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Correio da Manhã

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FAMÍLIA DE CAMPEÕES: JORGE ANDRADE

Quando visita os pais, Jorge Andrade ainda vai à mercearia buscar uma bilha de gás para a mãe. Na Amadora ninguém estranha, sempre viram o central como um bom rapaz, “tímido e pouco dado a noitadas”. E com magia nos pés, tal como o pai e o irmão, ambos jogadores.
4 de Abril de 2004 às 00:00
Um, dois, três, quatro toques. O quinto não lhe sai tão bem e a bola foge-lhe dos pés, rodopiando pelo mesmo relvado onde o seu filho mais novo jogou durante anos a fio. Os olhos de Manuel Andrade estão fixos naquele esférico prateado e matreiro. “Se tivesse trazido uns ténis em vez destes sapatos fazia melhor figura”, brinca o cabo-verdiano de baixa estatura, que ainda assim não desiste à primeira. Volta a dominar a bola, agora com a cabeça e o peito. Se o estádio estivesse cheio, iria ouvir com certeza uma forte ovação do público.
Ele tem todos os trejeitos de futebolista. Mas aos 51 anos a sua forma física está muito longe do apogeu. “Todos os Andrade têm o vício do futebol. É uma tradição de família”, declara ofegante enquanto olha em volta pelas bancadas vazias do campo do Estrela da Amadora. Manuel não diz nada mas pressente-se uma certa nostalgia no olhar. Durante muitos domingos sentou-se naquelas mesmas cadeiras pintadas com as cores do clube da Reboleira, só para ver jogar os seus filhos, o Jorge e o seu irmão mais velho, o Carlos.
Aos 18 anos, também Manuel Andrade era um craque da bola. Foi com essa idade que viajou da ilha de São Tiago, em Cabo Verde, para Lisboa. Ia vestir a camisola do Atlético Clube de Portugal, clube que em 1972 era uma das potências do futebol português. “Jogava lá na frente. Tinha alguma força e velocidade”, confessa com humildade. Seis meses depois, o sonho caía por terra. Uma lesão grave afastou-o dos relvados e nunca mais recuperou a cem por cento. “E como naquele tempo os contratos não eram respeitados, saí bastante prejudicado”, queixa-se.
Três anos depois, jogava um clube alentejano da III divisão. A vida de desportista de alta competição nunca passaria de uma miragem. “Tive de fazer pela vida.” O ex-futebolista arrumou as botas e trabalhou na hotelaria durante mais de vinte anos. Hoje restam-lhe as recordações de jogos disputados com virilidade em campos pelados e de bancadas toscas de madeira, onde os adeptos se amontoavam para ver jogar os seus ídolos. “Tenho saudades desses tempos.”
LÁGRIMAS PELO FUTEBOL
As suas tristezas depressa foram apagadas da memória quando descobriu que os seus dois rapazes saíam ao pai. Tinham jeito para as fintas e para os golos. “Lembro-me de os ver a jogar na praceta. Era cá uma alegria”, recorda Carlos Pereira, um dos vizinhos na Amadora, que chegou a assistir ao baptizado de Jorge. Manuel Andrade sorri com o elogio rasgado e confessa que às vezes até chegava a dar uns toques com eles na rua. “Nunca partiram vidros ou amolgaram nada.”
Como o estádio da Reboleira ficava a poucos metros de sua casa, um dia decidiu levá-los pela mão para fazerem testes no clube. Os dois rapazes deslumbraram e assinaram logo contrato. Jorge tinha seis anos e Carlos oito. “Desde que a bola não prejudicasse os estudos, por mim não havia problema”, recorda a mãe, Manuela Andrade, de 53 anos. Mas não havia motivos para preocupações. Jorge era tão aplicado na escola como em campo. A família garante que gostava de todas as disciplinas e nunca perdeu um ano lectivo. Em casa, a rivalidade entre irmãos era saudável. “O Jorge era mais brincalhão, apesar da sua timidez. Era também o mais mimado.” Regalia de ser o mano mais novo.
Nos jantares de família, a conversa saltitava invariavelmente para os dramas e alegrias vividos no estádio da Reboleira. A irmã, Carla e a mãe, também entravam naquela conversa de homens, sem dificuldade. “Até eu ia assistir aos jogos e aos treinos deles. Quando um deles se aleijava era como se me tivessem dado o pontapé a mim”, confessa Manuela.
O primeiro revés da família deu-se quando Jorge tinha 13 anos. “Um dia, o miúdo chegou a casa lavado em lágrimas”, recorda o progenitor. “O treinador disse-lhe que ele ia ser emprestado ao Massamá.” O mundo parecia ter desabado para o rapaz franzino que só pensava em desistir do futebol. “Pai, estão a expulsar-me do Estrela. Não quero jogar mais à bola”, repetia incessantemente Jorge Andrade. Manuel explicou-lhe que o ‘mister’ não tinha nada contra ele. Apenas queria que rodasse noutro clube para ganhar mais maturidade e estatura. “Ele era muito baixo e magrinho. Disse-lhe para não baixar os braços e… comer mais.” Durante essa época, Jorge Andrade encheu--se de brio e suou a camisola. Como prémio, regressou ao Estrela no ano seguinte. “O treinador, o professor Adérito, recebeu--o de braços abertos.” De lá só iria sair para o FC Porto, alguns anos mais tarde.
