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Eugénio de Andrade: “O êxtase da contemplação”

Natália Correia chamou-lhe o cantor do Eros.
João Pedro Ferreira 29 de Setembro de 2019 às 10:00
Eugénio de Andrade
Eugénio de Andrade FOTO: Direitos Reservados

José Fontinhas (1923-2005), conhecido pelo pseudónimo Eugénio de Andrade, foi um dos mais reconhecidos poetas portugueses do séc. XX. "Reivindica para a sua situação de amante o êxtase da contemplação como força ativa e transfiguradora", escreveu Natália Correia sobre o texto transcrito na página ao lado. ‘Fábula’ é mais do que o exercício de ‘voyeurismo’     que, à primeira leitura, aparenta: é uma descrição com forte carga erótica sobre o desejo, tema central da poesia de Eugénio de Andrade.

Natural da aldeia de Póvoa de Atalaia, perto do Fundão, mudou-se aos 10 anos para Lisboa.     Leitor compulsivo de poesia, tornou-se admirador de António Botto, a quem enviou alguns dos seus versos, em 1\938, vindo a conhecê-lo pessoalmente. No ano seguinte publicou o seu primeiro poema, ‘Narciso’, que depois viria a rejeitar. Já com o pseudónimo Eugénio de Andrade publicou o primeiro livro, ‘Adolescente’,  em 1942. Tornou-se conhecido nos meios culturais com ‘As Mãos e os Frutos’ (1948). Em 1956, a morte da mãe, com quem sempre vivera, marcou-o profundamente.

Além dos mais de 20 volumes de poesia, também escreveu livros de prosa, incluindo um dedicado às crianças (‘História da Égua Branca’), e traduziu autores estrangeiros como     Federico García Lorca, René Char, Yannis Ritsos ou Jorge Luis Borges. Está traduzido e editado em Espanha, França, Alemanha, EUA, República Checa, Rússia, México e Itália.

Do livro ‘Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica’, org. Natália Correia, ed. Ponto de Fuga

"Fábula

Estavam ali diante dos meus olhos, e era terrível e ao mesmo tempo fascinante.

Ao princípio pensei que ele a estava a matar, logo a seguir percebi que não, que talvez ambos estivessem a morrer, só depois qualquer apelo misterioso e distante se fez carne em mim. Então todo eu fiquei amarrado aos seus gestos, àquela respiração fatigada e difícil, àquele balbucio que lhes saía ralo da boca.

Os seios de Maria caíam nus da blusa. Uma das mãos do carpinteiro perdia-se nos cabelos emaranhados, a outra parecia ter-se enterrado na areia. O resto era aquele corpo todo de homem fremente e quase hirto, ao mesmo tempo, à força de concentrar todo o ímpeto nas nádegas, arco donde a flecha partia, para se cravar, com uma violência próxima do desespero, nas entranhas ardentes e sombrias da rapariga. Parecia um cavalo ofegante - os olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espalhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o céu branco de agosto. Mas a voz da terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro e morreu no alto dos amieiros. Por fim a paz de Deus desceu ao mundo.

Maria olhava o carpinteiro com uns olhos rasos de espanto, como quem tivesse perdido tudo naquele instante. Lentamente passou-lhe a mão pelo cabelo, numa carícia tímida, e começou a chorar. O carpinteiro olhou-a também, mas os seus olhos eram diferentes, havia neles sombra e solidão. Eram uns olhos noturnos, negros como poços fundos, que afirmavam a morte.

Sem uma palavra, o homem ergueu-se e começou a mijar. A rapariga levantou-se a seguir e, de costas, parecia limpar as pernas. Eu escondi-me melhor atrás dos amieiros e não vi mais nada. Senti os passos de ambos a afastarem-se, cada um para seu lado, com o coração pequeno, apertado. De um salto, atirei-me à cama que os seus corpos haviam feito na areia, respirando avidamente, como se o ar pudesse trazer-me mais que o cheiro morno e acidulado da urina, e deixei de perceber os passos já distanciados, o estalar de ramos secos aqui e ali, para só ouvir o silêncio.

Era um silêncio no areal, nas árvores, nas nuvens. Um silêncio na tarde, na rua, nas casas. Um silêncio no pão, na água. Um silêncio que se tornava dia a dia mais pesado, mais devorador.

Um silêncio feito dos seios de Maria, dos flancos suados do carpinteiro, que me despertava a carne durante a noite, me fechava os olhos pela madrugada, me dava vontade de fugir durante o dia..."

Do livro ‘Matéria Solar’, ed. Limiar

"Amor

Cala-te, a luz arde entre os lábios,

e o amor não contempla, sempre

o amor procura, tateia no escuro,

essa perna é tua?, esse braço?,

subo por ti de ramo em ramo,

respiro rente à tua boca,

abre-se a alma à língua, morreria

agora se mo pedisses, dorme,

nunca o amor foi fácil, nunca,

também a terra morre."

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