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França nas urnas

Filhos de emigrantes com voto na matéria. Pascal de Lima e Paulo Marques torcem hoje pelos seus candidatos.
6 de Maio de 2007 às 00:00
Pascal de Lima / Paulo Marques
Pascal de Lima / Paulo Marques FOTO: José Lopes, Luso Jornal / D.R.
PASCAL DE LIMA
Para mim, tudo começou num sonho. Uma noite, tinha uns 12 anos, vi-me no meio de uma sessão de bolsa. Era fantástico, eu não imaginava outra coisa pois passava todo o tempo livre a ler livros de divulgação sobre finanças e economia escritos por americanos como o Charles Handy e o Peter Drucker. E nunca me esqueci desse sonho.” O resultado do que aconteceu a Pascal de Lima, filho de um casal de emigrantes – ele, abastecedor de supermercado, nascido em Dornelas do Zêzere, no concelho do Fundão, e ela de Barreiros, em Valpaços, Chaves –, traduz-se hoje, aos 34 anos de idade, num doutoramento em Economia, sobre Estratégia Bancária, no Instituto de Estudos Políticos, de Paris, cinco livros e uma natural ambição política que o levou em 2004 a inscrever-se no Partido Socialista francês, quando já trabalhava com o antigo ministro das Finanças Dominique Strauss-Kahn, e o fez entusiasmar-se, com a candidatura de Ségolène Royal, e participar na comissão de Economia, Emprego e Segurança Social da campanha.
Nas últimas semanas esteve activíssimo a falar com jornalistas portugueses. Com estreita ligação ao núcleo organizador tornou-se numa espécie de porta-voz. Para Pascal de Lima é claro que não só as medidas de Ségolène são as melhores para a França.
Pascal de Lima hoje já tem uma casa em Cascais, na costa da Guia, mesmo em frente ao farol. Com equilíbrio consegue-se muita coisa, é a grande constatação do luso-descendente parisiense, nascido em 26 de Maio de 1972, no 16éme, o ‘arrondissement’ mais chique e rico da capital francesa. De lá os pais mudaram-se para a vizinha Boulogne Billancourt, onde estudou nos liceus Bartoli e Jacques Prévert. “Era bom aluno, de 18 em 20 nas Matemáticas, Filosofia e Francês, e menos bom na História, Inglês e Espanhol”, lembra o consultor financeiro da Altran, que passa férias em Portugal com a namorada. Pascal de Lima andou sem vagares na carreira académica: licenciou-se em Economia na Universidade de Sorbonne (Paris I) em 1997, fez duas pós-graduações em 1998 e 99 na Escola Superior de Comércio de Tours e outra vez na Sorbonne-Paris I e lançou-se no doutoramento, finalizado em 2003, no Instituto de Estudos Políticos de Paris. Na tese teve como orientador Jean-Paul Fitoussi, famoso por trabalhos sobre a Segurança Social na Europa, e entre os mestres do júri esteve o ex--ministro das Finanças português Jorge Braga de Macedo que nas férias visita sempre na Praia da Maçãs.
Outro ministro das Finanças que conheceu nos trabalhos e exames de doutoramento foi Dominique Strauss-Kahn, um barão do PS francês reconhecido pelas suas posições sociais-democratas e distantes das frentes de esquerda. Ele convidou-o para o núcleo político pessoal AGEE – À Gauche En Europe (À Esquerda na Europa) e Pascal de Lima não só se tornou militante do PS na secção de Sèvres, como se multiplicou em intervenções. Esteve entre os redactores do programa presidencial de DSK, derrotado nas primárias no seio do partido por Ségolène. Hoje, o jovem continua a trabalhar como investigador no Instituto de Estudos Políticos, onde durante dois anos (2004-2006) deu aulas.
