Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
6

Facebook

“A sua vida não se resume a isto, evidentemente, mas já não passa sem aquela janela (...)”
Tiago Rebelo 13 de Junho de 2010 às 00:00
Facebook
Facebook

Em cima da mesa da sala de jantar, um monitor de computador é a ligação com um mundo invisível que está para lá das paredes da casa dela. Passa horas agarrada ao teclado, à sua página do Facebook, a conversar com os amigos que estão algures, frente aos seus monitores, a deambular pelo mundo virtual. Entre as tarefas do dia, em casa, no trabalho, vai regressando ao computador para verificar as novidades, o que se vai dizendo, para escrever um comentário ou outro, para partilhar um pensamento, uma emoção. Quanto mais triste se sente mais alegria transmite. Ninguém precisa de saber que não é feliz. Nos dias de hoje, a felicidade é uma obrigação, talvez porque as pessoas não se sentem atraídas pela infelicidade alheia. Por isso, escreve para quem quiser saber que é muito feliz e coloca comentários divertidos que logo suscitam reacções divertidas.

A sua vida não se resume a isto, evidentemente, mas já não passa sem aquela janela para o mundo invisível, onde pode vestir o fato de qualquer personagem que decida ser, não obstante a realidade que pisa habitualmente. Tem a vida que tem e a que quer transmitir aos outros, não se sente tão isolada e pode fingir que não lhe faz falta o amor de alguém.

A televisão está ligada sem som no canto da sala. A televisão não fala com ela, não lhe faz a mesma companhia. Hoje é sábado e apeteceu-lhe sair para jantar e estar com os amigos ou, melhor ainda, ter um convite de alguém especial, enfim, de alguém, mas não surgiu nada, de modo que janta à frente do computador. Escolhe uma música no YouTube, ‘In My Secret Life’, de Leonard Cohen, e escuta-a enquanto cisma com a vida. Pensa sempre muito em si, sem se aperceber quanto. Se não estivesse sozinha não seria assim, ou será por ser assim que está sozinha?

Não interessa, não é nisso que pensa. Come sem ligar ao que vem no garfo, a ponderar mais uma vez se terá desperdiçado todas as suas oportunidades, se fez as escolhas acertadas ou se se perdeu algures no passado quando nada lhe chegou, na ânsia de uma vida perfeita. Depois anima-se com uma certeza: Claro que não, pensa, claro que pode fazer sempre melhor, conseguir melhor. Encolhe os ombros, vira-se para o computador, onde encontra os amigos virtuais de sempre. Também eles ficaram por ali, sem mais nada... Num impulso, desafia-os a juntarem-se a ela numa esplanada.

E assim, nessa noite, onze amigos que nunca se tinham visto, reúnem-se pela primeira vez à roda de uma mesa, tomam uma bebida e conversam e riem de viva voz na companhia uns dos outros.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)