Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
3

FAMOSOS: OS MELHORES 4 ANOS

Herman José teve medo de Fraulein Bein. Maria José Nogueira Pinto fartou-se de chorar. Edite Estrela liderou uma revolução no pátio. E Luís Represas teve uma professora, de nome Ceiça, que lhe arrebatou o coração de menino. Memórias da escola primária que resistiram ao passar dos anos.
7 de Setembro de 2003 às 17:27
“Foi um sofrimento atroz. Tinha quatro anos e o meu pai ‘abandonou-me’ nas mãos da Fraulein Bein, no 'kindergarten' (jardim infantil) da Rua do Passadiço”. É desta forma traumática que o humorista Herman José, recorda o seu primeiro dia de aulas (ver caixa). Apesar de já terem passado mais de 45 anos, Herman ainda mantém vivas as memórias desses tempos ‘conturbados’ em que era um perigo à solta' - escapava sempre aos severos castigos dos professores, porque ninguém duvidava da candura do seu olhar.
‘Reguadas’ e ‘raspanetes’ também não fizeram parte do percurso escolar do escritor Francisco José Viegas, 41 anos, que não teve outra opção senão aprender a ler e a escrever na escola primária de Cedovim na Beira-Alta, onde o pai e a mãe eram os únicos professores. “O meu pai era exigente, disciplinado e muito explicadinho. E eu era o aluno de quem se exigia mais”, recorda o escritor, que dessa forma lá se foi ‘safando’ na disciplina de matemática.
Apesar de já não se recordar do seu primeiro dia de aulas, há um pormenor que Francisco José Viegas nunca esquecerá: além de ser ‘fanático’ por andebol, era ele quem tinha mais cromos de Pavão, famoso jogador do Futebol Clube do Porto. Depois veio o 'adeus' à aldeia beirã, e em Chaves, o Francisco José ingressou na "velhinha Escola Primária da Lapa, com recreios enormes e tinteiros nas carteiras das salas" E para a porteridade registe-se que, aos 41 anos, Francisco José Viegas se lembra ainda, das brincadeiras dos tempos do bê-a-bá, com a Carla, o Ângelo e as suas irmãs.
A ALEGRIA DE COMPRAR
A jornalista da SIC, Cláudia Borges, também já não guarda as memórias do seu primeiro dia de aulas, no Colégio Lar da Criança. Não tem memória de ter chorado mas também não se lembra de grande excitação. Nessa altura, tinha uma adoração pela disciplina de desenho e também pela professora. Pensava que quando fosse grande, ia ser como ela. "Eu era uma criança muito certinha e ficava aflita quando não atingia os objectivos escolares que pretendia."
Aliás, a Cláudia vibrava isso, sim, com o ritual em torno das aulas - um certo encantamento de comprar aquilo que teria serventia para a nova vida escolar (ver caixa). Hoje, mãe de dois filhos, ainda tenta manter a tradição das compras mas, em época de consumismo, a tradição já não é mesmo o que era. Comprar deixou de ter magia, para se tornar banal.
‘BABA E RANHO’
A actual provedora da Santa Casa da Misericórdia, Maria José Nogueira Pinto, também tinha uma predilecção especial pelas artes. Na escola onde aprendeu o ABC, no Campo Grande, em Lisboa, gostava de fazer desenhos com lápis de cor ou de cera.
Do primeiro dia de aulas lembra-se muito bem e guarda as piores recordações: “Fui para o colégio com seis anos. Fartei-me de chorar. A professora era muito exigente e seca”, conta a ex-deputada do Partido Popular.
Habituada a outras realidades, a pequena Maria José sentiu falta da “brincadeira de rua”, onde tinha os seus “melhores amigos”. “Na escola, a disciplina que eu mais gostava era a de desenho, e sempre fui boa aluna.” E que remédio numa escola em que a disciplina “era levada muito a sério”.
REBELIÃO AO INTERVALO
Já em pequena, a deputada socialista, Edite Estrela, 54 anos, gostava de liderar as ‘massas’. No pátio da escola primária da aldeia de Belver, Carrazeda de Ansiães, foi responsável por uma revolução, que colocou frente a frente, a professora e os alunos: “Nesse dia não nos apeteceu parar de brincar para recomeçar as aulas. E claro, a professora é que não achou piada nenhuma à brincadeira....” (ver caixa)
Mas nem todos pensam no primeiro periodo da educação escolar com a neblina das boas recordações. Há quem se lembre sem grande pormenor ou emoção. Por exemplo, Luís Represas, para quem a escola primária não foi, de facto, um período trepidante da sua vida. “Andei no Lar da Criança, em Lisboa. O primeiro dia não foi muito emocionante porque eu já lá andava há dois anos. Passar para a 1ª classe foi mais um ‘upgrade’ do que outra coisa.” O prodigioso Luís já sabia ler. “Nas contas é que era o diabo...! Gostava muito de língua portuguesa e dos trabalhos manuais. E, claro, do canto coral.”