Pascal conheceu o actual Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. “Foi absolutamente surpreendente”, conta. “Nas férias de Agosto de 2005, e graças a um contacto do prof. Braga de Macedo, tive oportunidade de lhe telefonar e visitar na casa de Verão em Albufeira. Deu-me indicações pormenorizadas sobre como lá chegar e quando toquei à campainha, ele próprio me abriu a porta. Fiquei impressionado como um político tão importante era tão acessível.” Pascal de Lima tem aprendido com bons mestres. E uma Ségolène presidente ajudaria, com certeza, muito.
PAULO MARQUES
Omeu pai foi o fundador da Associação de Cultura Portuguesa Rosa dos Ventos, aqui num bairro de Aulnay que ainda hoje tem muitos problemas e foi a partir dela que entrei na política”, conta Paulo Marques, luso-descendente de 37 anos que nas presidenciais francesas se empenhou a fundo na campanha de Nicolas Sarkozy. Ele passa os dias no estado-maior da organização na rua d’Enghien, em Paris, onde montou uma comemoração bem sucedida do 25 de Abril, com muitos cravos vermelhos. E apoia o candidato mais votado na 1.ª volta não só por se tratar do presidente do UMP – União por um Movimento Popular, partido por que é conselheiro municipal em Aulnay-sous-Bois, mas sobretudo pela defesa de valores que considera essenciais como “o trabalho e a família”.
Filho mais velho de um casal de emigrantes oriundos de Espito, no concelho de Ourém, Paulo, solteiro, leva a preceito os princípios em que foi educado. O facto de ser francês, nascido a 13 de Janeiro de 1970, em Champigny-sur-Marne, o grande destino da emigração portuguesa nos anos 60 para ir trabalhar na construção civil, não o distancia nem da língua nem do país dos pais. Além de passar férias no Verão em Portugal, sabe que o presidente da junta de freguesia de Espito é um emigrante regressado de França, João Trezentos, com quem mantém contactos frequentes.
Paulo é adjunto do ‘maire’ (presidente da câmara) de Aulnay com o pelouro da juventude e desportos e funciona também como promotor de eventos e relações públicas das duas discotecas dos irmãos mais novos, em Le Mans.
Paulo Marques e toda a família conhece bem aquela cidade mítica das corridas de carros. Foi em Le Mans que o pai, hoje chanceler do consulado português, começou a trabalhar nas obras. Sobre a entrada de Paulo na política, o melhor testemunho é do ‘maire’ de Aulnay, Gérard Gaudron, um hidrólogo – detector de nascentes de água – com 57 anos, a quem a agitação do Maio de 68 levou a inscrever-se no partido gaulista. “Não o fui buscar para a lista a pensar nos cinco mil portugueses que há entre os 80 mil habitantes do município, mas por causa da intervenção social da associação fundada pelo pai do Paulo.”
No seu gosto pela política, Paulo é peremptório: “É uma forma de mudar as coisas.” O luso-descendente meteu-se nos despiques eleitorais aos 19 anos. “Em 1989, entrei como último da lista e não fui eleito, mas ganhei à segunda em 1995. Em 2001, foi ainda melhor”, recorda o autarca.
Desde que foi eleito, Paulo Marques nunca mais parou. Em 5 de Fevereiro de 2000, fundou a associação de autarcas de origem portuguesa: “Deve haver cerca de 350 em toda a França, 72 dos quais são sócios da associação, mas queremos chegar a mais”, diz, apontando o exemplo do êxito que foi a criação de comités portugueses de apoio à eleição de Sarkozy, cem em toda a França.“Somos uma comunidade imigrante que durante anos não quis dar nas vistas, mas hoje se quer afirmar. Em França, há 46 mil empresas que são propriedade ou dirigidas por emigrantes portugueses e descendentes. E se analisarmos os rendimentos, a média do 1,2 milhões de origem portuguesa está 10% acima do geral da França”.
Com uma vitória presidencial de Sarkozy, uma maré alta do UMP, tudo para ele será possível. E Paulo sabe que assim é, quando vai fazer campanha para o bairro Rose des Vents, convencer jovens filhos de emigrantes magrebinos e negros.
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