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Fratricídios nos partidos portugueses

Cisões ideológicas, lutas pelo poder, desavenças pessoais são constantes na História da Democracia.
Fernando Madaíl 20 de Janeiro de 2019 às 11:00
O abraço de Costa a Seguro nas eleições autárquicas de 2013 deu lugar, dois anos depois, a uma luta fratricida pela liderança dos socialistas
O abraço de Costa a Seguro nas eleições autárquicas de 2013 deu lugar, dois anos depois, a uma luta fratricida pela liderança dos socialistas FOTO: Patrícia de Melo Moreira / AFP

Luís Montenegro avançou com o desafio à liderança de Rui Rio e Santana Lopes decidiu formar o Aliança. Nada de novo, nem no PSD, nem nos outros partidos, em que os cismas de ideias e as lutas intestinas são quase tão antigos como a nova democracia portuguesa. Em 44 anos, o PSD conheceu 18 presidentes – e o poder de Cavaco Silva durou uma década! Entre 1975 e 1979, o fundador Sá Carneiro abandonou duas vezes o cargo, chegando mesmo a desfiliar-se: "Pegou numa caneta e escreveu no cartão de militante: ‘devolvido, por saída do partido, em 7.11.77’" (‘Sá Carneiro’, de Miguel Pinheiro). Mas voltaria, aclamado em delírio pelas bases e derrubando qualquer opositor.

As mudanças de humor de Sá Carneiro eram tão imprevisíveis que, depois da queda do primeiro governo minoritário do PS, a tentativa do presidente Ramalho Eanes para se conseguir um entendimento entre os dois principais partidos falhou porque, nessa altura, era Sousa Franco quem estava à frente dos sociais-democratas e, como registam os seus biógrafos, nada impediria que o carismático líder regressasse e decidisse "amassar, rasgar e queimar" o texto do acordo. E Mário Soares decidiu negociar com o CDS.

Em 1979, Sá Carneiro viu 37 dos 71 deputados do PSD contrariarem o sentido de voto relativamente ao Orçamento do Estado do executivo de Mota Pinto – que, na época, era independente, pois tinha saído na cisão do II Congresso do (ainda) PPD, em dezembro de 1975 e, nesta altura, era um dos primeiros-ministros que Eanes nomeou nos governos de iniciativa presidencial (pouco depois, retornaria ao partido, que até viria a liderar de 1983 a 1985, biénio em que, para demonstrar o seu desapego pelo poder, o catedrático de Direito retorquia aos seus críticos que "andava sempre com as chaves do carro particular no bolso").

Na sequência desta rutura, vários vultos cortaram com o PSD e, depois, formaram a ASDI. Um deles foi Magalhães Mota, que, com Sá Carneiro e Pinto Balsemão, integrara o trio original do topo do PPD/PSD. E, como regista Miguel Pinheiro no seu livro, Sá Carneiro desabafou com a sua secretária e confidente: "O Joaquim [Magalhães Mota], Conceição [Monteiro], o Joaquim também… Não esperava isto dele."

De Pinto Balsemão (1981–1983) a Passos Coelho (2010–2018), não houve nenhum dirigente máximo do PSD que não enfrentasse contestação interna. Mas talvez a disputa mais aguerrida tenha sido a que opôs os ex-amigos Durão Barroso e Santana Lopes, que escreveram em conjunto o livro ‘Sistema de Governo e Sistema Partidário’ e integraram, com Marcelo Rebelo de Sousa, a ala ‘Nova Esperança’, que seria decisiva, em 1985, para a consagração de Cavaco Silva no Congresso da Figueira da Foz – autor da explicação de ter ido apenas fazer a rodagem do automóvel que tinha comprado (quando se preparava para, apesar do discurso de que não era um "político profissional", se tornar a figura que mais tempo esteve no poder... desde Salazar).

Durão Barroso concorreu pela primeira vez à chefia do PSD quando, depois do tabu acerca do seu futuro político, Cavaco anunciou que não se recandidatava e avançava para Belém (sendo, então, suplantado pelo socialista Sampaio). Em 1995, o ‘delfim’ do líder que dirigiu o partido e o País durante um decénio, era Fernando Nogueira, que ganhou a Barroso por escassos 33 votos. A vez deste chegaria em 1999, quando sucedeu a Marcelo Rebelo de Sousa – que avançara após ter garantido que não o faria "nem que Cristo descesse à Terra" e que, nesse Congresso de Santa Maria da Feira, desafiara Santana a enfrentá-lo (e os sportinguistas ficariam a saber, em plena reunião partidária e através de um direto televisivo, que o então presidente do clube se demitia dessas funções). Marcelo, tendo o apoio dos barrosistas, declarava que "Pedro Santana Lopes tem um problema político-psicológico a resolver com José Manuel Durão Barroso, mas esse não é meu problema".

