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Família algarvia vive com a dança no coração

Miguel só tem dois anos. É o benjamim. É uma criança viva que se entusiasma com qualquer música. Num agregado familiar de oito pessoas com a dança no coração, só o mais velho e o mais novo é que não vivem directamente com o bailado na cabeça. O mais velho é o pai – José Alberto 50 anos, natural de Olhão, estucador, casado com Cristina Lima. Juntos formam a família Bonança que, actualmente, se reparte entre Faro e Lisboa. Entre o local onde moram e aquele onde alguns dos filhos dançam.
29 de Abril de 2007 às 00:00
A família Bonança
A família Bonança FOTO: Bruno Colaço
Joana, a filha mais velha, de 23 anos, frequenta a Escola Superior de Dança (ESD), em Lisboa, onde vive com Ricardo, de 19, aluno do 6.º ano da Escola de Dança do Conservatório Nacional (EDCN). Entre estes dois filhos nasceu Ana Marta, com 21 primaveras, estudante de Engenharia Civil na Universidade do Algarve (UALG) e de dança no Conservatório Regional do Algarve (CRA). A seguir vem Tatiana, com 14 anos, que já tem ar de adulta e que não se parece muito com o resto da família. Depois de ter estudado dança no CRA, actualmente, trabalha com as professoras Tarikavalli, em dança indiana, e Caroline Chapman e Elizabete Cardoso, em dança clássica. O penúltimo filho do casal Bonança chama-se João Guilherme, tem oito anos e também já foi contaminado com o vírus da dança. Estuda perto de casa, no Conservatório de Faro, com o professor Pedro Romeiras, antigo bailarino principal da Companhia Nacional de Bailado.  
O gosto pelo movimento veio mais do lado materno já que desde sempre Cristina ambicionou ser bailarina. Já José Alberto preferiu aperfeiçoar outro tipo de movimento – é cinturão negro de karaté e durante sete anos ensinou aquela arte marcial.
Os filhos foram nascendo, sucessivamente, em Faro, Lisboa e Santiago do Cacém. Quando viviam em Vila Nova de Santo André, José Alberto exercia as profissões de analista de laboratório e mestre de karaté. A mãe decidiu, então, colocar os quatro filhos no infantário do Insituto Piaget, onde também ela fazia aulas de dança com a professora Cecília Bettencourt. Quando esta deixou a escola, Cristina convenceu José Alberto a levar Joana e Ricardo à sua terra natal para não interromperem a prática da dança. Aos sábados saíam de madrugada para chegar às nove da manhã às aulas de Nilsen Jorge, em Faro. Quando se mudaram definitivamente para o Algarve, todos os filhos ingressaram no CRA, tendo estudado dança clássica com Maria de Freitas Branco e contemporânea com Evgueni Beliaev.
A determinada altura, por razões de ordem familiar, todos abandonaram a dança por um ano, continuando os seus estudos académicos. Entretanto, Beliaev fundou um pequeno grupo de dança, em Faro, para o qual se transferiram os Bonança. Nessa altura, Cristina Lima começa a interessar-se pela confecção de figurinos. Já fazia roupa e trajes de Carnaval para os filhos e abalançou-se, sem qualquer ensinamento, a confeccionar tutús para as filhas e gibões para os rapazes, acabando por vir a trabalhar para grupos de dança e de teatro no Algarve.
Segundo Joana Bonança, os pais dançam muito bem e “é um espectáculo vê--los dançar a valsa. Quando tiverem um pouco mais de tempo já estão a planear inscreverem-se numa escola de danças de salão”.Hoje, a família divide-se entre a Penha, em Faro, e o Bairro Alto, em Lisboa. Os oito costumam encontrar-se, quando lhes é possível, numa ou noutra cidade. Nessas alturas, quem faz mais barulho é o Miguel que, segundo Ricardo, tem uma energia inesgotável. “Nunca se cansa e tem muita personalidade, para além de ser muito sociável e bem disposto”.
É o menino dos olhos da família. E faz por isso. Quando se juntam todos são obrigados a correr atrás dele o dia inteiro. Possivelmente, crescerá e será também bailarino.
ANA MARTA
“Gosto quinhentas mil vezes mais de dançar do que da Engenharia. Não quer dizer que não curta o curso, mas é o hip hop que me dá pica!”
