizou. Mantém-se nos 17 anos para as raparigas. Há comportamentos que agora são considerados normais e adequados e não eram. E muito importante, há, desde 1995, a Internet. E o Facebook, o Twitter. E carregamos telemóveis com câmaras. Há o registo e a divulgação do que não havia. O mundo privado acabou. Se me parece que tais práticas beneficiam essas raparigas? Não, de forma alguma.

- É possível depreender pelo que escreve que considera a revolução sexual dos anos 60 e 70 como terrivelmente sobrevalorizada?

- Nos moldes em que algum feminismo a revê e transmite, sim. E mal aproveitada pela geração que a fez. Mas mais vale malzinho que nada. Antes da pílula o mundo não era um lugar fácil para a mulher.

- A elevada percentagem de mulheres que não atingem o orgasmo e que têm pouco desejo sexual é um sinal evidente de que essa revolução falhou?

- Alguns dos pontos da agenda dessa revolução falharam. Entre eles essa expectativa de satisfação sexual. E também o desejo nos homens diminuiu de então para cá - mas para quase tudo a inteligência e o amor têm remédio.

- Admitindo que uma relação extraconjugal melhora a vida sexual do casal, isso acontece por introduzir uma dose acrescida de pecado ou é a culpa do ‘prevaricador’ que melhora a performance?

- Mas está tudo bem contadinho no livro! O como e o porquê. Eu bem digo que não me quer deixar um único leitor…

- No livro não esquece que aquela pessoa que reconhecemos como única acaba por sumir-se ao longo da vida de muitos casais. É a renúncia ou escassez do sexo que cria muros de Berlim nas camas?

- Se até o muro caiu…

- Sendo a cama o lugar de encontro do homem e da mulher por excelência, como é que a Humanidade permitiu que junto ao leito passasse a estar uma televisão com centenas de canais, sem falar dos tablets e computadores portáteis em que cada um navega na Internet?

- A Humanidade? Pois sim… cada um deve rei na sua cama, perdão, em sua casa. Se há quem deixe a televisão reinar, é porque só tem estofo para ser sofá.


- Se o casamento é um local de conflito, de vazio e de solidão, porque continuamos a casar ou a fazer uniões de facto?

- Porque o casal é a nossa última utopia. Bem, a menos que se esteja a concorrer para miss, aí a utopia é a paz no mundo.

- O que sucede às mulheres (e também a alguns homens) que se vêem como o cordeiro do sacrifício no altar da cama?

- Ou morrem nessa posição de vítima enquanto promovem o carrasco, ou alteram a percepção que têm de si mesmas e toda a dinâmica muda. E há o divórcio. E, principalmente, outro amor, melhor. Ama-se e é-se amado melhor depois de se ter amado mal. Aprendemos. O melhor amor não é o primeiro, é o último. É como o beijo. Mais importante do que o primeiro a quem beijámos é aquele que queremos que seja o último que beijamos.

- Há alguns séculos não escapava à fogueira por escrever que a “Igreja Católica está tão impregnada de sexo que faz de qualquer bordel uma brincadeira de meninas”. A frase era tão verdadeira nesse tempo como é verdadeira agora?

- Ai… até senti o cheiro a lenha a queimar! Sim, era. Mas agora há valores pagãos que lhe fazem uma forte e desleal concorrência.

- Sendo o culto mariano uma forma de a Igreja Católica separar entre duas mães, acredita que daí resultou, mesmo que involuntariamente, o presente fascínio (alimentado pela indústria pornográfica) dos homens jovens pelas MILF?

- Sempre houve a figura iniciática da prostituta e diante dela o homem inexperiente. Mas o que afirma é bem pensado. Tenho também de pensar esse assunto... Por um lado, há uma privação precoce da mãe que é também profissional e dona de casa, portanto os dias têm mil horas e a atenção ao filho é reduzida. Por outro, as Madonas são sempre belas e jovens. O que me está a dizer é que a mulher mais velha se constitui como objeto de desejo sexual e a mais jovem como objecto de valor amoroso? Ou está a dizer-me que as mulheres têm mais poder económico e influenciam a indústria pornográfica?

- A cama católica propõe um amor que de dois faça uma só carne. É um projeto que se mantém válido no século XXI?

- Sim. É um desafio. É sexy.

- Conciliar no mesmo parágrafo Pablo Picasso e desenhos animados pornográficos japoneses, daqueles em que há tentáculos de polvo a imiscuírem-se em todos os orifícios, é a sua coroa de glória?

- Está a ver porque é Picasso não revelou o seu interesse pela shunga mais abertamente? Tinha receio da reacção do público, que este não compreendesse o seu interesse, a influência. Ele tinha uma colecção desses desenhos – eu não tenho, preferia ter um Picasso.

- Declarou-se indisponível para entrevistas presenciais e a sua editora informa que está a resguardar-se. Ainda é assim tão complicado escrever e falar de sexualidade?

- De forma alguma. Se fosse atriz, faria toda essa promoção presencial para um filme. O cinema vive da imagem, uma atriz vive do placo. O ensaio, a literatura, a crónica, a poesia, não. Vivem da palavra. Sou escritora. Os média habituaram-se à omnipresença dos autores porque uma maioria deles não são escritores, são figuras públicas. Além do que agora estou a escrever um romance.

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