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FERNANDO GOMES: PINTO DA COSTA TAMBÉM TEM MÉRITO

O rosto inevitável da oposição ao presidente do FC Porto fala do passado, do presente e do futuro, como jogador de futebol, empresário e portista. Explica que a aproximação a José Veiga nasceu da sua própria vontade, elogia Mourinho e Hélder Postiga e desafia Rui Rio a ir a Sevilha.
18 de Maio de 2003 às 00:00
Quer abraçar a Taça UEFA, dizFernando Gomes recebe num escritório da Rua da Paz, no Porto, igualzinho na decoração ao escritório de José Veiga em Lisboa. Mantém o tique do cabelo, arranjando-o de cinco em cinco minutos com a mão em gancho, mas está mais polido do que no passado, muito bem vestido, com um discurso mais articulado. Fala da derrota na Taça das Taças em 1984 (Basileia), na vitória na Taça dos Campeões em 1987 (Viena, onde não jogou devido a lesão) e dos triunfos na Taça Intercontinental e na Supertaça Europeia do mesmo ano. Não quer ser visto como um opositor a Pinto da Costa, mas enrola a conversa durante dez minutos antes de lhe fazer um elogio. Quem olha para ele sabe que está perante um homem à espera de alguma coisa.
Já deu os parabéns a Pinto da Costa pela vitória no Campeonato e pela chegada às finais da Taça UEFA e da Taça de Portugal?
Já dei os parabéns publicamente ao clube. Eu também sou sócio e, se calhar, sou eu que tenho de receber os parabéns.
Disse no ano passado que Pinto da Costa estava a ficar desgastado. Estas conquistas são uma prova de que você estava errado?
Eu disse isso a propósito de uma frase do presidente segundo a qual eu não estava no clube porque não queria. E isso não era verdade, porque um dia me haviam perguntado se eu estava disponível, eu dissera que sim e, apesar de tudo, as coisas não se haviam concretizado.
Disse que estava disponível…
Sim, mas também disse: “Não sei, não acredito, vamos esperar para ver…”
Não acreditava em Pinto da Costa.
Não acreditava na relação.
Na sua relação com ele.
Exacto.
Isso foi há quanto tempo?
Aí há uns dois/três anos.
Nunca mais o viu, entretanto?
Não. E, meio ano depois daquelas conversas, houve uma entrevista em que o presidente dizia que eu havia recusado voltar ao FC Porto. Ora, só podia estar a referir-se a dez anos antes. Aí, sim, eu recebera uma proposta, mas também não a entendera como sendo do clube, porque a pessoa não me disse que vinha a mando do presidente e, para mim, o FC Porto é o presidente.
O FC Porto, para si, “é o presidente”?
Não, não é para mim. O que eu quero dizer é que a vontade do clube é a vontade do presidente.
Portanto, se tivesse de imputar a uma só pessoa esta sucessão de vitórias, seria a Pinto da Costa.
Não. Nem isso fazia de mim um homem do futebol. A vontade do clube é a vontade do presidente…
… com brilhantes resultados…
Não posso desmentir a realidade. São bons. Mas em qualquer vitória há o trabalho de toda uma equipa. Em primeiro lugar dos jogadores, depois dos treinadores, depois dos dirigentes, depois dos adeptos…
Por essa ordem?
Eu vejo o futebol assim.
Portanto: em primeiro lugar Deco, depois José Mourinho, depois Pinto da Costa…
Não, também não diria o Deco. Diria “os jogadores”. Depois o Mourinho, que, apesar de pertencer a uma equipa técnica, é o grande obreiro…
Mais do que Pinto da Costa.
Não posso pôr as coisas assim. É claro que o presidente também tem mérito.
Ao longo dos anos, várias pessoas se têm queixado, de forma mais ou menos explícita, de que quem faz sombra a Pinto da Costa acaba por ser desgastado no seio do FC Porto. Teme que isso aconteça a José Mourinho?
Não sei. Não conheço a relação entre os dois. Mas a verdade é que houve sempre jogadores a marcar golos e outros a defender bolas…
Jogadores contratados pelo presidente.
Eu quero acreditar que são contratados pelo treinador…
… que é contratado pelo presidente.
É o treinador que deve escolhê-los.
Como é que o Fernando Gomes aparece na oposição do FC Porto?
Eu nunca me intitulei opositor.
Já o intitularam.
O que é que eu hei-de fazer? Se calhar é porque eu não estou no clube, porque tenho uma opinião crítica quando as coisas não correm bem… Mas a verdade é que também elogio quando as coisas correm bem.
Mas é um elogio tímido.
Não. A verdade é que eu também não personifico no presidente as culpas das coisas que correm mal. Tenho sido coerente.