Teve um primeiro contacto com este estilo de dança com o professor marroquino Turbo num curso da CDA. Desde então nunca mais parou, continuando na própria universidade, em horário pós-escolar, a fazer aulas organizadas pela Associação Académica. Já se apresentou, mesmo, num espectáculo da semana académica.
“Gostava de tirar um curso mais completo e dançar profissionalmente conjugando a dança com uma carreira de engenheira.”
JOÃO GUILHERME
“Como gostava de ver os meus irmãos dançar decidi seguir os seus passos. Comecei numa turma de pequeninos onde havia muitas meninas. Eu era o único rapaz. Depois entrou o Daniel, um ano mais velho que eu. Agora estou no 3.º ano do CRA e voltei a ser o único rapaz na aula. O meu professor Pedro é muito fixe.”
TATIANA
“Tive o primeiro contacto com o Baharata Natyam, dança do sul da Índia, numa oficina em Lisboa. A minha mãe achou que eu tinha perfil de indiana e inscreveu-me. Os meus irmãos brincam comigo e dizem que eu sou a preta lá de casa! A professora Tarikavalli gostou muito de mim e ficou admirada por eu ter tanto jeito. No mês passado concorri ao Dançarte e, com poucas horas de trabalho, apresentei um solo, Ganesh Stuti. Não ganhei nenhum prémio mas a minha família ficou muito comovida e não só a professora como muitos dos presentes me deram os parabéns! Espero continuar a aperfeiçoar-me nos estilos contemporâneo e Baharata Natyam.”     
JOANA
“Deixei o curso de Engenharia Topográfica para me dedicar à dança a sério na ESD. Estudava com a minha irmã Marta, na UALG, no mesmo edifício – onde funciona apenas Engenharia Civil e Topográfica – e costumávamos encontrar-nos nos intervalos para estarmos juntas.
No Verão passado viemos os quatro mais velhos a Lisboa fazer um curso e comecei a ficar maluca com a dança. Seguidamente eu e o Ricardo partimos para França para fazer mais aulas no Conservatório Superior de Música e Dança de Lyon. Quando voltámos decidi mudar de curso e inscrevi-me na ESD. A minha mãe sabia que era o que eu queria e disse-me só para não mudar mais de curso porque já tinha pago muitas propinas. O meu pai, quando soube que passei na audição, até chorou de alegria.
A minha vida não tem sido fácil pois tive que conciliar os estudos de dança e engenharia e ainda trabalhar no McDonald’s. Eu, a Marta e o Ricardo trabalhávamos naquela cadeia de restaurantes aos sábados e domingos para equilibrar o orçamento familiar. Durante quatro anos nenhum de nós teve fins-de-semana.”
RICARDO
“Faço aulas de dança desde os sete anos mas não se podem contar 12 completos pois fui estudando com intervalos. Quando vivíamos no Alentejo custava-me muito levantar da cama antes das seis da manhã, para estar em Faro, pronto para uma aula de dança clássica às 09h00, o que era uma loucura. O meu pai levava-nos numa carrinha que voava até ao Algarve. Creio nunca ter tido professores que me explicassem detalhes muito importantes para a minha formação artística, até ter ingressado na EDCN.” Para além de dançar, Ricardo… só dança! Quando não baila no Conservatório e em casa, dança nas discotecas. “Adoro dançar à noite por causa do ambiente e… dos elogios das raparigas. E também com uma música que é diferente da do meu dia-a-dia. Posso, mesmo, confessar que gosto de dançar em cima das colunas e dar um pouco de show!”
JOSÉ ALBERTO E CRISTINA
De um modo sintético, José Alberto Bonança, o pai, afirma: “Gosto que os meus filhos sejam felizes fazendo tudo o que gostam. É o mais importante para todos nós. A mãe, Cristina, que é mais expansiva, confessa: “É sempre um prazer vê-los dançar. Posso ficar horas a assistir às aulas e aos ensaios”
Cristina não escamoteia o papel que assumiu: “Fui-lhes abrindo o caminho e proporcionando todas as oportunidades para eles evoluírem na dança. Sou uma mãe-galinha, mas no bom sentido”, diz a rir muito da sua franqueza. Também é com um sorriso nos lábios que mostra os fatos que confecciona para o palco. Diz, mesmo, que vai estudar para se tornar numa estilista a sério.
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