Frases que entraram para a nossa História

Este livro foi escrito a pensar nos leitores. Para ajudar a recuperar das ‘brumas da memória’ frases que estão coladas à pele dos portugueses e que se transformaram em senhas da nossa identidade.
12.03.06
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Frases que entraram para a nossa História
Foto d.r.
ANIBAL CAVACO SILVA (Presidente da República)
“Só fui fazer a rodagem” (Frase de 1985)
Explicação: Em Maio 1985, Portugal era governado por uma coligação entre o PS e o PSD que ficou conhecida como ‘Bloco Central’.
Dias depois da morte, por ataque cardíaco, do líder social-democrata e vice-primeiro-ministro, Mota Pinto, realizou-se o XII Congresso do PSD, na Figueira da Foz. O favorito para dirigir o partido era João Salgueiro e tudo indicava que mantivesse o apoio ao ‘Bloco Central’. Mas, de uma forma para muitos inesperada, o economista Cavaco Silva, ganhou o Congresso propondo uma nova estratégia: romper a coligação com os socialistas, provocar eleições legislativas antecipadas e apoiar a candidatura de Freitas do Amaral às eleições presidenciais do ano seguinte.
Cavaco foi eleito presidente do PSD e, em Outubro, tornou-se primeiro-ministro depois de ganhar as legislativas. Insistiu sempre que não era um político profissional e que nem sequer tinha sido sua intenção candidatar-se à chefia do partido. “Só fui à Figueira para fazer a rodagem do meu automóvel”, disse em repetidas entrevistas.
De facto, dias antes do Congresso, Cavaco Silva comprara um carro novo, um Citroën BX. Naquele tempo, os carros novos ainda precisavam de fazer a rodagem.
MARQUÊS DE POMBAL (Sec. Estado dos Negócios Estrangeiros)
“É preciso sepultar os mortos e cuidar dos vivos” (Frase de 1755)
Explicação: No Dia de Todos os Santos de 1755, Lisboa foi arrasada pelo terramoto mais violento da História da Europa. Milhares ficaram soterrados nos escombros. Segundo a lenda, Sebastião José de Carvalho e Melo, ministro e valido do rei, foi encontrar D. José, que lhe perguntou: “E agora?” Ao que o futuro Marquês de Pombal respondeu com a concisão dos práticos.
SALGUEIRO DA MAIA (Capitão de Abril)
“O estado a que isto chegou” (Frase de 1974)
ARTUR ALBARRAN (Jornalista)
“A embaixada de Espanha está a arder... e bem” (Frase de 1975)
Explicação: Em 27 de Setembro de 1975, a execução dos bascos Garmendia e Otaegui pela ditadura de Franco provocou uma onda de protesto a nível internacional. Em Portugal, onde se viviam os dias de brasa da Revolução de Abril, várias organizações de extrema-esquerda convocaram uma manifestação para junto da embaixada espanhola em Lisboa, na Praça de Espanha.
Perante a passividade da Polícia e da tropa, os manifestantes forçaram a entrada no edifício e saquearam as instalações diplomáticas.
O Governo português da altura acabou por resolver o problema apresentando desculpas ao país vizinho e prontificando-se para pagar todos os estragos. Entre os manifestantes, um jornalista fazia a reportagem para a Rádio Renascença: Artur Albarran, então conotado com o extremista Partido Revolucionário do Proletariado (PRP-BR), descreveu assim o que estava a ver: “A embaixada está a arder... e bem.”
AMÉRICO TOMÁS (Presidente da República)
“É a primeira vez que estou cá desde a última vez que cá estive” (Frase dos anos 60 até metade de 70)
Explicação: Em matéria de frases, Américo Tomás (1894-1987), Presidente de 1958 ao 25 de Abril de 1974, tem de ser pegado em pacote... Inaugurava tudo, das lavandarias do Hotel Sheraton, em Lisboa, às escadas rolantes do Metro do Parque Eduardo VII.
Ficou conhecido como O Corta Fitas. Andava pelo País, repetia visitas, “é a primeira vez que estou cá desde a última vez que cá estive”, onde especulava, por exemplo, sobre a Teoria dos Conjuntos (Torres Novas): “Hoje visitei todos os pavilhões, se não contar com os que não visitei.” Todos gostavam de o ouvir. Os apoiantes, porque sim. Os opositores, para se rirem às gargalhadas.
ANTÓNIO SALAZAR (Ministro das Finanças)
“Sei muito bem o que quero e para onde vou” (Frase de 1928)
Explicação: No discurso de tomada de posse como ministro das Finanças, em 27 de Abril de 1928, Oliveira Salazar (1889-1970) habituou logo os portugueses a fórmulas claras. É o trampolim para o poder absoluto: em 1932 subirá a Presidente do Conselho de Ministros, cargo que manterá até ao acidente que o incapacitará, em 1968.
