Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
6

Ficarão juntos?

“E se nos encontrássemos para um café?, sugere. E depois, pergunta-lhe ele (...)”
Tiago Rebelo 28 de Novembro de 2010 às 00:00
Ficarão juntos?
Ficarão juntos?

Ela telefona-lhe com saudades, diz-lhe sinto a tua falta, sinto falta das nossas conversas, nunca mais me falaste, porquê? A frase sai-lhe como um lamento. Ele responde-lhe não sei porquê, seguimos caminhos diferentes, só isso. Ele soa com desapontamento. Custa-lhe aceitar que tivessem deitado tudo a perder, que não tivessem conseguido sobreviver às contrariedades. A ela também, ouvi-lo outra vez é como escutar uma música antiga que ficou para sempre na cabeça, no coração, como uma nostalgia que a invade com a triste sensação de perda.

Ela hesita, ouve o silêncio na linha a ponderar o que dizer a seguir. A sua mente corre aflita, um turbilhão de pensamentos bloqueia-lhe as palavras, pensa que quer voltar a vê-lo, mas receia o fracasso, pensa que, de qualquer modo, já estragou tudo e ele não a vai aceitar nunca mais. Gostava de admitir os erros do passado, partilhar com ele o que tinham falhado, mas isso não consegue fazer. Por orgulho, por ressentimento, por alguma razão mais forte do que ela, não consegue.

Ele não diz nada, espera apenas que ela diga algo mais, espantado com o seu telefonema inesperado. Faz tempo que não se vêem, que não se falam sequer. Tem tantas coisas para lhe dizer, tudo o que lhe aconteceu entretanto e não lhe contou, as saudades que sentiu, que ainda sente. Tenho saudades de falar contigo, diz ela, a pensar o mesmo. De que nos serve isso?, pergunta ele. Não sei, responde, só sei que sinto falta de falar contigo, de te contar o que se passa comigo.

O que te leva a pensar que eu quero saber o que se passa contigo?, atira-lhe ele, arrependendo-se logo da resposta instintiva. Ela sente-se tentada a responder-lhe na mesma moeda, mas resiste ao impulso, controla a irritação. Olha, diz, receio bem que não queiras. Foi por isso que não te telefonei antes, porque nunca mais quiseste saber de mim. Mas, apesar disso, queria que soubesses que me fazes falta.

Ele demora um instante a remoer as palavras dela. Foste tu que não quiseste saber mais de mim, afirma, consciente de que está só a devolver-lhe a recriminação e que isso não os leva a lado nenhum, só os faz andar às voltas, tal como antigamente. Tens razão, foi mútuo, concede ela, conciliadora. Foi, admite ele. E se nos encontrássemos para um café?, sugere. E depois, pergunta-lhe ele, falamos do que não tem conserto?

Eu liguei-te, dei o primeiro passo, dá agora tu o segundo comigo. Diz que sim, por favor, é só um café, insiste ela. Só um café, avisa-a. Sim, está bem, concorda ela. Ela, com a garganta apertada num nó, pensa valerá a pena? Ele, desconfiado, pensa estou a perder tempo. Mas, ainda assim, marcam um encontro sem saberem que destino se reservam. Ficarão juntos?

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)