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Férias melhoram o humor, diminuem o stress e aumentam a libido

Os portugueses já começaram a contagem decrescente para as férias. Mas qual a duração ideal?
Marta Martins Silva 2 de Junho de 2019 às 13:00
Férias melhoram o humor, diminuem o stress e aumentam a libido
Férias melhoram o humor, diminuem o stress e aumentam a libido

Não há dicionário que faça verdadeiro jus à felicidade que traz a "interrupção relativamente longa de trabalho destinada ao descanso dos trabalhadores", mas a ciência dá razão aos que começam a sonhar com as férias assim que a temperatura sobe e a vontade de trabalhar diminui.

"Existem diversas evidências derivadas de inúmeras investigações que têm vindo a comprovar que reservar momentos ao longo do ano para férias é fundamental, independentemente de quão ocupados estejamos. As férias potenciam o bem estar global, apoiam na gestão de stress, melhoram os padrões de sono, reduzem a pressão arterial, fortalecem relações e aumentam a libido", confirma Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica e coach, que considera os períodos de pausa laboral "balões de oxigénio no que diz respeito a lazer, descanso, socialização e prazer".

Se razões faltassem para atribuir às férias a importância que têm, um estudo da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, concluiu que estas trazem mais satisfação do que adquirir bens materiais, enquanto uma investigação britânica comparou a saúde das pessoas que fizeram férias com a daquelas que continuaram a trabalhar e concluiu que, em média, a pressão arterial das que foram de férias diminuiu 6%, ao passo que a dos trabalhadores que se mantiveram nos seus postos subiu 2%.

Além disso, a qualidade do sono das pessoas que descansaram melhorou 17%, ao contrário do que aconteceu com a outra metade, na qual se observou uma diminuição de 14%.

Avaliando os dois grupos – o sortudo e o sem sorte – observou-se ainda que a capacidade daqueles que foram de férias de recuperar do stress aumentou 29%, tendo-se registado uma queda de 71% nesta capacidade entre aqueles que continuaram a rotina casa-trabalho-casa.

As férias contribuíram ainda para que o grupo que interrompeu as obrigações laborais assinalasse uma diminuição significativa nos níveis de glicose no sangue, o que não só contribui para a redução do risco de diabetes e obesidade como melhora o humor e os níveis de energia.

Desde o Antigo Testamento
As evidências sobre a necessidade das férias são tudo menos recentes e conseguimos encontrá-las até nos sítios mais inesperados.

"Algumas delas são quase pré-históricas", garante o psicólogo José Carlos Garrucho. "O livro de Abraão, Antigo Testamento para os cristãos, já dizia que Deus descansou ao sétimo dia. Ora Deus, que tudo pode, porque raio havia de descansar ao sétimo dia? Como o criador e a criação são uma e a mesma coisa, o que diz o livro é ‘toma atenção porque é preciso descansar ao sétimo dia’ e, por isso, ao fim de cinco dias de trabalho devemos ter o sexto dia para tratar das outras coisas que não são o trabalho puro e duro – cuidar da família, tratar da horta, da casa, fazer as compras – e o sétimo dia é para não fazer nada", continua este especialista em relações humanas.

"E depois temos uma outra regra essencial, que é interromper estes ciclos todos que depois tornam-se monótonos, com todas as segundas-feiras iguais, as terças iguais, as quartas iguais... é preciso parar isto. Antigamente, a estes períodos de paragem – não havia férias – chamava-se adiafas, ou seja, fazíamos uma tarefa (uma sementeira, uma colheita) e depois fazia-se uma grande festa de agradecimento.

No fundo, era já nessa altura um festejar da vida, por termos conseguido cumprir a tarefa, e é aí que aparecem as romarias que faziam uma pausa nas obrigações laborais", e que agora são quase todas em agosto por ser o mês em que os emigrantes visitam o seu país, mas que antes se repartiam pelo ano todo. "Relacionadas com os ritmos da própria natureza, realizavam-se por isso em momentos-chave, como os solstícios e os equinócios", nota Garrucho.

Praia ou campo?
Um terço dos portugueses afirma que as férias os tornam mais felizes do que a vida amorosa ou um excelente dia no trabalho, concluiu um estudo feito em 2016 por um site de casas de férias em todo o mundo. E a praia continua a ser o principal critério dos portugueses para férias, revelou um outro estudo do Instituto Português de Administração e Marketing (IPAM). Aliás, segundo um inquérito efetuado este ano por um motor de busca de viagens, hotéis e carros de aluguer, os portugueses são dos europeus que mais preferem passar férias na praia.

