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Fenómenos extremos e cada vez mais mortais

Aquecimento global está a provocar alterações que poderão mudar drasticamente a vida no planeta.
Vanessa Fidalgo 10 de Fevereiro de 2019 às 01:30
Vaga de frio em Chicago, em janeiro de 2019
Tornado de fogo durante incêndio na região de Western Australia
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Tornado de fogo durante incêndio na região de Western Australia

A vaga de frio que provocou mais de duas dezenas de mortes nos Estados Unidos, devido a um vórtice polar (ciclone localizado junto ao Polo Norte), ou a seca seguida de inundações que assolou a Austrália e que causou inúmeras mortes são cenários cada vez mais prováveis num futuro ameaçado pelas alterações climáticas. Segundo os especialistas, Portugal será um dos países mais afetados.

"O aumento da temperatura média a norte do círculo polar Ártico é cerca do dobro do aumento da temperatura média global. Esta amplificação no Ártico causa a fragmentação no inverno do vórtice polar que contém o ar frio polar. Consequentemente, formam-se dois ou três vórtices que descem para latitudes mais baixas causando eventos de temperaturas muito baixas a sul do círculo polar Ártico. Note-se que, quando se dá essa fragmentação, a temperatura nas regiões polares fica anormalmente elevada. Contudo, esses vórtices, embora afetem indiretamente o tempo em Portugal, não causam as temperaturas muito baixas que se observam no ‘midwest’ americano", explica Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Ainda assim, Portugal não está a salvo. Pelo contrário. "A região do Mediterrâneo, o Sul da Europa e portanto a Península Ibérica e Portugal são um ‘hotspot’ das alterações climáticas pelos impactos serem gravosos em vários setores socioeconómicos, tais como os recursos hídricos, a agricultura, as florestas e a saúde, entre outros, devido à diminuição da precipitação média anual e às secas e ondas de calor mais frequentes e intensas. Portugal, por ter em parte uma zona costeira baixa e arenosa, também é bastante vulnerável à subida do nível médio global do mar", afirma aquele cientista.

João Branco, presidente da Direção Nacional da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, há muito que já refletiu sobre o mapa das alterações climáticas em Portugal. As zonas mais afetadas serão Trás-os-Montes e Alto Douro, Beira Alta, Beira Baixa, Alentejo e Algarve. Os fenómenos climáticos extremos (furacões, tempestades, etc.) podem ocorrer com mais frequência em todo o País, mas o efeito que será mais sentido e que terá mais impacto será o aumento da frequência de secas prolongadas. "Já podemos verificar a ocorrência de alguns fenómenos visíveis, como o declínio e morte do montado de sobreiros e azinheiras no Sul, e também o declínio dos soutos de castanheiros no Norte. Os grandes fogos são também uma manifestação das alterações climáticas. Em Portugal, muito provavelmente haverá uma progressiva desertificação (no sentido físico - ou seja, deserto mesmo, como o deserto do Saara) do Sul. As secas prolongadas provocarão a ocorrência de grandes fogos incontroláveis, em alternância com períodos de chuva em regime torrencial, o que provocará a aceleração do fenómeno da erosão dos solos", vaticina.

Calor mata mais

As últimas ondas de calor sentidas em Portugal são outro exemplo, para o qual alerta o meteorologista Costa Alves: "Comparativamente com os muitos decénios anteriores, podemos dizer que, desde 2003, a ocorrência de ondas de calor tem aumentado muito. Além do grande aumento das áreas florestais ardidas, em quatro dos 11 anos que decorreram entre 2003 e 2013, aconteceram ondas de calor que originaram excedentes de mortalidade (por causas relacionadas com a exposição ao calor extremo) superiores a mil mortos em cada um desses anos e um total de 6320 óbitos. E, sem que conheçamos as razões, não são fornecidos dados relativos aos verões mortíferos de 2016, 2017 e 2018."

Mas há mais problemas a caminho: "É mais que provável que, agregadas a estas alterações, apareçam novas doenças como dengue, malária e zika. Por enquanto não se sabe ainda quanto vai subir o nível das águas do mar, mas é certo que este problema irá trazer a salinização de alguns solos e graves prejuízos em imóveis e infraestruturas à beira-
-mar", antevê, por seu turno, o responsável da Quercus.

À escala global, além das alterações na paisagem, as mudanças climáticas também conduzirão a cataclismos sociais e humanos. "É atualmente o maior problema da humanidade. Num curto prazo, irão aumentar os desertos, muitas florestas vão desaparecer, haverá alterações na vida dos mares, subida do nível da água do mar e danos económicos graves por todo o Mundo. Mais cedo ou mais tarde vão surgir grandes migrações e mesmo guerras provocadas pelas alterações climáticas. Penso que a África e a Ásia serão gravemente afetadas, pois a estrutura social e económica dificilmente conseguirá fazer frente aos problemas que estão a surgir com as alterações climáticas. Outra zona de grandes mudanças será a bacia do Mediterrâneo, na qual Portugal se inclui, claro", prevê João Branco.

Atravessar uma era de aquecimento global não é propriamente uma novidade para o planeta Terra e para a humanidade, conforme refere o meteorologista Manuel Costa Alves: "Historicamente, o funcionamento da atmosfera gera fenómenos extremos. Nas últimas décadas têm ocorrido com maior frequência e temos como assente que o aquecimento global produzido pelo aumento da concentração de gases com efeito atmosférico de estufa (GEE) gera efeitos em diversas escalas espaciais e temporais." Mas são, frisa o meteorologista, efeitos com "causalidades complexas" que necessitam de muita investigação, até porque integram outros acontecimentos complexos: "Por exemplo, a migração do vórtice polar do Hemisfério Norte para latitudes mais a sul é recorrente, mas está a ocorrer com maior virulência, provavelmente como resposta às alterações que resultaram na diminuição da superfície gelada do oceano Ártico, consequência do aquecimento global e que, com o aumento da superfície no estado líquido, gera ainda mais aquecimento."

Inverter a situação

Mas será que estamos num ponto de não retorno? Para João Branco, as perspetivas não são animadoras. "A maior parte do Mundo depende da queima de combustíveis fósseis para produzir energia e para fazer crescer a economia. Não há sinais de os países estarem dispostos a abdicar do crescimento económico (que é sinónimo de mais queima de combustíveis fósseis) para salvar o clima. O facto de alguns países importantes como os EUA, Rússia, Brasil e outros assumirem claramente que o combate às alterações climáticas não é uma prioridade para eles não augura nada de bom para o futuro. Outros, como a China, a Índia e alguns países europeus, dizem que vão diminuir a queima de combustíveis fósseis, mas não para já. Na minha opinião estamos num ponto de não retorno que trará consequências terríveis para as futuras gerações, ou mesmo ainda para a nossa geração", diz o dirigente da Quercus.

Manuel Costa Alves é mais brando, mas ainda assim considera o problema muito grave. "Não estamos numa situação de não-retorno à configuração climática mais equilibrada que tínhamos. Mas, a continuarmos com este nível de emissões de GEE, dentro de 15 e 20 anos atingiremos o nível crítico que corresponde ao aumento da temperatura média global de 2 graus celsius relativamente ao referencial do início da Revolução Industrial. Anualmente, estamos, sempre em crescendo, a ter incrementos anuais das emissões de GEE superiores a 2,5 ppm (concentrações limite de referência). A redução terá de ser maior do que a indicada pelo acordo de Paris e, claro está, terá de envolver todos os países." União, pois, precisa-se para salvar o planeta.

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