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Francisco George: Aventuras em África

O médico que está prestes a terminar uma dúzia de anos à frente da Direção-Geral de Saúde lidou com o vírus da sida e empurrou um avião quando trabalhava na Organização Mundial de Saúde.
Leonardo Ralha 24 de Setembro de 2017 às 06:00

Sem ter combatido na Guerra Colonial, ao contrário da maioria dos portugueses da sua idade, Francisco George tinha 33 anos quando aterrou pela primeira vez em África, em 1980, mas o médico que vai deixar de ser diretor-geral da Saúde a 20 de outubro, após 12 anos em funções, estava a tempo de viver aventuras num continente de que só conhecia o enclave de Ceuta.

Integrado nos quadros da Organização Mundial de Saúde (OMS), teve por primeiro destino Brazzaville, capital da República do Congo, ficando alojado num hotel com vista para Kinshasa, capital do Zaire, na outra margem do rio homónimo, que servia de fronteira entre a ditadura pró-soviética de Nguesso e a ditadura pró-ocidental de Mobutu. Neste clima de guerra fria tropical foi apanhado sem documentos de identidade por milicianos de metralhadora em punho. O único remédio foi levá-los para o hotel, onde revistaram os seus haveres até às duas da manhã.

Ultrapassado este primeiro impacto, a transferência para a Guiné-Bissau poderia ser tranquila, mas o médico nascido cinco minutos após o irmão gémeo, e que deve o seu apelido ao avô inglês, viveu o golpe de Estado de Nino Vieira, a 14 de novembro de 1980. Face ao súbito recolher obrigatório, dividiu quarto com um cooperante português que acabara de conhecer, ouvindo as janelas estremecer toda a noite com os tiros de canhão.

Três anos depois, devido ao programa de vacinação da OMS no país lusófono, viveu algo de que nem os passageiros da piores low cost se podem queixar. Preparado para descolar da improvisada pista de Catió, muitas vezes ocupada por cabeças de gado, foi um dos convocados pelo piloto para empurrarem o avião até o motor pegar. A manobra resultou e pôde reunir-se à família em Bissau.

Perseguição em Bamako

O grande desafio que o epidemiologista prestes a fazer 70 anos enfrentou no tempo passado em África foi o aparecimento de uma pandemia que deixou a OMS "três anos às cegas", até o Mundo ser apresentado ao VIH como causador da sida. Tamanha ameaça era conhecida em 1987, quando George teve outro tipo de susto. Convenceu a mulher, Maria João, que conhecera no verão de 1964, quando viajavam de comboio em Inglaterra, a acompanhá-lo a Bamako, capital do Mali. Estavam a passear à noite, após jantarem coxas de rã, quando um de três homens que seguiam numa motocicleta roubou por esticão a mala da arquiteta.

Sucedeu então algo que o levaria a desabafar que "todos nós temos qualquer coisa de James Bond", pois o primeiro impulso foi perseguir os meliantes na moto de um maliano que parou para ajudar o casal. Só não o fez porque ao deixar junto à embaixada dos EUA Maria João - morta em 2006, num acidente de viação, perto de Ferreira do Alentejo, que também vitimou Catarina, filha do meio do casal - percebeu que ela só trazia lenços de papel e chaves na mala.

X-Files Francisco George
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