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Frases de Raul Minh'Alma até são tatuadas

Escritor do romance português mais vendido, em 2019, é seguido no Facebook por meio milhão
Fernando Madaíl 9 de Fevereiro de 2020 às 13:00

O autor de livros com "a receita para [se ser] feliz no amor" ou que ajudam "a esquecer quem não [nos] merece" é um engenheiro mecânico, de Marco de Canavezes, que nunca exerceu essa profissão. Do signo caranguejo (nasceu a 29 de junho de 1992), poucos sabem quem é Pedro Miguel Queirós, um leitor de Vergílio Ferreira, de Simon Beckett e de Lesley Pearce. Mas largos milhares de portugueses conhecem o seu pseudónimo Raul Minh’alma, que já assinou cinco best-sellers.

O romance ‘Foi Sem Querer Que Te Quis’ seria, no ano passado, a obra de ficção mais vendida em Portugal, com 26 edições e mais de 70 mil exemplares comprados. E o título mais recente, ‘Ganhei Uma Vida Quando te Perdi’, colocado nas montras a 6 de novembro, foi diretamente para um primeiro lugar do top (no qual ainda se mantém), já vai na 7ª edição e esgotou mais de 25 mil cópias. Assim se justifica que algumas das suas admiradoras ("o público feminino é superior aos 90%", admite o escritor), inspiradas por palavras que lhes alteraram o destino, tatuaram no corpo as suas frases preferidas, como: "Não aceites dias mornos num trabalho chato, ou noites frias numa companhia amena. Isso não é viver, é esperar pela morte".

Poema ‘Ela’

Tudo começou por um acaso. Para ganhar algum dinheiro, tomava conta dos filhos de uma amiga que estudava à noite, supervisionando os trabalhos de casa, dando o jantar e deitando os três irmãos de dois, oito e dez anos. Influenciado pela poesia que andava a estudar na cadeira de Português, certa noite do ano de 2009, agarrou num caderno velho de um dos miúdos e escreveu ali os versos de ‘Ela’. Depois, criou o blogue ‘El Pedro Poeta’, que divulgou entre os amigos e, para seu espanto, ao chegar às aulas, no dia seguinte, foi recebido como "o nosso poeta". Houve quem não percebesse que ‘Ela’ não era nenhuma colega, mas sim uma referência à morte – nessa fase, ainda sentia muito o desaparecimento do pai, que morreu quando ele (o mais novo de oito irmãos) tinha apenas 12 anos.

Naquele blogue escreveu mais de uma centena de poemas, dos quais escolheu 50 para ‘Desculpe Mãe’ (2011), publicado numa editora em que o autor, comprando vários exemplares, paga a produção. Mais tarde, deixará os versos para passar a registar na blogosfera pequenos pensamentos, que publicaria, através do mesmo sistema, nas obras ‘Os Mistérios de Santiago’ (2014) e ‘A Fome’ (2015).

Até que, em fevereiro de 2016, decide "contactar meia dúzia de editoras". Fica para a História a Manuscrito, uma chancela do grupo Presença, em que convence de imediato Dora Alexandre (atual responsável pela Comunicação & Marketing), que encaminhará a proposta para a direção editorial – assegurando, assim, um contrato com um escritor de sucesso. A justificação é simples: "Um texto muito bem estruturado, dizendo quem era, o que pretendia e o número de seguidores que tinha nas redes sociais [nessa altura, eram 80 mil no Facebook; neste momento, são quase 445 mil – próximo do meio milhão]", conta Dora Alexandre.

Rostos escondidos

Aí, após o ciclo de três obras "sobre vida, amor e relacionamentos", constituídos por pequenos textos (150 ou 500 mensagens), que pretendiam ser um "guia diário rumo à felicidade" – ‘Larga Quem Não Te Agarra’ (mais de 45 mil exemplares vendidos); ‘Todos os Dias São para Sempre’ (superou os 30 mil); ‘Dá-me um Dia para Mudar a Tua Vida’ (acima de oito mil) –, Raul Minh’alma enveredou pelo romance.

