Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
6

Feminino, masculino

‘O Gerânio – Contos Dispersos’, da americana Flannery O’Connor, que recomendo, e muito, serve para dissertar sobre o ‘género’ das letras
13 de Junho de 2010 às 00:00
Feminino, masculino
Feminino, masculino

Podemos pensar num alfabeto feminino, mas tal não adianta. No fundo, é isto: feminino e masculino não se diferenciam nas letras, não existe o ‘A’ feminino, nem o ‘A’ masculino.

Não se trata de delicadeza ou brutalidade; as letras por si só não são forças ou fraquezas, são traços – e assim está bem. Desenhos mais racionais que os desenhos normais, eis as letras (e assim está bem).

Mas as letras, quando se juntam nessa espécie de pequenas comunidades que são as palavras, as letras, então, nesse formato de aldeia (a palavra) continuam a ter a sua marca informe, nem para um lado nem para outro: nem femininas nem masculinas; as palavras são o que são: coisas, acções, classificações ou então apenas formas de aproximar umas palavras de outras, de as colocar em boa posição, na posição certa para que o leitor entenda (certas palavras actuam na linguagem como o lanterninha do cinema. Lanterninhas linguísticas.)

Enfim, não há, pois, palavras masculinas ou femininas.

Mas aumentemos o volume ocupado e passemos da micro-comunidade de letras (a palavra) para uma comunidade de dimensão assim-assim (a frase) – claro está que esta dimensão depende do estilo do escriba: há frases que têm a dimensão de um livro, outras a dimensão de metade de uma linha. Porém o essencial é isto: se as letras são assexuadas, se o alfabeto é material neutro, tudo o que é feito desse material neutro por excelência, neutro será; palavra, frase e livro: nem masculino, nem feminino (como uma construção de legos: se a peça individual é uma coisa inorgânica, sem respiração, se construirmos com muitas peças de lego um belo cavalo, esse cavalo não ganhará vida por parecer cavalo; não deixa de ser feito de legos – e o que sozinho não tem vida, quando agrupado vida não terá. Eis pois, em síntese).

GÉNEROS

Mas não, claro que não. É assim, mas ao contrário. É que a linguagem é outro assunto – o que parece peça de lego, neutra e amorfa, essas peças do alfabeto, o A B C D E, essas peças mortiças transformam-se, afinal, quando em grupo – como se resultado de um milagre – em comunidades excitadas, elementos capazes de nos fazer crer que estão vivos. Daí que por vezes a letra agrupada em palavra e as palavras agrupadas em frases e as frases agrupadas em livros se modifiquem à medida que aumentam de volume.

Ou seja, segunda teoria que se opõe à primeira: a escrita pode ser feminina ou masculina porque da letra ao livro se vai perdendo neutralidade e a letra em comunidade (palavras) vai decidindo, optando, tomando formas – mais femininas ou mais masculinas ou mais assim-assim. Isto para dizer o seguinte: há uma perversidade literária que me parece absolutamente feminina, exemplos: Jelinek, Rosa Liksom e Flannery O’ Connor. Desta última, acabou de sair ‘O Gerânio – Contos Dispersos’. Aconselho, e muito. 

RESUMO

Todos os contos que O’Connor publicou em revistas literárias.

AUTOR

Flannery O’Connor

TÍTULO

‘O Gerânio – Contos Dispersos’

EDITORA

Cavalo de Ferro

VIAGEM: MOSCOVO

"Uma cidade terrível que seduz. Estás no meio da história do século XX e aí, em pleno solo oscilante, podes levantar a mão e pedir um táxi. Ir da Praça Vermelha para um hotel moderno da cidade é como fugir, por medo ou inconsciência, do século XX. Mas, em Moscovo, nem em 2010 o século anterior te deixa dormir sossegado. E isso é bom".

RESUMO

Sugestão de viagem à capital e maior cidade da Rússia. Foi a capital da União Soviética, do Império Russo e da Rússia Czarista. Para viajar consulte: www.edreams.pt.

LIVRO: ‘AS ORIGENS DO TOTALITARISMO’

"Com os 70 anos do início da II Guerra Mundial, a nova edição. Governar por meio da burocracia é governar por decreto, o que significa que a força (...) se torna a fonte directa de toda a legislação".

RESUMO

Arendt explica a ascensão do anti-semitismo e o imperialismo colonial europeu de 1884 até à I Guerra e os movimentos totalitários, na Alemanha nazi e na Rússia estalinista.

Autor: Hannah Arendt

Género: História

Editora: Dom Quixote

N.º de páginas: 674

LIVRO: ‘LÓGICA, A PERGUNTA PELA ESSÊNCIA DA LINGUAGEM’

"Existirá, pois, a linguagem só quando ela é falada? Ela não existirá quando as pessoas se calam?" Com as perguntas essenciais "não progredimos, mas andamos à volta de nós mesmos cada vez mais perto e mais nitidamente".

RESUMO

Este livro é o registo do curso dado por Martin Heidegger na Universidade de Friburgo [Suíça] no semestre de Verão de 1934.

Autor: Martin Heidegger

Género: Filosofia

Editora: Edição da Fundação Calouste Gulbenkian

N.º de páginas: 262

FUGIR DE...

DICIONÁRIOS DE RIMAS

"Como cantava a banda brasileira Os Engenheiros do Hawai, o dicionário de rimas é um dos assassinos da poesia. O dicionário de rimas é um dicionário de previsibilidades. Escolher entre várias soluções previsíveis não é uma escolha verdadeira. A existência, neste século, de dicionários de rimas mostra que a ideia que se tem do que é a poesia ainda não saiu do século XIX. A poesia de carroça".

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)