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Correio da Manhã

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França em alerta azul-Marine

Vários candidatos da Frente Nacional ficaram à frente nas municipais. A segunda volta é neste domingo.
31 de Março de 2014 às 15:00
Líder da Frente Nacional acredita que vai pôr fim à bipolarização
Líder da Frente Nacional acredita que vai pôr fim à bipolarização FOTO: Eric Gaillard/Reuters

Perpignan, fundada há mais de mil anos, fica no Sul de França, a 40 quilómetros dos Pirenéus. Salvador Dalí proclamou em 1963 que a sua gare ferroviária era "o centro do Mundo", pois era ali que o surrealista catalão tinha as melhores ideias. Nesta semana, a cidade foi um dos centros da política francesa, pois poderá tornar-se hoje a única com mais de 100 mil habitantes a ser governada pela Frente Nacional.

O candidato do partido de extrema-direita, Louis Aliot, foi o vencedor da primeira volta, disputada no domingo passado, com 34,4 por cento dos votos, deixando para trás o presidente da câmara em exercício, Jean-
-Marc Pujol, do centro-direita, que se ficou por 29,8 por cento. Mas Perpignan foi só uma das alegrias do movimento liderado por Marine Le Pen: conquistou pela primeira vez uma autarquia logo à primeira volta (Hénin-Beaumont, no Norte) e foi o mais votado noutras 18, incluindo Avignon, Béziers, Fréjus e Saint-Gilles, num elevado retorno para o investimento feito nas listas Rassemblement Bleu Marine (Reunião Azul-Marine), trocadilho entre a cor azul-marinho e o primeiro nome da filha de Jean-Marie Le Pen, que fundou a Frente Nacional (FN) em 1972.

Contabilizados todos os votos da primeira volta das municipais, a oposição de centro-direita, reunida em torno da União por um Movimento Popular (UMP), obteve 46,5 por cento, a esquerda liderada pelo Partido Socialista Francês (PSF) reuniu 37,7 por cento e a extrema-direita ficou-se por 4,6 por cento. A percentagem pode parecer escassa para tanto choque, mas camufla dois factos: a FN só se apresentou em 585 das 36 681 comunas de França e o seu resultado médio foi de 14,8 por cento. Tanto assim que 323 dos seus candidatos a ‘maire' passaram à segunda volta, que será disputada neste domingo.

Entre os motivos do bom resultado da extrema-direita, sobretudo no Norte, Leste e Sul da França, sobressai a crise económica, o elevado desemprego, a insegurança nas ruas e o desgaste da maioria presidencial de François Hollande. Não espanta que alguns dos eleitores tenham vindo da esquerda.

PORTUGUESES NA FRENTE

Foi o caso de Luís da Silva Canedo, nascido no Porto mas que chegou a França há 42 anos. "Interesso-me por política há 20 anos e sempre tive ideais socialistas. Nunca fui de direita, sempre fui de esquerda, mas pensava que os socialistas eram uma coisa que não são", disse à ‘Domingo' o português, de 53 anos, que é o 31º da lista da FN para o Conselho Municipal de Perpignan, e garante que poderia estar mais acima. "Pedi para não me porem em 15º. Quando se está nos 25 primeiros aparece a fotografia, e como lido com muita gente na empresa preferi que o nome viesse mais abaixo."

Mesmo sem o cartão de militante do partido liderado desde 2011 por Marine Le Pen, Canedo não duvida que Louis Aliot - companheiro da líder partidária e ex-candidata presidencial - tem a solução para os problemas da cidade em que o português vive há duas décadas, após ter passado por Paris e Toulouse. "Os tipos que nos dirigem, a nível nacional, não fazem ideia do que se passa nas cidades. Estão fechados nos seus castelos, comem todos juntos, dormem uns com os outros, e importam-se pouco com quem está em baixo. E em Perpignan é igual. A direita está aqui há 30 ou 40 anos e faz sempre a mesma coisa, enquanto a cidade está a ser devorada pelos árabes e pelos ciganos", afirma.


Este discurso é a melhor arma para quem acusa a extrema-direita francesa de continuar extremamente xenófoba. No entanto, por entre relatos de "sítios a que a polícia não tem direito de ir" e de "raparigas de 15 anos proibidas de andar na rua a partir das seis da tarde", o responsável pela edição de um guia de televisão relativiza. "Aqui em França toda a gente é racista para com magrebinos que não trabalham, mas andam de BMW e de Mercedes devido ao tráfico de droga", assegura, vincando diferenças entre vagas anteriores de emigração e "gajos que não se integram".

A presença de dezenas de candidatos portugueses e lusodescendentes nas listas da FN é algo que José Cardina, presidente da Coordenação de Coletividades Portuguesas em França, consegue entender. "Há de todas as cores políticas e são as convicções de cada um. Nós, nas associações, queremos é que as pessoas se interessem pela vida política, sobretudo a nível local, e que vão votar", disse à ‘Domingo' o ex-militar de carreira, de 53 anos. Natural de Boidobra, junto à Covilhã, esteve dez anos na Marinha antes de ir viver para França, depois do casamento, ao constatar que "não dava para viver" no Portugal de 1991. Tal como outros sentem em 2014.

