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Correio da Manhã

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“Ficava sempre um rasto de tristeza e revolta”

Éramos uma família de cerca de trinta pessoas. Aprendi a rir e a chorar quando estava em causa só valores humanos. Fiquei um homem melhor.
12 de Setembro de 2010 às 00:00
“Ficava sempre um rasto de tristeza e revolta”
“Ficava sempre um rasto de tristeza e revolta” FOTO: d.r.

Ao fim de 15 meses de serviço militar cumpridos na Metrópole, e quando menos esperava - pois não era normal para um atirador de Infantaria com esse tempo ser mobilizado -, surgiu a notícia... o furriel Penha fora ‘sacado' para cumprir comissão em rendição individual no território da Guiné. Destino: Companhia de Caçadores 5, localizada na zona leste, em Canjadude.

Embarquei no navio ‘Niassa' no dia 25 de Março de 1970. As primeiras impressões quando desembarquei foram de curiosidade e solidão, pois fiquei sozinho em pleno cais com uma mala de cada lado, e se não fosse a boa vontade de um lº cabo delegado em Bissau que me levou ao quartel-general no seu jipe penso que ainda lá estaria. Senti-me a Linda de Suza, aquela da malinha de cartão.

Até chegar a Nova Lamego, vulgo Gabu, foi um turbilhão de emoções, tais como a minha estreia de voo a bordo de um imponente Dakota que ao começar a trabalhar deitava pelos motores chispas de fogo e muito fumo. Por fim lá cheguei ao Gabu, onde teria que aguardar por uma coluna da minha Companhia para me escoltar até ao destino dos meus próximos dois anos.

Nessa mesma noite, na companhia do alferes Martins, fomos beber umas cervejas enquanto ele me inteirava daquilo que me esperava. De repente um estrondo enorme, era o primeiro ataque de foguetões a Nova Lamego. Pela primeira vez, senti o verdadeiro sentido da guerra.

No dia seguinte lá chegou a coluna que me iria levar ao meu destino. Assustei-me ao vê-los chegar cobertos de pó, armados até aos dentes, embrulhados em mosquiteiros camuflados e no meio de uma algazarra constante, mas depois percebi que aquela euforia era porque eles vinham à cidade ver familiares e falar com as suas ‘bajudas'. Lá nos pusemos a caminho, onde, ao fim de 25 km, fui recebido por uma tabuleta com a inscrição ‘Termas de Canjadude', o que me levou a questionar se não se tinham enganado no caminho.

Os tempos seguintes foram de conhecimento do ambiente e dos usos e costumes. Hoje, sinto-me gratificado por ter aprendido tanto da vida em tão pouco tempo. Éramos uma família de cerca de trinta pessoas. Acho que fiquei um homem melhor.

Vivíamos o dia-a-dia sem projectos de futuro. Os dias iam correndo, uns melhores outros piores e outros sem classificação. Estes aconteciam quando tínhamos contacto directo com aquilo que não queríamos, a guerra.

Eram as minas, eram as emboscadas, eram os ataques ao aquartelamento e, aí sim, ficava sempre um rasto de tristeza e revolta porque às vezes se perdiam vidas e outras ficavam inapelavelmente afectadas. Mas as rotinas voltavam, como voltavam os jogos de futebol, as noites loucas no Chat Noir (uma espécie de pub que nós tínhamos construído e decorado). Era aí que nós consolidávamos a nossa união e a nossa amizade recorrendo a petiscos e a uns bons whiskies que por vezes faziam daquele espaço um improvisado dormitório.

No dia 31 de Março de 1972 regressei. Sem sequelas mas com uma revolta que questionava o porquê de tudo aquilo. Talvez o dia mais marcante deste percurso tenha sido o dia do meu embarque, o dia em que vi aquela figura pequena e aparentemente insensível chorar pela primeira vez... era o meu pai.

PERFIL

Nome: Germano Penha

Comissão: Guiné (1970/72)

Unidade: Companhia de Caçadores 5

Actualidade: Tem 62 anos e é bancário. Casado, tem uma filha com 31 anos e um neto com 1 mês

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