Não é, porém, a estreia de Salazar na política. Em 1921 fora eleito deputado pelo Centro Católico Português. Assistiu a uma sessão do Parlamento e, desgostoso com a “desorientação” que testemunhou, regressou a Coimbra, onde era professor catedrático de Direito. Após o golpe de 28 de Maio de 1926 foi convidado para ministro das Finanças do governo da Ditadura Militar.
PADRE ANTÓNIO VIEIRA (Sacerdote)
“Os grandes comem os pequenos” (Frase de 1640)
Explicação: No Sermão aos Peixes: “A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal.
Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. […].”
EÇA DE QUEIRÓS (Escritor)
“O governo não há-de cair - porque não é um edifício. Tem que sair com benzina - porque é uma nódoa” (Frase de 1879)
Explicação: O clima político e os debates parlamentares do período do Rotativismo, em que os mesmos políticos se sucediam alternadamente durante a Monarquia Constitucional, foram dos temas preferidos de Eça de Queiroz.
A sua receita para fazer sair o Governo, um qualquer Governo – “(...) sair com benzina – porque é uma nódoa” – haveria de ser glosada até hoje.
A frase verrinosa apareceu n’ ‘O Conde de Abranhos’. O manuscrito do romance tem por data mais provável 1879, mas o livro foi editado pela primeira vez em 1925, um quarto de século depois da morte do autor.
Na realidade, em 1879, caiu (ou foi limpo) o governo regenerador de Fontes Pereira de Melo, que seria substituído pelo progressista Anselmo José Braancamp, que cairia dois anos depois, sendo substituído pelo governo regenerador de Rodrigues Sampaio.
JOÃO FERREIRA E FERREIRA FERNANDES EXPLICAM COMO NASCEU A IDEIA DESTE LIVRO
Os autores – amigos de longa data – há muito que pensavam explicar a origem histórica dos ditos populares.
Ferreira Fernandes (à dir.) e João Ferreira conhecem-se há muitos anos e trabalharam juntos em vários projectos jornalísticos. “Chegámos à conclusão que as questões da História não são tratadas de forma simples”, dizem.
João Ferreira vai mais longe: “Infelizmente o que existe em termos de História de Portugal é dedicado ou a uma elite ou é muito básico. Quisemos fazer algo que fosse acessível a todos.” Em apenas três meses pesquisaram e seleccionaram frases e ditos históricos, mas confrontaram-se com um enorme obstáculo: “Foi muito difícil seleccionar as que entravam e as que tinham que ficar de fora, porque era impossível incluir todas”, recordam, entre risos, os autores.
João Ferreira – ex-director da revista ‘Focus’, professor e mestre em História, recorda: “Na gíria jornalísticas algumas destas frases funcionam como clichés ou chavões e se calhar nem os jornalistas sabem exactamente como nasceram estes ditos.
A nossa ideia foi descobrir e atribuir a respectiva paternidade, quando esta existe e enquadrá-las no devido contexto.” Já Ferreira Fernandes, redactor principal da revista ‘Sábado’ e cronista do ‘Correio da Manhã’ adianta que o trabalho em equipa foi rápido e quem sabe, para repetir: “Em pouco tempo reunimos o material e chegámos a acordo em relação a todas as fases do livro.
Gostava que a História Portuguesa, que é tão rica e tão bela, fosse interessante para toda a gente!”
Este livro foi um dos primeiros títulos lançados para o mercado pela Esfera dos Livros, uma editora que nasceu recentemente em Portugal mas que pertence ao diário espanhol ‘El Mundo’.
A filosofia desta nova empresa baseia-se em “recrutar” jornalistas para elaborarem os mais distintos trabalhos. “Em Portugal ainda não estamos habituados, mas se entrarmos numa livraria lá fora, em Espanha, em França ou nos Estados Unidos, por exemplo, logo no início está uma mesa com os livros que, efectivamente, vendem e depois os restantes estão espalhados em prateleiras”, explica Ferreira Fernandes. E prossegue: “Os livros que estão na tal mesa são maioritariamente assinados por jornalistas.”
O lançamento deste título acontece na próxima quinta-feira, dia 16, pelas 18h30, na Sociedade Portuguesa de Geografia, em Lisboa. A apresentação estará a cargo de Francisco José Viegas, também um jornalista.
FRASES QUE FIZERAM A HISTÓRIA DE PORTUGAL
Ferreira Fernandes & João Ferreira
- Editora: Esfera dos Livros
- Preço: 21 euros
- Tipo: Edição Cartonada com 280 páginas

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