Através de uma narrativa em que as personagens vivem situações idênticas às do quotidiano de muita gente, cumpre o seu objetivo de "transmitir ideias positivas, reforçando a confiança das pessoas e dando-lhes esperança para resolverem os seus problemas". Tal como se sublinhava na campanha publicitária de ‘Larga Quem Não Te Agarra’, Raul Minh’alma pretende "expor as angústias pelas quais todos passamos, mas também, e acima de tudo, invocar o amor pelo próximo e por si mesmo".

Ao correr do tempo, Raul Minh’alma foi aprimorando as técnicas de comunicação – além do Facebook e do Instagram, também faz, por exemplo, vídeos no YouTube. Nem é por acaso que "as figuras que ilustram as capas têm o rosto escondido, para permitir uma mais fácil identificação" entre a compradora e o conteúdo. E, por isso, nos romances é impressa a frase: "Dedico este livro a ti" – e, assim, cada leitor pode pensar que aquelas páginas foram redigidas de propósito para si.

E tem outros cuidados. Em vez de numerar os capítulos, usa pequenas ilustrações que ele próprio desenha: uma rosa ou uma galinha, um semáforo ou uma ambulância, uma chávena ou um termómetro. A finalidade, explica, é acrescentar mais uma forma de fazer com que o leitor tente intuir "o que vem a seguir" e, desse modo, querer ler o livro mais depressa – acabando-o em dois ou três dias.

Música e teatro

O campeão de vendas nas livrarias tem outras facetas menos conhecidas, como ser letrista e compositor de temas próximos do universo das canções de David Carreira ou de Diogo Piçarra ou ainda ter sido ator e dramaturgo – fazia um sketch nas récitas no Grupo Desportivo de Tabuado, que era "uma espécie de ‘Telerural’, inspirado no programa humorístico da RTP, em que [se adaptavam] as notícias locais".

Nessa época, porém, ainda não tinha o reconhecimento que só chegou com a literatura de massas. O prestígio de Raul Minh’alma cresceu de tal forma que até já há quem suspeite que Afonso Noite-Luar, outro nome do catálogo da Manuscrito (com uma proposta mais ousada, num estilo que parece decalcado de ‘50 Sombras de Gray’), é mais um pseudónimo de Pedro Miguel Queirós – mas o secretismo daquela identidade é ciosamente preservado pela editora.

O êxito da fórmula deste escritor que está na moda pode ser imparável. Pense-se num outro caso de vendas célebre: o ‘Sei Lá’, com que Margarida Rebelo Pinto se estreou, aos 33 anos, vendeu mais de 300 mil exemplares. Ora, Raul Minha’alma ainda só tem 27. Mesmo assim, ainda lhe falta muito até atingir os cerca de 450 mil de ‘Equador’, de Miguel Sousa Tavares.

APOIOS

Best-sellers e clássicos ‘Harry Potter’ ou ‘Dom Quixote’?

A ‘Bíblia’ é, para o ‘Guinness World Records’, o livro mais vendido de sempre, com uma estimativa de cinco mil milhões de cópias. Mas ignora-se a real quantidade de exemplares impressos antes do mercado livreiro ter começado, no século XX, a controlar tiragens e a usar o rótulo de best-seller.

Se é fácil saber que já se compraram 120 milhões de livros de ‘Harry Potter e a Pedra Filosofal’, de J. K. Rowling, considerar-se que ‘Dom Quixote’, de Miguel de Cervantes, terá tido, ao longo dos séculos, uma venda global de 500 milhões é mera extrapolação.

De igual modo, na literatura portuguesa, é possível conferir o que vendeu o ‘Memorial do Convento’, de José Saramago, mas nunca saberemos o número de compradores de ‘Os Lusíadas’, de Luís de Camões.

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