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Faltar com a palavra ao flautista paga-se caro

Nunca se deve faltar com a palavra a um flautista. Diz-se que dominam melodias secretas, capazes de poderosos feitiços. Devem a fama ao sucedido há muito, muito tempo na cidade alemã de Hamelin, onde apareceu um que, tocando, fez desaparecer os ratos e mais tarde, vendo que lhe recusavam a prometida recompensa, todas as crianças.
21 de Janeiro de 2007 às 00:00
Lida assim, sem entoação, a história não é tão fascinante como quando o teatromosca a encena, o que vai acontecer no próximo sábado, dia 27, pelas 16h30, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. É com ‘A Verdadeira História de o Flautista de Hamelin’ que começa, em 2007, o ciclo de leituras encenadas designado ‘Literaturinha’.
Iniciar as crianças na “fruição estética dos clássicos da literatura infantil” é o objectivo da ‘Literaturinha’, que, de raiz, arrancou em Outubro do ano passado, com ‘Alice no Jardim’, inspirado no célebre romance ‘Alice no País das Maravilhas’ do escritor, matemático e fotógrafo Lewis Carroll. Em Novembro subiu ao palco o frágil cavalo de D. Quixote de La Mancha, em ‘O Silêncio de Rocinante’.
Quem agora chega, pelas vozes de Filipe Araújo e Paulo Campos dos Reis, ao Centro Cultural Olga Cadaval é ‘O Flautista de Hamelin’, dos irmãos Grimm.
Os Grimm eram alemães, um chamava-se Jacob, o outro Wilhelm, viveram no século XIX e ficaram famosos por terem registado histórias que, na altura, andavam de boca em boca. Não só a do flautista, mas também, por exemplo, a de uma certa dama de pele muito branca, auxiliada em hora de infortúnio por sete anões mineiros e a de uma belíssima menina obrigada a varrer a casa enquanto as meias-irmãs se divertiam nos bailes reais, até ser ela própria conduzida ao palácio numa carruagem feita de uma abóbora puxada por dois cavalos que antes eram ratos.
RATOS É O QUE NÃO FALTA
Ratos é o que não falta em ‘O Flautista de Hamelin’, conto folclórico inspirado numa lenda medieval alemã. Diz a lenda que, a 26 de Junho de 1284, a cidade se encontrava infestada pelos roedores. Homens e mulheres deitavam as mãos ao céu sem saber o que fazer para se livrarem deles.
Chegou então à cidade um homem que disse ser um ‘caçador de ratos’ e garantiu ter uma solução para extinguir a praga. O preço acertou-se: uma moeda por cada cabeça de rato exterminado. O forasteiro pegou numa flauta e, tocando-a, hipnotizou os ratos. Orientou-os até ao rio Weser, onde se afogaram todos os 999.999 animais.
Tendo cumprido a sua parte do acordo, o flautista regressou para receber a recompensa. Expectativa vã. “Onde estão as cabeças dos ratos?”, perguntaram-lhe os habitantes de Hamelin, para concluírem que, a não ser que as apresentasse, não haveria pagamento. O forasteiro partiu sem discussão, mas poucos dias depois voltou à cidade, para vingar-se.
Era a hora da missa. Os adultos estavam recolhidos na igreja. O flautista pegou de novo na sua flauta e começou a tocar uma bela melodia. Quem o seguiu então, dançando e rindo, foram as crianças da cidade. Todas, parece que eram 130, foram atrás dele. Diz-se que só uma ficou para trás: um menino que coxeava e não conseguiu acompanhar o ritmo.
Os petizes foram conduzidos a uma gruta, depois selada. Nunca mais se ouviram vozes e risos infantis na cidade. Uma outra versão da história apresenta um final menos penoso. Aos habitantes de Hamelin foi dada uma segunda oportunidade: o flautista trouxe de volta as crianças e a cidade pagou-lhe, em ouro, muitas vezes mais a quantia originalmente acertada. “Tudo está bem quando acaba bem”. Esta saiu da pena de Shakespeare, não da dos Grimm, mas serve perfeitamente à versão optimista do conto.
O TEATROMOSCA NÃO PRECISA DE MUITO PARA CONTAR A HISTÓRIA
O teatromosca, fundado em 1999, no Cacém não precisa de muito para contar ‘A Verdadeira História do Flautista de Hamelin’. Bastam-lhe duas malas com alguns objectos dentro, dois actores/leitores e um músico, Luís Moura do Carmo, que toca flauta transversal. O cenário, o som e a luz são mínimos, porque, afinal, o que conta mesmo é a história.
Os meninos e meninas com mais de seis anos que assistam ao espectáculo – com duração aproximada de 45 minutos, apresentado nos dias anteriores e na segunda-feira para grupos de alunos – terão oportunidade de verificar a eficácia do feitiço musical. Podem contudo ficar descansados: no final regressam a casa com os pais. Não há aqui risco de o flautista ficar sem pagamento. Os bilhetes, 7,5 euros ou cinco para menores de 12 anos e maiores de 65, compram-se antes do espectáculo começar.
VAI GOSTAR SE... tem mais de seis anos, gosta da atmosfera mágica dos contos tradicionais e não tem por hábito faltar com a palavra dada ou ficar a dever a quem quer que seja.
REALIDADE ATRÁS DA LENDA
Muito se tem escrito sobre o facto histórico que terá dado origem à lenda de ‘O Flautista de Hamelin’. Sim, porque é quase certo que alguma coisa aconteceu ou não haveria registo de, no século XIV, ter existido na igreja da cidade um vitral representando um homem a tocar flauta rodeado de várias crianças vestidas de branco.
Não faltam teorias. Há quem pense que os miúdos foram vítimas de um acidente, perecendo afogadas no rio Weser ou so-terradas após um deslizamento de terras. Outros garantem que a dança infantil pode ser uma referência à doença de Huntington, que provoca sacudidelas ocasionais.
Trata-se contudo de uma afecção hereditária, pelo que é pouco provável que várias crianças não relacionadas entre si pudessem padecer daquele mal. Também se tem considerado que o flautista representa a morte associada à peste negra, de que, no entanto, não há registo em 1284, quando as crianças ‘desapareceram’.
Os investigadores modernos preferem relacionar a lenda com a migração voluntária de crianças e jovens apostados na fundação de uma nova cidade nas regiões orientais da Europa. O flautista seria a pessoa com a responsabilidade de proceder ao recrutamento dos novos colonos.
AS LETRAS QUE SE SEGUEM
‘O AMIGO DEDICADO’
Nos dias 23 de Fevereiro, para escolas, e 24, para o público em geral, sobe ao palco ‘O Amigo Dedicado’, de Oscar Wilde.
‘MINOTAURO VERSUS TESEU’
Rapazes e raparigas de Atenas são sacrificadas a um homem gigante com cabeça de touro que vive num labirinto. O corajoso Teseu vai desafiá-lo nos dias 16 (escolas) e 17 (público em geral) de Março.
‘O MACACO DE RABO CORTADO’
O macaco tinha vergonha da própria cauda. Foi ao barbeiro e cortou-a. A história, a partir de um conto tradicional português reescrito por António Torrado, continua nos dias 13 e 14 de Abril.
‘VIAGEM A LILLIPUTE’
Após o naufrágio do navio em que decidiu empregar-se, o médico Lemuel Gulliver chega a uma ilha de gente muito pequenina. Para ver e ouvir nos dias 18 e 19 de Maio.
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