FORA DA UNIÃO EUROPEIA

Enquanto se fazem contas para a segunda volta das municipais - em Perpignan, por exemplo, o socialista Jacques Cresta desistiu e anunciou que votará no candidato da direita, o que teoricamente dificulta o triunfo de Aliot -, há quem pense na melhor forma de conter a extrema-direita. "Se não falarmos da realidade vivida pela população, e estivermos muito longe das suas preocupações, vamos verificar um aumento do apoio às ideias da FN", adverte o luso-francês Paulo Marques, militante da UMP, que se prepara para ser eleito conselheiro municipal em Aulnay-sous-bois, uma pequena autarquia a 14 quilómetros de Paris.

Satisfeito com a prestação da direita francesa, que ficou em minoria na Assembleia Nacional em 2012 - o mesmo ano em que Nicolas Sarkozy foi derrotado nas presidenciais por François Hollande -, Marques admite que a FN "já tem um bom resultado", pois garantiu pelo menos uma câmara, ao contrário do que sucedera em 2008, e mais de 500 conselheiros municipais. Dependerá da mobilização do eleitorado, e das desistências das outras listas, se atingirá a meta de mil eleitos apontada pela líder.

Apesar de reconhecer que a FN "não é um partido proibido e que os portugueses seguem a tendência nacional, deixando-se atrair", o presidente da associação de autarcas de origem lusitana Civitas aponta questões que se levantariam caso chegasse ao poder: "Se a França sair do euro, o que poderá acontecer? Com a saída da União Europeia, qual seria o destino dos franceses de origem portuguesa? E dos seus pais, sem nacionalidade francesa?"

PROMESSAS E BALANÇOS

Os candidatos da FN às municipais seguem uma série de princípios que Marine Le Pen considera essenciais para acabar com a bipolarização - "essa camisa de forças sufocante" - e assegurar que "nada será como antes". Os primeiros passam pela redução dos impostos locais e pela luta contra as despesas inúteis, mas logo se passa para a "total transparência de critérios e procedimentos na atribuição de habitação social" ou para o "fazer tudo o possível para acabar com os acampamentos selvagens de nómadas". Mas o ponto central, muito repetido pelos candidatos, é que se deve "assegurar a segurança e a tranquilidade, que é a primeira das liberdades".


O foco na insegurança é reconhecido por Luís da Silva Canedo. Mesmo apontando o euro como a razão para "estarmos todos na merda", pois "os salários continuam iguais aos de há 15 anos e os preços de tudo multiplicaram por cinco ou dez", o candidato da FN a conselheiro municipal admite que os eleitores procuram sobretudo falar do que a sua lista pretende fazer no combate à criminalidade.

Entre os municípios que a FN geriu no passado recente há um pouco de tudo, incluindo vários escândalos que a direita e a esquerda têm recordado nesta semana. Nomeadamente, o caso de Toulon, onde houve aumento de impostos e da dívida da autarquia, cortes nas subvenções a associações que trabalhavam com minorias étnicas, casos de corrupção e alegadas perseguições à "cultura elitista".

Em Marignane, também no Sul de França, foram canceladas assinaturas de jornais ‘esquerdistas' e encomendados livros de militantes da FN para as bibliotecas, enquanto a autarquia de Vitrolles deixou de assegurar refeições alternativas nas cantinas escolares quando o menu incluía carne de porco. Além da provocação às famílias muçulmanas, a rua Nelson Mandela mudou de nome.

ACUSAÇÕES CRUZADAS

Este ‘cadastro' levou a algumas fortes reações à possibilidade de vitória da extrema-direita. O diretor do Festival de Avignon, Olivier Py, declarou que o evento poderá deixar de se realizar na cidade em caso de triunfo de Philippe Lottiaux, o candidato da FN, que foi o mais votado na primeira volta, com 29,6 por cento. Mesmo tendo em conta que os candidatos que passam a fasquia dos dez por cento podem manter-se no boletim de voto, é bastante improvável que isso venha a acontecer.

Garantido está o acordo da UMP com a lista comunista em Billy-Montigny, no Norte, para ‘barrar' o candidato da FN. Marine Le Pen não demorou a revoltar-se com a "dupla traição", acusando a UMP de trair os eleitores "ao aliar-se com a esquerda mais extremista, sectária, laxista e imigracionista", e o Partido Comunista de aceitar "o neoliberalismo mais brutal com os trabalhadores".

"Vendem o pai e a mãe para manterem o poder", critica Luís da Silva Canedo, crente de que os franceses vão "tentar algo diferente" neste domingo. "Não somos o Hitler, nem o Jean-Marie Le Pen. Ele era exagerado no que dizia e no que pensava", diz este português da FN.

CAIXA: ELEIÇÕES EUROPEIAS SÃO O PRÓXIMO DESAFIO

A Frente Nacional terá um novo desafio pela frente depois das municipais, pois está a disputar a vitória nas eleições para o Parlamento Europeu, marcadas para 25 de maio. As sondagens mais recentes dão conta de que a direita da UMP vai à frente, com 22 por cento das intenções de voto, mas o partido de Marine Le Pen vem logo a seguir, com 21 por cento, deixando o PSF em terceiro, com 17 por cento.

Estes resultados só não são melhores para a FN porque outros estudos, realizados no final de 2013, chegaram a dar-lhe a liderança. Pelo contrário, a lista encabeçada por Jean-Marie Le Pen em 2009 teve um mau resultado, com 6,8 por cento, elegendo apenas três dos 72 eurodeputados franceses, que serão agora 74. Uma fasquia que a filha conta superar nas únicas eleições em que o escrutínio é proporcional (embora o território francês seja dividido em oito círculos), sem segundas voltas capazes de juntar todos contra a extrema-direita.

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