Como sempre lembraria Pacheco Pereira, o facto de Santana Lopes ter aceitado o convite para participar no programa televisivo de Artur Albarran ‘A Cadeira do Poder’, um concurso em que dois concorrentes simulavam ser candidatos a primeiro-ministro, retirou-lhe mais credibilidade política do que qualquer outro gesto desse ‘enfant terrible’ – como ser fotografado num iate com um fita na cabeça.

O fraco resultado nas Legislativas de 1999 levou Santana a conseguir que fosse convocada nova reunião magna em fevereiro de 2000 e, em Viseu, além dos ex-amigos, apresentou-se também Marques Mendes. Apesar de ouvir os apoiantes a gritarem "Santana vai em frente, tens aqui a tua gente!", a lista vitoriosa, mesmo por margem escassa, seria a de Barroso, que rotulava Santana como um "misto de Zandinga e de Gabriel Alves" (um astrólogo e um comentador desportivo) – mas, pouco depois, convidava-o para seu vice-presidente e ambos seriam, no futuro, primeiros-ministros.

Zanga Soares-Zenha
Mário Soares enfrentou Manuel Serra (que formou a FSP), Aires Rodrigues e Carmelinda Pereira (fundaram o POUS), Lopes Cardoso (criou a UEDS), António Barreto e Medeiros Ferreira (do grupo ‘Reformadores’, que se aliaram à coligação PSD-CDS-PPM). Mas a mais profunda das crises no PS começou quando ele decidiu retirar o apoio à segunda candidatura presidencial de Ramalho Eanes, em 1980, contra a vontade dos principais membros do partido. Na sequência deste diferendo, no congresso seguinte enfrentou a lista do ‘Ex-Secretariado’ – na qual pontificavam Salgado Zenha, Jorge Sampaio, António Guterres e Vítor Constâncio – e esmagou os adversários. Na altura, o sótão mais famoso do País era o da casa de Guterres, pois aí se reuniam os vários notáveis a conspirar contra o secretário-geral. O afastamento entre Soares e Zenha agravou-se quando o antigo número dois do PS se manifestou publicamente contra partes da Revisão Constitucional de 1982.

Companheiros desde o fim da II Guerra Mundial, no Verão Quente de 1975 surgira o slogan que sublinhava a proximidade: "Soares e Zenha, não há quem os detenha". Mas quando Mário Soares quer concretizar o seu sonho de vir a ser o primeiro Chefe do Estado civil desde 1926, eis que os novos eanistas, os antigos comunistas e os socialistas descontentes apresentam na corrida a Belém… Salgado Zenha. "Nunca pensei que Zenha me pudesse fazer tal coisa – sem um aviso, sem uma conversa, sem nada" (‘Um Político Assume-se’).

Passariam duas décadas – e o congresso em que Guterres, aproveitando-se do mau resultado do PS nas Legislativas de 1991 (a segunda maioria absoluta de Cavaco), após ter declarado que tinha ficado "em estado de choque", derrubou Sampaio da liderança, acabando por vir a ser primeiro-ministro e o seu antagonista Presidente da República – até se voltar a registar uma desavença pessoal tão grave entre camaradas.

Convencido de que Manuel Alegre não teria o perfil para bater Cavaco Silva nas Presidenciais de 2006, Mário Soares vai defrontar o seu adversário social-democrata. Mas Alegre já estava decidido a conquistar o principal cadeirão do Estado e, mesmo sem o apoio do PS, mantém o seu propósito e avança como "independente" – escrevendo, no ‘Expresso’, um conto intitulado ‘O Quadrado’: "Sei muito bem que estou sozinho. Mas um homem não se rende." Voltava a repetir-se um debate fratricida – que também colocava entre parêntesis uma amizade que datava de 1974. No frente a frente televisivo, Soares dizia que um voto em Alegre era um "salto no desconhecido" e o poeta retorquia ao ex-PR com o "princípio republicano" da renovação dos titulares dos cargos públicos – e, nas urnas, Alegre superou Soares. Cinco anos volvidos, em vez de se pronunciar a favor do antigo cúmplice, Soares deixou pairar um velado apoio a Fernando Nobre. E só quando o histórico líder socialista foi hospitalizado, com o escritor a demonstrar preocupação com o seu estado de saúde, António José Seguro pôs os dois a conversar ao telefone e a fazerem as pazes.

