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"Fui usada pelos homens em quem confiei. Usada!"

Nada. Não lamenta nada. Mágoa, sente-a apenas diante da pouca importância que Jeff Koons dá ao filho de ambos, Ludwig, hoje com 16 anos. E a raiva revela-a unicamente ao constatar ter sido usada (não amada) pelos homens em quem confiou. Mas, aos 57 anos, não perdeu ainda a esperança de encontrar “o homem ideal”. Ela é Cicciolina e, goste-se ou não, vai ficar na História. Por ter sido a diva do cinema porno mais bem paga do seu tempo. Por ter ousado até onde muitos não julgavam possível. Por ter sido estrela do cinema pornográfico e depois deputada no Parlamento italiano. Enquanto não chega ao Porto – é uma das atracções do Salão Erótico, que arranca no dia 12 –, Cicciolina confessa-se à ‘Domingo’. Numa entrevista realizada por mail, a ex-diva porno recorda também o célebre espectáculo no Coliseu de Lisboa, em 1987
8 de Fevereiro de 2009 às 00:00
'Fui usada pelos homens em quem confiei. Usada!'
'Fui usada pelos homens em quem confiei. Usada!'

Nasceu em Budapeste, em 1951, em plena Guerra Fria. Como foi a sua infância?

Nasci no dia 26 de Novembro em Budapeste, Hungria. Éramos dois rapazes, Laslo e Attila, e duas raparigas, eu e a minha irmã. Connosco vivia também a minha avó Valeria. Habitávamos num subúrbio pobre de Budapeste, Kobánya, numa casa miserável, húmida e sem electricidade. O meu apelido, Stal-ler, é do meu pai, mas ele, que era muito mulherengo, e a minha mãe divorciaram-se quando eu tinha só três anos. Apesar da pobreza, eu fui uma criança feliz porque a minha mãe sempre me deu muito amor.

Os seus pais falavam consigo acerca de sexo?

Nunca falaram comigo sobre sexualidade. A minha mãe, que tinha passado muito na vida, dizia-me às vezes para ter cuidado com isto ou aquilo... Certa noite, quando a vi chorar porque não havia dinheiro para comer decidi, aos 13 anos, tornar-me modelo fotográfico.

O que é que queria ser quando era criança?

O meu sonho era tornar-me uma mulher mas não tinha ideias muito claras sobre o assunto.

O que a levou a deixar a Hungria e a emigrar para a Itália?

Em 1971 casei, em Budapeste, com um italiano 25 anos mais velho do que eu – já morreu. Eu tinha um passaporte normal, um casamento normal e podia viver num país democrático – a Itália. Não foi um casamento feliz. Passei fome e voltei a trabalhar como modelo fotográfico numa das maiores agências de Milão. Três meses depois divorciei--me e tive de pagar as despesas legais.

Em algumas das fotografias que então fez apresenta-se já praticamente nua. Foi fácil despir-se?

Ainda na Hungria fui seleccionada pela maior agência de modelos fotográficos, a MIT. Fiz anúncios a batons, sapatos, vestuário, artigos para o lar e, claro, também fiz nus. Para mim, foi um grande prazer fazer fotos nua.

Porquê ‘Cicciolina’ (‘rechonchudinha’)?

Em 1976 fiz um programa na Rádio Luna [‘Voulez-vous coucher avec moi?’]. Eu era a voz sexy que chamava ‘cicciolini’ a todos os que ligavam e então fiquei oficialmente ‘cicciolina’.

Na sua carreira de diva porno, o que é que lhe custou mais fazer? E do que gostou mais?

Eu fiz cerca de 12 filmes pornográficos por causa do cachet – 250 mil euros por quatro dias de gravação. Trabalhei com as maiores estrelas, como John Holmes, que já morreu. Às vezes gostava de fazer os filmes e outras nem por isso, mas nunca me arrependi de ter sido a diva porno melhor paga do Mundo.

A Cicciolina torna-se conhecida do público em geral, e não apenas do que aprecia pornografia, por mostrar as maminhas em público. O que é que esse gesto significava para si?

