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FÁTIMA: RAZÃO E CORAÇÃO

A 13 de Maio, altas figuras da economia, da política e ‘jet-set’ irão percorrer, ao lado de milhares de peregrinos anónimos, a via-sacra até ao Santuário de Fátima. A fé pela Nossa Senhora não tem classes ou cores políticas
11 de Maio de 2003 às 19:08
FÁTIMA: RAZÃO E CORAÇÃO
FÁTIMA: RAZÃO E CORAÇÃO FOTO: Bruno Raposo
São homens da razão. Usam a fria lógica dos números. E decidem nos seus gabinetes os destinos de milhares, ou mesmo de milhões. Mas para além dos cargos de poder, Maria José Nogueira Pinto, António Pinto Leite, Pedro Líbano Monteiro ou João César das Neves têm em comum a fé por Nossa Senhora de Fátima e o facto de rumarem com frequência ao Santuário para cumprir promessas, orar pela Virgem, estar com Deus ou simplesmente recarregar baterias. A 13 de Maio, todos os caminhos vão dar a Fátima.
“A religião e a razão são compatíveis”, defende a provedora da Santa Casa da Misericórdia, Maria José Nogueira Pinto. ‘Zezinha’, diminutivo pelo qual é conhecida, todos os anos desloca-se religiosamente a Fátima. “A mensagem que Nossa Senhora transmitiu, entre 13 de Maio a 13 de Outubro de 1917, através de três humildes pastorinhos, naquele lugar perdido, mudou o mundo”, defende. No entanto, Maria José Nogueira Pinto não irá estar entre os milhares de peregrinos que, no próximo 13 de Maio, irão percorrer a via-sacra. “Irei, não a 13, porque não posso, mas noutra ocasião”.
O economista e professor universitário João César das Neves é outro dos notáveis que é visto com regularidade no Santuário. “Vou lá duas vezes por mês, ou pelo menos de dois em dois meses”, declara o ex-assessor de Cavaco Silva. São “os actos de fé” que o movem de Lisboa à Cova da Iria, mas também um sem-número de conferências em que é convidado a participar. “Mesmo assim, não cumpro promessas tantas vezes quanto devia”, admite, embora não tenha qualquer dívida para com a divina santa. Curiosamente, ou talvez não, César das Neves considera que o culto a Nossa Senhora não é muito admirado actualmente pelos portugueses. “Pelo contrário, Fátima é bastante desprezada”, opina. “Poucos são os que compreendem o seu chamamento”.
A sua tese não é corroborada por António Pinto Leite, outro acólito inveterado que vai a Fátima “para estar com Deus”. O advogado e dirigente social-democrata considera que a fé ainda fala mais alto neste País de brandos costumes: “As sondagens continuam a dizer que nove em cada dez portugueses acreditam em Deus”. E sobre o fenómeno de Fátima tem uma resposta na ponta da língua: “Acredito no que Jacinta, Francisco e Lúcia contaram. Não vejo porque mentiriam. Fátima foi mais um fenómeno da presença do divino na esfera humana. À luz dos nossos dias, Fátima é uma verdade factual mas também um mistério espiritual e humano”. E remata: “Porque dariam a vida por aquela história?”.
Com a presidência do ICEP e do IAPMEI, Pedro Líbano Monteiro quase não tem tempo para respirar. Ainda assim, consegue ‘escapar-se’ duas a três vezes por ano em direcção à Cova da Iria. “É uma paragem na vida agitada que levo. Uma ocasião de recarregar baterias colocando sob a alçada da Virgem Maria as minhas alegrias e preocupações”, explica. O gestor considera que a frieza das decisões do dia-a-dia não está divorciada da crença religiosa. “A razão explica-nos a fé. Ao longo da História, as reacções dos grandes sábios perante as suas descobertas louvavam a Deus ou convertiam-se perante a grandeza da Criação”, disserta Líbano Monteiro, recordando os exemplos de Pascal, Madame Curie ou Neil Amstrong.