Na memória ficou-lhe, porém, a professora de nome Ceiça que “era muito bonita” e com ideias de revolução: “Fazia parte de uma geração que queria acabar com a ‘velha’ primária e trazer novos conceitos pedagógicos. O Lar foi um dos colégios pioneiros que arriscaram a mudança.”
MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO, 51 ANOS, PROVEDORA DA SANTA CASA
“Fui para a escola primária do Campo Grande com seis anos e lembro-me que logo no primeiro dia fartei-me de chorar. Não gostei nada. A professora, D. Beatriz, era muito exigente e seca. E eu estava mais habituada a ambientes calorosos e lúdicos. Como ainda sou do tempo em que se brincava na rua, os meus melhores amigos eram todos os meninos com quem eu partilhava essas brincadeiras.
Na escola, a disciplina que eu mais gostava era a de desenho, e sempre fui boa aluna. Portava-me bem, mas mesmo que quisesse, era complicado porque a disciplina era levada muito a sério. Se bem que os castigos corporais fossem raros.”
HERMAN JOSÉ, 49 ANOS, HUMORISTA
“Frequentei a Escola Alemã de Lisboa. O primeiro dia de aulas foi um sofrimento atroz. Tinha 4 anos e o meu pai ‘abandonou-me’ nas mãos da Fraulein Bein no 'kindergarten' da Rua do Passadiço. O professor mais disciplinador era o senhor Azevedo. Pegava no Bentinho Amaral pelas orelhas, levantava-o e ‘rebentava-lhe’ a cabeça contra o quadro. A disciplina que mais gostava era ‘Kunst’ (Arte). Fui sempre um aluno médio. Tinha coisas muito mais interessantes para fazer do que estudar. Tinha excesso de imaginação. Um perigo à solta. Mas escapava sempre. Ninguém ousava duvidar da candura do meu olhar de anjo.O meu melhor amigo era o António Lencastre de Bragança. Mais tarde, o Alberto Bravo. Seguiu-se o Toni Ehlert e o António Fuertes. A rapariga dos meus sonhos era a Leninha Faria, mas ela gostava era do Alberto Bravo. Aquilo que mais me marcou foi a minha consagração na peça 'Le Médecin de Cucugnan' encenada pelo prof. Horst Köpke”.
CLAUDIA BORGES, 36 ANOS, JORNALISTA
“Frequentei o colégio ‘O Lar da Criança’ na Estrela. Recor-do-me pouco do primeiro dia de aulas. Mas não me esqueço da compra do material escolar. Todos os anos, ia com os meus pais e irmãos à Papelaria Fernandes, em Lisboa. Era um programa que ocupava toda uma tarde. Aquele, era um dia de festa, o evento da época. Com os meus filhos tento manter o mesmo ritual. Contudo, a magia já não é a mesma. Mas é sempre uma excitação, uma gritaria. Na escola, tive uma professora que me marcou muito, a Amelinha, que era um género de avó, muito doce. Mau, era quando éramos chamados à Bertinha, a directora do colégio – aí sabíamos que havia castigo na certa. "
EDITE ESTRELA, 54 ANOS, DEPUTADA
“Fiz a primeira classe na escola da aldeia, em Belver, Carra-zeda de Ansiães. Era a mais nova da turma porque só fazia anos em Outubro, por isso com cinco anos já estava a frequentar a escola. Joaquina era o nome da minha professora primária, que conseguia manter a disciplina na sala de aulas sem ser muito dura. Mas claro, de vez em quando os mais traquinas levavam umas reguadas. A minha disciplina preferida era a Matemática. Apesar de não ter dado muitas dores de cabeça à professora, fui castigada uma vez por ter liderado uma ‘revolução’ no pátio. Nesse dia, não nos apeteceu parar de brincar, a professora é que não achou piada nenhuma à brincadeira..."
A INFÂNCIA DE ALICE
Autora de livros infantis, Alice Vieira não viveu aos seis anos a emoção do primeiro dia de aulas no 1º ciclo, na antiga primária. Criada em casa, com professora particular, a escola foi sempre uma miragem apetecida. O seu testemunho na primeira pessoa: “Tive uma experiência escolar boa em termos de aprendizagem, porque cheguei ao liceu com um conhecimento superior à média - mas que não compensou uma infância que acabou por ficar perdida. Apesar dos meus pais estarem vivos, fui criada com tios e tias, porque a minha mãe, na altura com uns 23 anos, achava que era muito nova para tomar conta dos três filhos. Aprendi a ler e a escrever com a professora Judite, que todos os dias ia lá a casa. Deu-me uma excelente formação. Foi ela que me incentivou para a leitura. E, como vivi uma infância fechada, fora do mundo infantil, as personagens dos livros eram os meus amigos. Fui para o liceu com 10 anos porque queria muito conviver com as outras crianças, sair de casa, ver o mundo lá fora. E esses foram os melhores tempos da minha vida. Cheguei a inventar aulas só para passar mais tempo no liceu com as minhas amigas. Frequentei um liceu só de raparigas, o Filipa de Lencastre, em Lisboa. Era muito popular entre todas as alunas. Era muito boa aluna, tirando a Matemática que sempre foi a minha desgraça.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)