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Correio da Manhã

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“Fizemos funeral de camarada sem corpo"

Insólito. Recebi dinheiro para ir no lugar de outro militar. Nunca estive em combates directos mas vivi algumas situações do arco-da-velha, incríveis.
7 de Junho de 2009 às 00:00
“Fizemos funeral de camarada sem corpo'
“Fizemos funeral de camarada sem corpo' FOTO: d.r.

A minha guerra começou no Campo Militar de Santa Margarida, quando – farto da rotina e das viagens até à minha terra – propus a outro escriturário, de Amarante, mobilizado para Moçambique, ir no seu lugar. Foi num momento de grande desânimo. Disse-lhe que, se pagasse bem, aceitava fazer a troca, pensando que não levaria a proposta a sério. Mas a verdade é que, passadas duas semanas, apresentou-se na minha unidade com um familiar, pedindo para eu assinar o documento a pedir a troca. Fiquei para morrer mas, para não faltar à palavra dada, assinei e recebi um envelope com notas. Já não sei quanto, mas para a altura era uma importância razoável.

Assim, a 30 de Novembro de 1970, embarquei no navio ‘Pátria’ rumo a Moçambique. Passei o Natal a bordo e desembarquei em Nacala a 28 de Dezembro. Segui depois até Nampula, onde fiquei colocado no quartel-general liderado por Kaúlza de Arriaga. Um dia, o sargento da minha secção pediu dois voluntários para o Batalhão de Caçadores 14, em Porto Amélia. Eu e um amigo de Aveiro oferecemo-nos e lá fomos no ‘machimbombo’ do Caminho-de-Ferro de Moçambique. Passei 28 meses nesta unidade.

A guerra é fértil em histórias do arco-da--velha, algumas tão mirabolantes que até custam a acreditar. Esta passou-se no Norte de Moçambique, em Cabo Delgado, em 1971. Entre outras actividades, tinha como triste missão proceder aos funerais dos militares falecidos na zona que, diga--se, foram muitos. A dada altura faleceu com hepatite o soldado condutor-auto Irá Jaime Jones, que prestava serviço na messe dos sargentos. O corpo foi levado para a casa mortuária do Hospital Regional de Porto Amélia para ser autopsiado e preparado para o funeral. Enquanto isso decorreu, eu requisitei um caixão ao serviço de Intendência e fui preparando a documentação. Aconteceu que o caixão não foi entregue nesse dia e o corpo ficou na casa mortuária, em cima de uma das mesas, coberto com um lençol.

De regresso ao batalhão, fiz o ponto da situação ao alferes Ventura – que comandava a secção – para que no dia seguinte mandasse levantar o corpo, já que o funeral estava marcado para esse dia e eu, estando de cabo de dia, não poderia acompanhar as diligências. No dia do funeral, o 1º cabo Pires foi à casa mortuária buscar o caixão – onde o pessoal da Intendência o tinha deixado – e mandou-o carregar numa Unimog. Antes, ainda questionou o capitão Lencastre, comandante da Companhia de Comando e Serviços, por a urna não estar fechada com um cadeado, como era habitual. 'Tens medo que ele fuja?', foi a resposta que obteve.

A Bandeira Nacional foi colocada em cima do caixão, que seguiu para o talhão militar do cemitério, transportado por dois oficiais, dois sargentos e dois praças que, embora dando conta do seu pouco peso, pensaram estar distribuído por cada um deles. Realizadas as orações habituais pelo tenente capelão, ao som de uma salva de tiros de espingarda Mauser, o caixão baixou à terra. Tudo parecia terminado.

Mas não estava. Pelas 12h00 fui abordado por um militar, informando-me que o corpo do soldado Irá Jaime Jones aguardava na morgue que o levantassem. Fiquei incrédulo e atordoado, já que o funeral decorrera às 10 horas. Depois de alguma perplexidade, desvalorizei a informação porque acontecia militares ‘apanhados’ dizerem coisas sem nexo. E havia-os aos centos por aquelas bandas. O certo é que aquilo não me saía da cabeça. Seria possível que o corpo do soldado continuasse na morgue depois do enterro? Por isso, pedi a um colega que me substituísse como cabo de dia e fui de jipe até à cidade averiguar o sucedido. Qual não foi o meu espanto quando, ao entrar na morgue, vi o corpo que deixara na véspera no mesmo sítio. Destapei-o e dei de caras com o Irá. Corri para a messe dos oficiais e contei o sucedido ao alferes. O homem deu um salto da cadeira como se estivesse sentado em cima de um porco-espinho. Fomos ao batalhão buscar uma ambulância e levantámos o corpo. Partimos para o cemitério e, feitos coveiros, abrimos a campa. O caixão estava vazio. Dentro só tinha o cadeado que o deveria ter fechado.

Colocámos no interior o corpo do nosso camarada de armas para que pudesse descansar em paz. Fez-se silêncio absoluto sobre o sucedido para evitar males maiores, mas na tropa ninguém guarda segredo. Em pouco tempo toda a gente sabia do ocorrido, o que levou o brigadeiro a mandar instaurar um inquérito, arquivado face à forma como a situação foi resolvida.

FAZ CONTAS E AGRICULTURA 

Depois de regressar de África, Custódio Freitas continuou a trabalhar na União de Bancos. Foi bancário até 1998, quando se reformou. Casou em São Pedro do Sul e teve duas filhas. Uma morreu poucos dias depois de nascer e a outra, hoje com 32 anos, licenciou-se em Direito e estagia num escritório de advogados. Actualmente, o ex-combatente passa os dias a colaborar numa empresa de venda de materiais de construção, onde faz a contabilidade, e na agricultura. Desde que regressou de África, há 35 anos, deixou bem claro que um dia voltaria. Regressará em Setembro.

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