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FERNANDO VENÂNCIO: 'UM MAU LIVRO UM BOM FILME'

Ninguém escreveu com tanto entusiasmo sobre Saramago, mas também de nenhum outro crítico o Nobel recebeu palavras tão duras. O professor de Português na Universidade de Amesterdão, romancista e autor de “José Saramago: A Luz e O Sombreado” (ensaios), viu na Holanda uma das primeiras projecções de “A Jangada de Pedra”. E gostou
4 de Outubro de 2002 às 18:24
Joel Neto - O que resta, no filme, do livro de José Saramago?

Fernando Venâncio - O melhor. Para começar, o dado central, que é um bom achado, com a Península Ibérica a descolar da Europa e a navegar pelo Atlântico. E há essa bela capacidade de contar uma catástrofe pública através dos olhos de cinco anónimos. O facto de este ser o mais fraco dos romances de Saramago ainda sublinha mais a qualidade do filme. Porque, para além dos excelentes momentos que nunca faltam em Saramago, este livro é de uma lentidão desoladora. O autor passa ciclicamente por estas crises. Aliás, do ponto de vista estatístico, e depois dos dois últimos falhanços, o seu próximo romance, “O Homem Duplicado”, promete ser grandioso.

J.N. - “A Jangada de Pedra” recebeu no último momento o apoio do Ministério da Cultura. Compreende essa hesitação do Estado?

F.V. - De maneira nenhuma. É mais uma amostra da nossa incapacidade de pensar em grande. E fomos bem castigados, porque a imagem de nós dada no filme é a pior possível: uma Lisboa desabitada, um 2CV a cair de velho, um hotelzinho bafiento, umas velhas tontas de xaile preto, um presidente “patarata” e uma televisão a transitar tranquilamente para a programação espanhola... A mensagem implícita é ofensiva. Salvam-se os desempenhos de Diogo Infante e de Ana Padrão, magníficos. Mas eles exprimem-se, ao menos na versão internacional do filme, num castelhano fluente.

J.N. - Que outros livros de Saramago gostaria de ver filmados?

F.V. - Suponho que “O Ano da Morte de Ricardo Reis” faria ressuscitar no ecrã a decadente e irreal Lisboa dos anos 30. Mas o “Ensaio Sobre A Cegueira” daria o melhor e mais terrível filme, desde que feito com largo orçamento, grandes meios cénicos e um guião corajoso.

J.N. - O que espera ainda do romancista José Saramago?

F.V. - Aquilo que importa esperar de um grande escritor: que continue a surpreender-nos, a deixar-nos perplexos, a mostrar-nos que a nossa imaginação mais desvairada ficará sempre aquém do talento dele. Mas também outra coisa: que deixe de desfigurar a nossa língua com construções e termos castelhanos, como vem fazendo há quase dez anos. José Saramago é do melhor que nós temos. E isto traz, queira-se ou não, alguma responsabilidade.

J.N. - Gostaria de ver filmados outros romances portugueses?

F.V. - Há um livro recente que não me sai da cabeça: “Os Íbis Vermelhos da Guiana”, de Helena Marques, a sua melhor obra e um dos mais assombrosos romances portugueses dos últimos anos. Os realizadores ingleses chamavam-lhe um figo.

J.N. - O seu próprio romance, “El-Rei no Porto”, também daria um filme?

F.V. - O autor não é a pessoa indicada para uma opinião. Isto porque todo o romancista, ao escrever, já “vê” mentalmente o filme feito. Mas, descontando isso, “El-Rei no Porto” possui alguns condimentos para um filme aceitável, com as suas grandes movimentações, os conflitos à escala nacional, um amor que as circunstâncias e a razão de Estado contrariam...
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