"Agora, como a moda é ir para a praia, as pessoas metem as férias todas no verão. Hoje saímos do stress urbano, do trânsito e dos gabinetes para irmos para a praia encher-nos do stress de praia porque depois é a ‘overdose’ de sol e os problemas que esse excesso traz. As férias fazem-nos bem, sim, mas se forem diferentes. Não apenas no conteúdo, mas também no valor e no significado que têm para nós. Irmos a correr para a praia porque vai toda a gente para a praia não é o melhor para aproveitar realmente as férias", alerta o psicólogo, para quem o ideal – tendo em conta o ritmo de vida – é fazer várias paragens ao longo do ano de trabalho, em vez de uma só.

"Também não é bom termos os 22 dias úteis de férias todos na mesma altura, o ideal seria repartirmos isto para fazer pausas periódicas. Como temos quatro semanas de férias, devíamos parar uma semana a cada três meses, uma em cada estação: devia-se parar uma semana na primavera, uma semana no verão, uma no outono e outra no inverno, para se fruir também dos benefícios que aquela estação dá", em proximidade com a natureza.

Razão pela qual o especialista defende que "todas as pessoas deviam fazer campismo e reservar os hotéis para os dias especiais. Porque a vida nos hotéis de cinco estrelas não é a melhor das vidas, porque é uma vida artificial, a melhor das vidas é estar acampado", garante, sublinhando que "não é preciso apanhar um avião para a pessoa se sentir realmente de férias.

Não tenho de viajar para um destino exótico nas quatro semanas que tenho de férias por ano. Irmos comprar um pouco de exotismo para podermos voltar para casa e achar a nossa casa confortável é importante, mas não é fundamental para fruir da pausa do trabalho. Até porque não precisamos de ir ao outro lado do mundo para fazer isso. Às vezes isso não é estar de férias, é ir atrás de fantasias de que se tem de conhecer tudo e depois o que se conhece mesmo são os aeroportos e os hotéis. Não é preciso ir tão longe para ver a mesma coisa", conclui.

"Essencialmente, é importante ajudar o nosso corpo a reconhecer o período de férias com a quebra de rotinas, pelo que, se mantemos tudo exatamente igual à exceção de irmos para o trabalho, então tenderemos a não sentir realmente que estamos de férias. Permitirmo-nos comer um pequeno almoço diferente, movimentarmo-nos por locais distintos do habitual, fazermos atividades para que habitualmente não conseguimos encontrar espaço no nosso dia a dia, alterarmos para um ritmo mais relaxado", enumera por seu lado a psicóloga Filipa Jardim da Silva, considerando que o ideal é reservar um período de férias mais extenso, "de duas ou três semanas, a par com outros mais pequenos repartidos ao longo do ano".

Sobre isso, uma universidade finlandesa que quis apurar o número de dias de descanso que as pessoas deveriam tirar de férias – para o efeito acompanhou 54 trabalhadores em períodos diferentes de férias – concluiu que, a partir do segundo dia de descanso, a saúde melhora e aumentam os níveis de energia e que o oitavo dia de férias é aquele que, em média, atingiu o pico.

"As provas reunidas até agora indicam que o efeito saudável das férias é idêntico quer durem oito dias ou 15", garantiu ao diário ‘El Mundo’ a investigadora responsável, que estudou também o impacto das férias na saúde. "Após um longo período sem pausas, somos mais vulneráveis a doenças cardiovasculares e aumenta o risco de morte prematura. O simples facto de sonhar com uma viagem e organizá-la já constitui, por si só, um fator de bem-estar", disse a investigadora.

Já o israelita Daniel Kahneman, considerado o pai da economia comportamental, garante que "tanto faz tirar férias curtas ou longas, é preciso é saber torná-las memoráveis", disse na palestra intitulada ‘O enigma da experiência Vs. memória’, que em 2014 se tornou viral na internet.

O investigador, prémio Nobel da Economia em 2002, sustentou que a duração do tempo de descanso não tem implicação na quantidade de memórias que o cérebro retém, pelo que quando vai de férias duas semanas em vez de uma, provavelmente não irá acrescentar muito à história das suas férias, ou pelo menos não o suficiente para criar novas memórias sobre essa experiência.

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