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FARO: FOME EM PORTUGAL

Centenas de pessoas vivem em bairros degradados na capital algarvia, algumas há quase 30 anos. Coabitam diariamente com ratos e cobras e queixam-se de frio e de subnutrição. O presidente da Câmara Municipal, José Vitorino, já assumiu o combate à miséria como uma prioridade. Mas também há quem simplesmente não queira trabalhar – e esses não serão ajudados, ressalva
31 de Janeiro de 2003 às 20:22
Ana Alexandra Santos, de 22 anos, vive numa pequena barraca na Horta da Areia, bairro periférico de Faro, com o marido e um bebé de sete meses. Os buracos no telhado deixam passar frio e chuva. “Isto é uma miséria. Nem posso dar banho à criança”, lamenta. O filho, André Filipe, que durante todo o dia apenas se alimenta com o leite materno, foi hospitalizado aos três meses devido a uma broncopneumonia, doença que Alexandra associa às condições precárias em que vive a família.

“O rendimento mínimo pouco ultrapassa os 100 euros por mês, o que não dá para nada, nem para as fraldas”, queixa-se. Face à miséria que afecta este agregado familiar, Alexandra deixa um alerta: “Era bom que a Câmara nos desse uma casinha, comida e cobertores, É a saúde do meu filho que está em risco.”

A Horta da Areia é um dos bairros da capital algarvia onde se concentra um maior foco de pobreza. No entanto, também no sítio de Lejana de Cima, em plena zona de expansão urbana, várias famílias vivem em precárias condições de habitabilidade. No total, estão referenciados, no concelho, 719 casos de pobreza, 250 dos quais localizados na Horta da Areia.

Agora, a Câmara Municipal de Faro promete-lhes ajuda. A uns vai proporcionar casas novas, a outros já está a entregar alimentos e agasalhos. A iniciativa, garante o presidente da autarquia, José Vitorino, vai prolongar-se durante todo o Inverno. “Dos que estão em situação pior, seleccionámos 115 a quem levamos todas as noites uma refeição constituída por sopa, pão e uma peça de fruta”, revela o autarca, que decidiu atribuir ainda, a 300 habitantes carenciados, mantas e plásticos grossos para isolarem das intempéries as respectivas habitações precárias.

A título de exemplo, José Vitorino refere o caso de uma família constituída por 20 pessoas a quem foram atribuídas duas tendas, pois “viviam numa barraca improvisada com dois paus e panos por cima”. O autarca refere ainda que, no sítio de Lejana de Cima, algumas famílias vivem em condições degradantes há cerca de 30 anos. “Estas pessoas nem uma torneira de água tinham, embora o depósito de abastecimento da rede pública esteja a menos de 50 metros”. De acordo com o autarca, com esta intervenção, o executivo visa “atenuar a desgraça existente”, para que “as pessoas vivam o menos mal possível”, enquanto não são construídos novos fogos de habitação social.

“Antes de darmos casas às pessoas, há que adquirir terrenos, o que é um processo demorado, e só depois construí-las. Não se pode esperar a solução ideal para fazer alguma coisa, porque, se não acontece o que está à vista, as pessoas continuam a viver nestas condições degradantes”, justifica José Vitorino.

Os primeiros 198 fogos a construir já têm habitantes destinados: as famílias que vivem em situação mais difícil e há mais tempo nos bairros carenciados. Aqueles que não têm mudança prevista para breve vão receber a ajuda da autarquia para pintar as casas, reparar janelas e telhados e colocar sanitários e lava-loiças: “Estamos a procurar que haja um mínimo de dignidade naqueles espaços”, salienta o autarca, reforçando que, por exemplo na Horta da Areia, além de terem recebido mantas, os moradores já não pagam as rendas nem a água que consomem.

O projecto de ajuda camarária agora em marcha ainda é pouco para fazer face ao problema, reconhece o autarca, que deixa no entanto uma advertência: “Pobreza, infelizmente, haverá sempre. O que queremos, em Faro, é que deixe de haver fome. Mas não é nossa intenção alimentar quem não quer trabalhar e tem mãos e braços para tal”, assegura.

UM CAFÉ E UMA FATIA DE PÃO

Na casa de Maria de Fátima dos Santos Boguinha há 12 pessoas – mas a casa continua a ser apenas uma. Maria de Fátima, de 41 anos, vive há onze na Horta da Areia, onde partilha três quartos com marido, filhos e netos. “Isto não é uma casa, é só um bocado de platex com umas chapas por cima. Há ratos por todo o lado e o frio congela-nos os ossos”, denuncia.

Mas as queixas não se esgotam por aqui. O marido já “caiu à cama” com gripe, devido ao vento que entra pelos buracos do tecto, e as crianças “estão quase sempre constipadas pois dormem no chão”.O dinheiro é contado e não chega para tudo. Maria de Fátima recebe 160 euros por mês, através do rendimento mínimo, e só às vezes, quando “a maré dá” e o marido vende umas amêijoas, são acrescentados à quantia mais cinco ou sete euros.

“É muito pouco” reclama, porque ainda tem que pagar luz, embora da renda e água esteja isenta. “Os homens da Câmara disseram que não valia a pena estar a pagar renda por isto”, explica, referindo-se à barraca. “Às vezes, para jantar, como não temos sopa, peixe ou carne, fazemos café e dá-se uma fatia de pão a cada um. Passamos assim muitas vezes, porque o dinheiro não dá para mais”, conta a “matriarca” desta família, a quem os membros de uma ordem religiosa local prestam algum apoio. “Dão-nos fraldas, roupa e calçado para as crianças. Se não fossem elas, não conseguíamos sobreviver”, revela.