Mas porque é que aparece sempre como opositor? Uma vez pareceu-me perceber, durante uma entrevista que deu, que temia que o seu nome surgisse só para o ‘queimar’…
Não sei. Aquilo que eu sempre disse é que nasci aqui, sou de uma família de portistas, sou sócio há 42 anos, ia ao futebol antes de ser jogador, ia ver os juvenis de manhã e os seniores à tarde… E que, depois disso, me transformei num jogador e, entretanto, era natural que me transformasse noutra coisa qualquer…
Em treinador, como a maioria dos seus colegas de geração?
Era natural.
Porque é que isso não aconteceu?
Como muitos outros jogadores que não passam a treinadores, eu também não passei, embora tenha o grau mais alto do curso de treinadores.
Chegou a falar-se na hipótese de ser seleccionador nacional.
Também. Mas comigo, mais uma vez, ninguém falou.

Ao longo destes treze anos desde que deixou de jogar, nunca ninguém o convidou para uma carreira técnica?
Quando acabei a carreira, sim: o Guimarães, o Paços de Ferreira… Várias equipas da primeira divisão.
E isso não lhe interessou.
Não. Repare: eu fui para o Sporting jogar, que foi uma coisa que eu nunca esperara que acontecesse na minha carreira…
Foi o maior erro da sua vida.
Não, não. De maneira nenhuma! O que eu quero dizer é que eu sempre tinha sido bem tratado no FC Porto, era um homem da casa…
... E, então, foi ‘empurrado’ do FC Porto.
As pessoas não me quiseram. E, como eu achava que ainda tinha capacidades, fui para o Sporting.
Há pessoas no FC Porto que ainda não o perdoaram?
No início houve quem ficasse desagradado, mas depois isso passou. Haviam ficado com a impressão de que eu havia deixado o FC Porto por dinheiro, mas depois perceberam que nem eu tinha ido para o Sporting por dinheiro nem sequer eu havia “deixado” o FC Porto. Simplesmente haviam-me chamado e dito: “Já não te consideramos com capacidade para continuar e, portanto, estás livre.”
E…?
E, então, apesar de ter jogado no Sporting, sempre tive dificuldade em encarar outro clube como profissão. Só me imaginava a trabalhar em dois sítios: no FC Porto ou na selecção nacional. Tinha de haver algum sentimento.
Vai ser presidente do FC Porto, um dia?
Acho que não. Não sei. Nunca disse que queria sê-lo.
Nunca colocou a possibilidade de candidatar-se?
Não. Nunca falei nisso.
Ainda agora saíram desta mesma sala Alexandre Pinto da Costa e Jorge Gomes, duas pessoas importantes no universo-FC Porto. Não podiam formar consigo uma alternativa de poder a Jorge Nuno Pinto da Costa?
Não. Conheço-os há muitos anos, deixei de jogar há treze e só há dois é que estou a trabalhar com eles.
Acha que Pinto da Costa vai preparar a sua própria sucessão?
Não sei. E preferia não falar mais no tema. O FC Porto vai jogar uma final importantíssima e não é altura para falar mais nessas coisas.
Votará Pinto da Costa, se ele voltar a candidatar-se à presidência?
Já falei o suficiente. Vamos pôr um ponto final no tema, por favor.
Muito bem. Descreva-me a sua rotina: é empresário da construção civil, é co-proprietário de um clube de futebol brasileiro…
O meu pai é que é o fundador da empresa de construção civil. Eu sou o sócio-gerente. Aqui, deste escritório, gerimos o Sport Clube Comercial, do Paraná (Brasil), de que sou co-proprietário.
Já não é o Bom Sucesso, do Rio?
Não, mudámos. É um clube da segunda divisão estadual do Paraná. Mas é um investimento interessante. Um amigo propôs-
-me a ideia e eu achei engraçado, já que aqui não trabalhava no futebol.
José Veiga?
Não, José Maria Pinho, ex-presidente do Rio Ave. Depois disse-me que achava interessante ter um empresário envolvido e eu disse-lhe que tinha dois empresários amigos: o José Veiga e o Rui Neno. Como o Rui Neno já tinha o Corinthians Alagoano, convidámos o José Veiga. E ele aceitou.
Que benefícios financeiros tiram do facto de terem um clube da segunda divisão estadual do Paraná?
É uma plataforma para investir na formação. Mas também me interessa a experiência de gerir um clube, saber como se faz…
Vai ao Brasil frequentemente, visitar o clube?
Sim.
E as pessoas reconhecem-no nas bancadas como o dono do clube?
Não. Só quando sou apresentado.
Já foi detectado algum talento?
Detectámos vários. Alguns já estão cá.
Nomeadamente…?
