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“Fiquei ferido numa emboscada”

No Leste de Angola fomos encontrar uma guerrilha que não tinha nada a ver com a do Norte. Quase já se podia chamar guerra clássica
5 de Dezembro de 2010 às 00:00
Manuel com um camarada de armas no monumento erguido aos mortos da 7ª Companhia de Fuzileiros, em Santo António do Zaire
Manuel com um camarada de armas no monumento erguido aos mortos da 7ª Companhia de Fuzileiros, em Santo António do Zaire FOTO: Direitos reservados

Concluí o curso de fuzileiros especiais em Maio de 1965 e em Julho do mesmo ano embarquei para Angola, integrado no destacamento nº 2 de fuzileiros especiais. O destacamento ficou em Luanda por dois meses, onde continuei a instrução de combate.

Em Setembro parti para norte, para a zona de Santo António do Zaire, hoje chamado Soyo. O destacamento ocupou três postos na margem esquerda do rio Zaire, rio que faz a divisão de Angola com o Congo. A missão naqueles postos era controlar a navegação do rio, patrulhando dia e noite para evitar que o inimigo se infiltrasse em território angolano. Ao fim de dois meses, os grupos eram rendidos por outro destacamento e transferidos para a lagoa de Mssábi, em Cabinda, onde permaneciam mais dois meses, antes do regresso a Luanda. Este ciclo manteve-se desde o início da guerra, ou seja, entre 1961 e 1966, até começar uma nova frente no leste.

O 2º destacamento de fuzileiros especiais, do qual fazia parte, foi o primeiro a ser destacado para a zona, onde encontrámos um novo tipo de guerrilha. Quase se podia chamar guerra clássica, pois as emboscadas ali montadas pelo inimigo eram bem estruturadas e com grande poder de fogo. Eu próprio sofri uma destas emboscadas quando seguíamos um grupo de vinte fuzileiros. Doze ficaram feridos, onde eu me incluo. Regressámos a Luanda em Março de 1967 e permanecemos operacionais até finais de Junho. Depois regressámos à Metrópole, felizmente sem nenhuma baixa, mas com três feridos graves.

A minha segunda comissão foi novamente em Angola, desta vez na Companhia nº 7 de Fuzileiros Navais. Chegámos a Luanda a 10 de Julho de 1968. Ali permanecemos quatro meses em missões de segurança ao Comando Naval de Angola, Estação Rádio Naval e rondas a Luanda. Depois, o meu pelotão foi para o leste e passei novamente perigo. Permaneci desde Novembro de 68 até Novembro de 69, quando regressei a Santo António do Zaire para passar o Natal com a companhia.

Em Março de 1970 regressámos a Luanda e em fins de Junho partimos para Lisboa, onde ainda continuei ao serviço da Marinha por mais um ano, na Escola de Fuzileiros. Era condutor de autocarros e, aí sim, foi um dos melhores anos da minha vida.

"CROCODILOS ATACAVAM PESSOAS"

Durante a comissão no rio Zaire, participei em caçadas a crocodilos. Eram animais perigosos, que atacavam pessoas das povoações junto ao rio. Para caçar um crocodilo, sempre durante a noite, eram necessários pelo menos quatro homens – um para segurar um projector, outro para a espingarda, outro com um gancho e o quarto para pilotar o barco.

PERFIL

Nome: Manuel A. da Silva Gonçalves

Comissões: 1ª – 1965/1967; 2ª – 1968/1970

Actualidade: Aos 64 anos, está reformado como sargento da Brigada de Trânsito da GNR

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