FÉ COR-DE-ROSA
Os dias de Lili Caneças não são passados apenas entre festas e inaugurações de lojas de ‘griffe’. A denominada ‘super-tia’ esconde uma faceta menos ‘glamourosa’ e mais espiritual: a devoção a Nossa Senhora do Rosário. “A minha paixão por Fátima foi-me transmitida pela minha mãe, uma fervorosa devota. Ela nasceu num dia 13 de Outubro, data da última aparição de Fátima e também escolheu essa altura mítica para se casar”, conta. Lili Caneças já perdeu a conta das vezes que foi a Cova da Iria, mas recorda-se com precisão do dia em que, ao lado de um milhão de pessoas, assistiu à beatificação dos pastorinhos pelo Papa, em Maio de 2000. “Foi um sentimento indescritível. E estive por quatro vezes junto ao Santo Padre”, recorda. “Fátima é o maior acontecimento da História e a sua mensagem é bastante actual, numa altura em que as forças do mal estão em ascensão. Nossa Senhora pediu oração pela paz no planeta. E o bem um dia vencerá”, exalta.
Este ano, a sua filha, Rita Caneças, acompanha-a no périplo místico. “Vamos participar na procissão das velas”, anuncia a mais jovem do clã Caneças. “Fátima é uma ponte de fé à vida, de luz e amor a Deus”, disserta Rita que não se deixa iludir pela sua vida, por vezes mundana: “Os luxos materiais, por si só, não têm qualquer significado. É preciso uma busca espiritual, uma procura interior e uma fé profunda no catolicismo”.
Foi igualmente em Fátima que o cantor Marco Paulo encontrou a “paz e serenidade interior” que necessitava para ultrapassar a sua doença, diagnosticada em 1996. “A devoção pela Virgem cresceu ainda mais depois de passar este problema. Sempre que posso, vou agradecer e pedir a intervenção da Nossa Senhora para ajudar pessoas que estiveram doentes como eu”, confessa o autor de ‘Eu Tenho Dois Amores’. O cantor considera que os portugueses deviam estar orgulhosos por ter esta santa. “Fátima é a mãe. A mãe de todas as santas”, desabafa com emoção. “A 13 de Maio lá estarei!”.
Marco Paulo não irá encontrar a actriz Marina Mota que, apesar de viajar frequentemente até ao Santuário, prefere fazê-lo em alturas de menos confusão. “Aquele local transmite-me uma paz tão grande”, confessa. “Embora seja crente de Fátima, não sou praticante de nenhuma religião. Aliás, o mal das religiões é julgarem-se donas da verdade absoluta”, crítica a humorista.
FADO, FUTEBOL E FÁTIMA
No futebol, mundo de amuletos e superstições, não faltam devotos de Nossa Senhora. Os treinadores, que passam de ‘bestiais a bestas’ enquanto o diabo esfrega o olho, também depositam fé em Fátima. Fernando Santos e Augusto Inácio são os dois casos mais mediáticos. “Tenho uma imagem pequena de Nossa Senhora, que guardo há nove anos. É uma imagem singela mas que traduz uma grande fé minha”, admitiu o treinador do Vitória de Guimarães.
Gilberto Madaíl confessou publicamente a crença na aparição de Fátima aos três pastorinhos. Antes da viagem da selecção nacional para o Mundial de Futebol da Coreia e do Japão, em 2002, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol pediu ajuda a Nossa Senhora. De pouco valeu. Pinto da Costa, por sua vez, foi a Roma entregar ao Papa uma imagem da Santa, com um emblema do FCP na base. “Um momento de orgulho”, declarou o dirigente. Não deverão faltar muitos dias para Pinto da Costa ir a Fátima agradecer mais um título do seu clube do coração. Porque a fé ainda move montanhas.
VISITAS AO SANTUÁRIO
NÚMERO DE PEREGRINOS PORTUGUESES (por cidades)
Faro 5 785
Braga 20 540
Leiria-Fátima 45 725
Lisboa 25 401
Porto 36 005
NÚMERO DE PEREGRINOS (por sexo, de Maio a Outubro)
Homens 1 040
Mulheres 2 905
NÚMERO DE PEREGRINOS ESTRANGEIROS
Itália 30 343
Espanha 24 751
Irlanda 7 134
Polónia 7 086
EUA 6 684
Alemanha 6 476
França 3 063
Inglaterra 2 666
Brasil 1 685
Filipinas 1 476
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