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Correio da Manhã

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“Fomos uma companhia muito castigada”

Tivemos vários mortos e feridos, pois éramos sempre os primeiros a avançar e a ajudar batalhões em dificuldades.
Vanessa Fidalgo 15 de Setembro de 2019 às 08:00
FOTO: Direitos Reservados

Assentei praça a 10 de abril de 1961, em Chaves, integrando a recruta de novos Batalhões de Caçadores Especiais com destino a Angola. Fui um recruta especializado, com instrução dada por oficiais que tinham o curso de ‘rangers’ tirado em Lamego.

Foram dias muito difíceis. Exercícios muito puxados e bem suados, incluindo toda a instrução sobre o manejo de armamento, pois estávamos a ser preparados para entrar num conflito armado, já a decorrer em Angola desde março de 1961.

Fizemos as marchas finais durante uma semana na serra, na zona de Boticas, com a simulação de sanzalas e fogo real, incluindo aviação, para completarmos a instrução e rumarmos a Angola. A 12 de agosto de 1961, embarcámos no paquete ‘Vera Cruz’ a caminho do nosso objetivo, que atingimos no dia 21 de agosto.

Ficamos uns dias no Grafanil e depois rumámos ao norte de Angola, prontos para entrar em combate. Fizemo-lo através do Cacuaco, seguindo por Quicabo, Beira Baixa e Zala, a caminho de Nambuangongo.

Tivemos um percurso muito difícil, pois pelo lado que seguimos encontrámos muitas árvores enormes cortadas e atravessadas na estrada, assim como valas profundas cavadas nessa mesma estrada, obstáculos que, muito a custo e com muito trabalho, lá fomos vencendo! Durante essa progressão fomos alvos de ataques constantes. Éramos a Companhia de Caçadores Especiais 270/61, que ficou fora dos batalhões 261 e 262, formados na mesma altura em Chaves.

O inferno das emboscadas
Depois começou o inferno dos ataques, emboscadas, tiros de ‘snipers’, etc. Seguimos respondendo e, de início, não tivemos grandes acidentes. Tínhamos uma boa preparação e, ao primeiro tiro, voávamos das viaturas em movimento para o chão, pois o lema era: "Mais vale uma perna ou um braço partido, do que um tiro." Ainda assim, fomos uma companhia muito castigada, tivemos feridos e alguns mortos, pois como independentes éramos requisitados para ajudar outros batalhões em dificuldades e, como fomos treinados para o combate, éramos os primeiros a avançar.

A guerra do Ultramar foi-nos praticamente imposta por outros países, sedentos das riquezas que as colónias possuíam. Com uma vontade canina, tudo fizeram junto de Salazar, pressionando-o para que desse a independência àqueles territórios para melhor lhes deitarem a mão. A conversa da treta liderada pelos Estados Unidos para que fossem independentes e pudessem usufruir de uma plena democracia não passava da sua habitual ingerência para se enfiarem nos interesses de outros países. Salazar era acima de tudo um bom patriota e não se deixava levar por aprendizes de estadistas, que mais não eram do que vigaristas armados em samaritanos. Resistiu enquanto pôde e negou sempre a ingerência naquilo que achava ser de Portugal por direito próprio. Quando essas nações perceberam que não demoviam Salazar de forma nenhuma, optaram por financiar o terrorismo para essas províncias, fornecendo dinheiro e armamento, recorreram às missões (católicas e evangélicas de vários países, entre eles os holandeses, a atuar no Congo e norte de Angola) para incitarem os negros a revoltarem-se contra os brancos.

Vários países que colonizaram outros territórios foram-lhes dando a independência, não vislumbrando Salazar que daí tivessem esses povos melhorado a sua vida. Por isso, renitentemente, negava esse direito aos povos africanos, há séculos integrados na Nação Portuguesa. Assim, foi-nos imposta a guerra no ultramar português chacinando brancos e pretos, num terrorismo até essa altura sem paralelo.

Nome
Fernando Maia

Comissão
Angola 1961-1963

Força
Comp. Caçadores Especiais 270/61

* Info
Reformado, Vive em Mataduços, Aveiro

Angola Chaves Batalhões de Caçadores Especiais Salazar tratados e organizações internacionais-INATIVO
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