Seguro era, então, o secretário-geral que sucedera a José Sócrates – o único socialista que conseguira uma maioria absoluta, depois ganhara com minoria e acabaria por ser derrotado por Passos Coelho. Perante uma radicalização entre esquerda e direita, a vitória de Seguro nas Europeias de 2014 foi considerada muito escassa por uma elite do partido e, com uma "vaga de fundo", António Costa entende que era o seu momento e destrona-o. Por ironia da História, em condições que pareciam as mais propícias, o PS não ficou à frente do PAF (aliança PSD-CDS), mas Costa, intuindo a vontade popular, quebrou um bloqueio que remontava a 1975 e negociou o apoio do PCP e do BE. E, confrontado com as acusações judiciais contra o anterior primeiro-ministro do PS, não terá demonstrado a solidariedade que o seu camarada desejava e Sócrates desfiliou-se do partido. Afinal, sucedera quase o mesmo quando Ferro Rodrigues, acreditando que Sampaio (com quem mantinha uma convivência anterior à adesão dos dois ao PS) iria convocar eleições antecipadas, verificou que o então Presidente empossava Santana como primeiro-ministro.

Falso aperto de mão
Do triunvirato mais famoso na fundação do CDS, após o desaparecimento de Adelino Amaro da Costa (no acidente de Camarate, que também vitimou Sá Carneiro), Freitas do Amaral e Basílio Horta afastaram-se do partido democrata-cristão quando Manuel Monteiro (e, ainda na sombra, o seu ideólogo Paulo Portas) adotou o liberalismo e mudou o nome para CDS-PP – acrescentando a Centro Democrático Social às palavras Partido Popular. Os dois candidatos da direita derrotados por Mário Soares nas Presidenciais de 1986 e 1991 acabariam atraídos para a órbita do PS, com Freitas do Amaral a ser ministro dos Negócios Estrangeiros no primeiro executivo de Sócrates e Basílio Horta o autarca "socialista" da Câmara de Sintra. E o europeísta Lucas Pires (segundo líder do CDS, de 1983 a 1985) também saiu, quando Manuel Monteiro, em 1992, assumiu uma posição eurocética.

Com o correr dos anos, a amizade entre Monteiro e Portas azedou. No Congresso de Braga, em 1998, quando Maria José Nogueira Pinto, apoiada pelo ainda presidente, declarou que "até o Rato Mickey" ganharia ao ex-diretor do semanário ‘Independente’ (e, dirigindo-se a Lobo Xavier, proferiu a frase enigmática: "Você sabe que eu sei que você sabe que eu sei..."), a meio de uma sessão em que seria consagrado como o novo chefe, Paulo Portas entrou na sala, acompanhado pelos repórteres e, para espanto geral, dirigiu-se à mesa e estendeu a mão a Manuel Monteiro – num cumprimento hipócrita.

Portas optou por afastar-se em 2005, pois, além de não evitar a maioria absoluta do PS, ficara atrás do BE, lamentando que a democracia-cristã tivesse "menos votos do que a extrema-esquerda". Tudo parecia indicar que a sua sucessão por Telmo Correia fosse tranquila, mas, depois de ser muito aplaudido após a intervenção inicial, Ribeiro e Castro resolveu disputar o cargo e, num dos últimos congressos com surpresas, viria a tornar-se o sexto presidente do CDS. O seu mandato seria curto, pois Paulo Portas – que ainda não tinha usado a palavra "irrevogável", um termo famoso quando pretendeu demitir-se do Governo que partilhava com Passos Coelho – decidiu retornar à liderança, em 2007, e venceu o seu sucessor/antecessor.

Também houve cismas ideológicos mais à esquerda. Ignorando os tempos da clandestinidade, em que até se registaram "desvios de direita" e lutas pelo poder, o PCP teria vagas de dissidentes a partir de 1987 e, entre expulsos ou desfiliados, alguns eram antigos incondicionais de Álvaro Cunhal, como Carlos Brito ou Zita Seabra. E no BE, além da fação minoritária Ruptura/FER, que se autonomizou no MAS, também cindiu com o Bloco uma parte da tendência Manifesto, que formaria o Livre. Em suma: parece nunca perder a atualidade uma das frases que Nicolau Maquiavel escreveu, em 1513 (isto é, há cinco séculos!), no livro ‘O Príncipe’: "Em política, os aliados de hoje são os inimigos de amanhã."

Luís Montenegro Rui Rio e Santana Lopes Sá Carneiro Orçamento do Estado Passos Coelho Cavaco Silva
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