Por enquanto Maria de Fátima, só pode esperar que a Câmara de Faro cumpra a promessa e lhes dê casa nova e algum conforto. Mas é preciso ver para crer: “Quando vim para cá, disseram-me que ficaria só um ano e meio, mas já cá estou há onze anos”, lembra, enquanto embala o neto Tiago, de três meses. A ele e à pequena Rute, de quatro anos, outra das crianças de quem cuida, o futuro é que não promete sorrir: “A maioria dos meus filhos não sabe ler nem escrever, por isso também se torna difícil conseguir emprego.” A neta Maria do Carmo, de onze anos, persegue o sonho de aprender e está na escola, mas o tio, três anos mais velho, foi obrigado a deixar os livros “para ajudar o pai” no trabalho dos adultos.

COBRAS E RATAZANAS

Há meio século que Marcelina Zanibita conhece de perto os dissabores da vida. Mora há mais de duas décadas numa casa sem janelas nem portas interiores, a qual partilha com o marido e um filho. “Queremos governar vida e não podemos. O nosso presidente disse que vinha arranjar as casas, mas ainda não fez nada, embora esteja tudo a cair”, queixa-se a mulher, que lamenta ainda a falta de recursos para cuidar da saúde, que “também que já não é muita”.

Ferida na mão direita, diz que nem para ir à farmácia “aviar uma receita” tem dinheiro, embora o médico a tivesse avisado dos perigos. “Se não tomo os remédios fico sem a mão, mas não tenho um tostão para nada! Quero comprar os remédios e não posso”, lamenta-se.

A casa onde vive tem três quartos, cozinha, casa de banho e sala, mas todas sem qualquer funcionalidade. Para além de exíguas, às divisões falta o equipamento necessário. “Nem sanita temos. Isto é uma desgraça e está tudo partido. Aqui só há cobras e ratazanas. Não podemos considerar isto uma casa”, critica Marcelina, que, de vez, em quando vende no mercado “umas peças de roupa para ganhar algum” e sobreviver.

“Há dias em que não se vende nada. Temos uma carrinha mas está ali com as rodas vazias”. O pouco que o casal recebe com as vendas “dá para o comerzinho” e não é sempre. Durante dias inteiros, Marcelina apenas sente o sabor do café que bebe pela manhã. “Ainda ontem passei o dia inteiro sem comer nada”, conta. É que o pão, quando não é fiado ou oferecido pelo padeiro, não entra em casa.

BARRACA EMPRESTADA…

Maria Orlanda Martins tem 28 anos e é mãe de cinco filhos. A família vive debaixo de uma árvore, coberta por uma lona, nunca no mesmo lugar, mas sempre nas imediações do centro de saúde. “É uma vida difícil, pois a Polícia manda-nos sempre embora”, diz. Ultimamente Maria Orlanda tem estado albergada numa barraca emprestada, na Lejana de Cima. “Uns amigos ciganos, que agora não estão cá, tiveram pena de mim e meteram-me aqui com as crianças. Estou aqui uns dias, até que os donos voltem”, revela a mulher, preocupada por não ter onde pôr a dormir os filhos, com idades compreendidas entre os dois e os 14 anos.

“Ainda ontem vim do hospital com o meu filho mais novo, que tem uma infecção no pulmão por causa do frio”, conta Maria Orlanda, beneficiária do rendimento mínimo. Por mês recebe 350 euros, quantia que, garante, não chega para sustentar a família. “Só nos medicamentos gasto quase todo o dinheiro, sobretudo para o bebé, que tem uma bronquite”, revela. O marido de Maria Orlanda não trabalha, porque “não lhe dão emprego”, alega. No Verão trabalha nas estufas. Mas há dias em que os membros mais velhos da família não comem. Passam fome.

…OU CARRO EMPRESTADO

Telma dos Santos, 20 anos, dorme com o marido e a filha de 18 meses “dentro de um carro emprestado”, porque na tenda que lhes serve de abrigo o chão é feito de terra e pedras. Na vizinhança não consegue um quarto, pois todos apresentam “miséria a mais” para possibilitar essa ajuda. “Faz muito frio. Quando chove a tenda fica toda molhada porque a água entra e não conseguimos estar cá dentro”, refere a jovem.

O marido costuma apanhar marisco para vender, mas nem sempre consegue trazer dinheiro suficiente para sustentar a casa. “Eu queria ir com ele mas não posso. A minha menina está quase sempre no hospital. Ainda há poucos dias esteve internada, porque apanhou uma broncopneumonia aqui, por causa do frio. Vivemos muito mal”, queixa-se a mulher, que recebe 175 euros por mês do rendimento mínimo. A comida para a filha, Érica, é o mais importante. Essa tentam que nunca falte, nem que o casal tenha de passar alguma fome, reconhece Telma dos Santos. “Quando está bom tempo ainda podemos comer e dormir na tenda, mas quando chove isto é um rio, não podemos estar cá dentro, as nossas coisas, que já são poucas, molham-se todas”, diz com tristeza. “Estou a viver muito mal. Recolhem tantas pessoas com mais do que eu, também me podiam recolher a mim”, solicita, esperançada numa das novas casas já prometidas pela Câmara.
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