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Fantasia

“A paixão extinguiu-se, lembra-se de ter pensado que não sentia mais nada por ele.”
Tiago Rebelo 7 de Agosto de 2011 às 00:00
Fantasia
Fantasia

Ele encontrou-a hoje e pareceu-lhe abandonada. Viu-a sentada sozinha naquela esplanada onde costumavam encontrar--se e achou-a perdida. Ia a passar de carro e lá estava ela. Parou no semáforo e ficou ali a observá-la, a pensar como, em tempos, a amava, e como morria um pouco cada dia sem ela quando a perdeu. Vai sabendo dela por amigos comuns, sabe que também desprezou aqueles que a amaram depois dele, que não os considerou suficientemente bons para si. Não sabe o que ela procura, mas sabe que está sempre só, mesmo quando tem alguém, porque vive no seu mundo, preocupada consigo, virada para dentro.

Ela também o viu a passar de carro, mas fingiu que não reparou. Desviou os olhos, não fosse ele parar para lhe falar. Não lhe apeteceu falar com ele. Houve uma época, um tempo curto, em que o amou incondicionalmente. Nessa altura precisava dele, receava que a deixasse, pois dependia dele, do seu apoio, para a ajudar a suportar as suas fraquezas, os seus medos. Pedia-lhe, não te esqueças de mim. Ele dava-lhe ânimo, encorajava-a. Mas depois de encontrar o seu caminho, de estabelecer um rumo, ainda que temporariamente, nesse exacto momento perdeu o interesse por ele.

Ele não, ele amava-a e quis continuar a ter o seu amor, desejou-a mais do que nunca. Compreendia que ela havia mudado, que já não precisava dele da mesma forma, mas queria-a ainda assim, a mulher que amava. Por isso não desistiu dela.

Mas era tarde demais. Ela não o queria. A paixão extinguiu-se, lembra-se de ter pensado que não sentia mais nada por ele. Por isso deixou-o. Sabe que foi egoísta e injusta, sabe que não o tratou como merecia, mas que queres, a vida é assim, disse-lhe, se ficasse contigo seria um fardo para ti porque já não gosto de ti, preciso da minha liberdade e tu da tua. Não, respondeu ele, eu estou preso a ti, preciso de ti como tu também precisavas de mim. Ela encolheu os ombros, mas já não preciso, disse, e virou-lhe as costas.

Mas ao vê-lo hoje, sentiu um vazio. Acha que ele não a percebe, provavelmente ninguém a percebe e sente-se angustiada com isso. A sua vida é uma sucessão de desaires, de relações destruídas que ficam para trás com um encolher de ombros, com uma indiferença fria e calculada, de ressentimentos ignorados para não ter de se culpar a si mesma.

Talvez nunca encontre quem perceba as suas necessidades, o seu desesperado desejo por um amor que nunca sentiu, por algo que embora não sendo mais do que uma fantasia, um dia, tem esperança, passando por cima dos incontáveis destroços que deixa pelo seu caminho incerto, um dia, quem sabe, o sonho se torne realidade.

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