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FEIRA POPULAR: QUATRO DÉCADAS DE PROMESSAS

O fim do parque lúdico mais antigo de Lisboa foi novamente anunciado. Muitos feirantes dizem-se cansados de 42 anos de sucessivos projectos. Outros continuam confiantes.
7 de Fevereiro de 2003 às 19:00
“A minha família está ligada ao divertimento há 64 anos. Depois do meu avô foi o meu pai, e mais tarde fui eu... Estou muito ligado à Feira e vou ter muitas saudades. Mas, a vida continua”. É deste modo que Alexandre Oliveira, dono de grande parte das atracções da Feira Popular de Lisboa, se pronuncia relativamente ao doloroso, mas também ansiado, fim do maior parque lúdico da Grande Lisboa.

Desde 1961 a aguardar por um espaço que a acolha, a Feira Popular viveu os últimos 42 anos à espera de ver resolvida a situação provisória em que se encontra, desde que foi transferida para a Avenida da República. Quando questionado sobre como tem lidado com a polémica que envolve essa mudança (sempre adiada), Alexandre Oliveira, de 58 anos, atira: “Só me posso rir porque isto é ridículo”.

Em recentes declarações, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa anunciou que é sua intenção ver os terrenos da Feira Popular desocupados rapidamente e mostrou-se decidido a resolver o problema da Feira e o dos feirantes. Notícia que, apesar de tudo, dá ânimo a quem dedicou uma vida ao parque de diversões.

Alexandre Oliveira, por exemplo, tempera o optimismo com alguma cautela. Afinal, passou quase toda a vida a acreditar numa solução para o problema. “Parece-me que é desta. Pelo menos tenho fé. Se não for, então já não acredito em ninguém”, confessa. E lembra o passado recente. “A determinada altura acreditei que João Soares tinha todas as condições para o fazer.

Mas, ocupado com assuntos de maior importância, acabou por não fazê-lo”, assinala o feirante, para acrescentar que: “A culpa de tudo isto, embora seja simples atirá-la para os outros, é essencialmente dos políticos”.

Como consequência, o local tem vindo a degradar-se, tornando-se num parque de diversões obsoleto. “A nossa oferta não está de acordo com o que se exige hoje em dia. Temos capacidade de proporcionar uma oferta melhor, se nos derem condições para isso”, assegura.

Havendo fraca oferta, também a procura entra em declínio. “Desde 1991 que o nosso pico máximo tem vindo a decrescer. Há feirantes em situação muito grave”, conta o empresário.

HIPÓTESE AQUAPARQUE

Santana Lopes pretende utilizar o espaço da Feira para a construção de habitações e escritórios de luxo. E embora defenda que os lisboetas merecem um parque de diversões novo, não avança com um espaço alternativo para o instalar. “Não estou preocupado com isso, desde que sejam dadas justas indemnizações”, refere Alexandre Oliveira, garantindo que os feirantes, em geral, encontram-se em grande desgaste psicológico. “Eu, por exemplo, não quero entrar numa nova Feira Popular nas condições em que esta está. Tenho a minha concepção do que é um parque e já me custa aceitar ideias de pessoas que estão fora do assunto”. O empresário da diversão tem, aliás, uma proposta concreta, que até foi apresentada à Câmara (e que, especulou-se, poderia ocupar o espaço do antigo Aquaparque do Restelo).

Sem querer adiantar muito sobre os motivos que fizeram recuar o processo, Alexandre Oliveira deixa escapar: “Perdi a vontade de lá fazer alguma coisa porque nunca tinha enfrentado uma oposição tão grande relativamente a algo que as pessoas nem sabiam o que era”.

O desejo de oferecer um novo espaço lúdico aos portugueses mantém-se. “Não sei bem o que é que o presidente da Câmara pretende. Ele deverá ter as suas ideias, assim como eu tenho as minhas. Se conseguirmos aferir as duas, tudo bem, se não pudermos, muito bem também”.

Enquanto um novo projecto não avança, José Manuel Menezes, proprietário de um dos 49 restaurantes da Feira, apela para que os políticos assumam as suas responsabilidades. “Há que não ter medo e ir para a frente com bom senso e justiça. Cabe à Câmara dar o passo definitivo, lembrando os feirantes que aqui estiveram todos estes anos a sustentar uma colónia infantil [da Fundação O Século], sem nunca o Estado ter dado um único subsídio”. Alexandre Oliveira acrescenta: “A única coisa que [a autaquia] nos cedeu todos estes anos foram vasos de flores”.

E, prevendo negociações difíceis, remata: “O que eu queria era que toda a gente saísse daqui de cabeça levantada e com dignidade. Infelizmente, nestas coisas, há sempre uns mais espertos que outros”.
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