Bem, os talentos não saem na hora... O Deco, por exemplo, já cá está há uns anos…
Mas o Deco veio do Nordeste, de Alagoas. O Paraná tem o Atlético Paranaense, mas não é exactamente um estado de futebol…
Está enganado. Há muitos jogadores de primeira linha que são do Paraná.
E também pode controlar o Rio Grande do Sul, a partir do Paraná?
Toda aquela região do Sul do Brasil.
Falava-se na hipótese de comprar também um clube em África.
Em África e num país de Leste.
Não o assusta ver o prejuízo que as Sociedades Anónimas Desportivas dão? Continua a achar que o futebol é um bom negócio?
As SAD dão prejuízo porque foram feitas à pressa, quase de olhos fechados, para garantir a sobrevivência dos clubes a curto prazo. A não ser, talvez, a do Sporting…
Porquê a do Sporting? Também dá um prejuízo brutal. E, de resto, nasceu ao mesmo tempo do que a do FC Porto, a partir de grupos de estudo e de trabalho conjunto…
De certa forma, serviu de exemplo à do FC Porto. Mas a verdade é que, se calhar, nenhuma delas soube adaptar a razão à paixão.
Já investiu na SAD do FC Porto?
Não.
Vai investir?
Se calhar, não.
Com outro presidente, investiria nesta SAD?
Se calhar, com outras perspectivas. Não vou investir onde não vou ganhar dinheiro.
FRASES SOLTAS
Ganhar uma grande final é um momento único. No momento em que o conseguimos, atingimos a libertação absoluta. Sabemos que é importante para o nosso clube, para os nossos adeptos, para o nosso país… Mas sobretudo para nós próprios.
Só digo como o André: não foi por obra e graça de Deus que fomos campeões europeus e intercontinentais e ganhámos a Supertaça Europeia. Por isso, não é possível comparar esta equipa à de 1987. Cada uma ficará na história à sua maneira, mas não são comparáveis.
Naquela equipa de 1987, brincávamos muito com alcunhas. O João Pinto, por exemplo, era o ‘Broas’ ou o ‘Cabeçudo’. Eu tinha uma relação mais próxima com o Frasco, o Futre, o Quim e o André. O Sousa era mais reservado, o Jaime Pacheco era sociável, o Mlynarczyc impunha respeito...
É difícil dizer se fui, ou não, o último grande ponta-de-
-lança clássico do futebol português. Acho que o futebol é hoje tão diferente, nos métodos e nas condições de trabalho, que é difícil comparar. Hoje trabalha-se de maneira mais científica.
Gostava de ver o Pauleta no FC Porto, mas para isso era preciso que o Hélder Postiga saísse. E eu prefiro o Hélder Postiga, que é mais tecnicista, embora não tenha tanta experiência
Acho que, se a lei o permite, a entrada do Deco na selecção é natural. Mas tem de ser sempre uma excepção, só reservada a grandes jogadores.
Não será um fiasco se Portugal não ganhar o Euro 2004. Mas era normal se o ganhasse. Hoje não há melhores jogadores do que os portugueses. O próprio campeonato português evoluiu muito em termos competitivos.
Penso que futebol e política podem andar lado a lado. Não sei o que acontecia em Felgueiras. Mas, por exemplo, embora eu respeite a coerência de Rui Rio, acho que este é um momento especial e que ele devia abrir uma excepção e ir a Sevilha.
“NÃO FUI CONVIDADO PARA IR A SEVILHA”
Vai a Sevilha, ver o FC Porto-Celtic?
Claro. Vou com o meus filhos e com uns amigos. De carro, como um adepto normal. O FC Porto convidou alguns campeões da Europa, mas deixou alguns de fora, nomedadamente eu.
Que expectativas tem para o jogo?
A mesma de qualquer adepto: que haja um grande jogo e que o FC Porto ganhe. É melhor do que o Celtic, embora isso não chegue.
Não seria frustrante perder a primeira Taça UEFA do futebol português para um clube de segunda linha, como o Celtic?
Não sei se o Celtic é de segunda linha... Não seria vergonha nenhuma perder.
A ausência do Hélder Postiga é perigosa?
Era bom que ele pudesse jogar.
Quem gostava de abraçar no final, se o FC Porto ganhar?
Gostava de abraçar a própria Taça UEFA. Entrar em campo e erguê-la. Como não ergui a Taça dos Campeões, gostava de erguer esta. Mas vou ver o jogo na bancada, e já estou habituado a isso. Hei-de abraçar os amigos, no final.
Tem amigos no plantel?
Tenho. Não sou amigo de casa, mas falo e encontro-me com o Vítor Baía, o Secretário, o Jorge Costa, mesmo o Costinha, o Derlei, o Paulo Ferreira…
Acabou de prejudicar seis jogadores do FC Porto, dizendo que se encontra com eles...
Não [risos]. Acho que ainda não chegámos a esse ponto…
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