DA AMADORA PARA CORUNHA
Uma grande moldura com a fotografia de Jorge Andrade domina a velhinha sala de troféus do Estrela da Amadora. O defesa central, nascido em Lisboa em 1978, enverga a camisola número 13 da selecção nacional, ao lado de outros craques do clube como Abel Xavier ou Jordão. “Conheço o Jorge desde que ele veio jogar para o clube”, afirma José Martinho, vice-presidente do Estrela há 30 anos. “Era muito franzino. Ninguém sonhava que ele se iria tornar num dos jogadores mais importantes da selecção nacional.” O dirigente recorda-se do seu espanto quando viu o jogador dos juvenis um ano depois de ter sido emprestado ao Massamá. “Deu cá um salto! Foi nessa altura que deixou de jogar como médio ofensivo e se tornou central.”
O Andrade, nome pelo qual era conhecido dentro e fora das quatro linhas, sempre foi considerado entre colegas e dirigentes como uma pessoa humilde, simples e profissional. “Tal como o irmão”, acrescenta de imediato José Martinho que reconhece que Carlos, também defesa central, terá sido menos bafejado pela sorte. “Se tivesse continuado a jogar durante mais tempo no Estrela não estaria hoje no Felgueiras mas noutro clube da dimensão do FC Porto ou no Corunha”, especula. “Mas aos 28 anos ele ainda tem tempo para provar que tem tantas qualidades como o Jorge.”
Uma coisa é certa: sempre que Jorge Andrade visita o clube que o viu nascer para o futebol, a simplicidade continua a ser o seu cartão de apresentação: “A fama não lhe subiu à cabeça.”
CASADO DE AZUL E BRANCO
Manuel e Manuela Andrade não esquecem o dia em que receberam a notícia de que o seu filho seria um dos reforços do plantel azul-e-branco. O próprio Pinto da Costa telefonou para a casa na Amadora a confirmar a transferência. “Ficámos contentes, mas não surpreendidos. Ele trabalhava muito. Era inevitável”, afirma o pai.
O Benfica também já se havia mostrado interessado no jogador. Jorge Andrade chegou a assinar um contrato-promessa com o presidente dos encarnados, Vale e Azevedo. “Durante cinco meses ficámos à espera de uma última palavra do dr. Azevedo. Mas o negócio acabou por não se concretizar”, recorda. “Por um lado foi melhor. Pois o contrato com o FC Porto era mais vantajoso.” Os dragões venciam mais um braço-de-ferro com o rival lisboeta.
Para os pais, a única preocupação passou a ser o facto do filho ir viver para longe de casa. Ele não era dado a copos ou noitadas. Nem sequer era namoradeiro, como acontece com alguns colegas de profissão. “Mas a 300 quilómetros de distância acabaríamos por nos preocupar”, confessa Manuela, que se regozijou com a notícia que ele se iria casar.
Sara era já uma namorada de longa data, que Jorge conhecera nos bancos da escola e que não morava muito longe. “Eles estavam sempre juntos. Pareciam feitos um para o outro”, enfatiza a mãe. O matrimónio teve lugar na Igreja da Amadora, a 10 de Junho de 2000, Dia de Portugal. “Apesar de ser o mais novo dos irmãos, foi o primeiro a casar-se.” Um novo mundo esperava por este rapaz, “sensível e incansável trabalhador.”
DE LEÃO AO PEITO?
Na casa na Amadora, o silêncio é interrompido de dez em dez minutos pelo comboio da linha de Sintra, que passa do outro lado da estrada. Um misto de resignação e saudade toma conta do casal Andrade. Hoje já nenhum dos seus três filhos mora com eles. “Casaram-se e têm as suas vidas. Mas visitam-nos com muita frequência”, conta Manuela que é agora uma avó embevecida. Jorge deu-lhe recentemente dois netos. “Teve dois gémeos há quatro meses: o Lucas e o Tiago.” Manuel espera que eles dêem continuidade à linhagem de futebolistas na família. “Pelo menos, já tenho um sobrinho que também joga nos iniciados do Estrela da Amadora”, informa.
Manuel passou a assistir aos jogos do seu filho mais novo através da televisão. O monte de cassetes de vídeo no canto da sala revela que deve ter centenas de partidas gravadas. “Fomos algumas vezes ao Estádio das Antas, mas agora que ele está na Corunha é mais complicado”, refere o pai, que confessa sofrer ainda mais por apenas poder ver o seu filho à distância.
Sportinguista dos sete costados, o cabo-verdiano, que hoje se encontra desempregado, ainda sonha em ver Jorge com o emblema do leão ao peito: “Vou revelar um segredo: o Jorge também é um adepto leonino. Nesta família, só as mulheres é que não são sportinguistas.” Nos embates entre Sporting e FC Porto, Manuel confessa que o seu coração se dividia: “Torcia pelos leões, claro, mas queria que o Jorge jogasse ainda melhor nesses jogos.”
Na rua, todos seguem com a mesma atenção a carreira do jogador no Desportivo da Corunha e na selecção nacional. Luís Lopes, dono do mini-mercado ‘Bissau’, não tem dúvidas que o ex-vizinho irá ser decisivo para a prestação da equipa das quinas no Euro 2004. “O seu voluntarismo e humildade em campo é igual à sua personalidade do dia-a-dia”, reconhece. O merceeiro conta uma história que exemplifica bem o carácter do atleta: “Cada vez que ele vem visitar os pais, faz questão de cumprimentar toda a gente do bairro e de vir aqui à loja carregar a bilha de gás para a mãe. Ele nunca deixou de ajuda-los.”
B.I. DE JORGE ANDRADE!
Nome completo: Jorge Manuel Almeida Gomes Andrade
Posição: Defesa central
Data de nascimento: 09/04/78
Altura: 1.84 m
Peso: 75 kg
Primeira equipa: Estrela da Amadora
Actual clube: Deportivo da Corunha
Naturalidade: Lisboa
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