Eu tornei-me conhecida em 1986, quando fiz campanha eleitoral pelo Partido Radical e fui eleita, com 20 mil votos, para o Parlamento italiano. Foi a partir daí que comecei a ser solicitada para entrevistas e programas de televisão em todo o Mundo.

Tem recordação de mostrar as maminhas nas escadas do Parlamento português?

Claro que sim! Lembro-me de visitar o Parlamento e tenho ideia do momento em que mostrei a maminha esquerda. É verdade que infringi as regras...

E do espectáculo no Coliseu de Lisboa? Sabia que esse espectáculo faz parte de uma certa mitologia masculina em Portugal?

Foi um espectáculo fantástico. Lembro--me bem. No público havia imensas mães com filhos nos braços, raparigas, pessoas de todas as idades... Foi muito agradável.

É verdade que fez sexo ao vivo com um elemento do público? E que brincou com uma cobra?

Foi quando tornei a minha cobra ‘Pito Pito’ conhecida. O número com a cobra era uma parte do espectáculo, ‘Pito Pito’ aparecia quando eu cantava uma canção. Não é verdade que tenha feito sexo ao vivo com alguém do público.

Qual é a sua opinião sobre os portugueses?

Os homens portugueses são fantásticos e o povo português é muito amistoso.

É verdade que ensinou tudo sobre sexo ao filho do Xá da Pérsia?

Ah... tem de ler o meu livro ‘For Love and Power’, que foi lançado na Itália em 2008 pela Mondadori, será este ano editado na Hungria... Já é tempo de chegar a Portugal. [Naquela obra, Cicciolina conta que, uma vez, estando em Las Vegas na companhia da actriz porno Moana Pozzi, foram ambas contratadas por dois homens com traços asiáticos para um trabalho especial: ir ao Irão iniciar o filho do rei no amor].

Ilona obtém satisfação sexual na sua vida privada? Ou a libido e o poder sexual de Cicciolina afecta, de alguma maneira, a forma como Ilona vive o sexo?

Eu tenho uma vida sexual muito activa, mas gosto de fazer sexo com a pessoa certa e com amor.

Jeff Koons deu o título ‘Made in Heaven’ (‘Feito no Céu’) a um dos trabalhos em que surge Cicciolina, mas acabaram por divorciar-se. O que aconteceu?

O meu casamento com Jeff Koons foi muito turbulento e por isso divorciei--me dele dois anos e meio depois. Só lamento que ele se tenha tornado famoso na Europa e não pague pensão à ex--mulher nem ao filho de 16 anos, Ludwig. Entretanto comprou uma casa de 20 milhões de dólares em Nova Iorque. Há cinco anos que não vem visitar o filho a Roma. Limita-se a enviar cinco mil dólares de presente no Natal.

Sente ter ajudado Koons a tornar-se célebre e rico?

Koons enriqueceu e tornou-se popular com a primeira foto de ‘Made in Heaven’, em que aparecíamos os dois nus e a ter relações sexuais. Ele ficou com o dinheiro e eu não tive se não mágoas durante 16 anos.

Cicciolina é também a mãe que durante anos lutou nos tribunais pelo seu filho. Ludwig tem conhecimento da sua carreira como actriz porno?

Eu lutei pelo meu filho e morreria por ele. Ludwig é um rapaz inteligente, sabe o que eu fiz no passado e não dá muita importância ao assunto.

Sente que foi amada pelos homens?

Eu fui usada pelos homens em quem confiei. Usada! Estou à procura do homem ideal. Espero encontrá-lo.

Qual é a sua opinião sobre Berlusconi, que recentemente disse não poder proteger as italianas das violações porque são muito bonitas?

No momento não falo sobre política.

Há alguma coisa que gostava de não ter feito? Arrepende-se?

Não e há decerto muitos outros projectos no futuro – como a colaboração com o fotógrafo Gianfranco Salis, que fez a capa do meu livro.

Pondera dedicar-se de novo à pornografia?

Não. É impossível.

Como tem sido envelhecer? Recorreu à cirurgia plástica?

Sou muito jovem de alma e coração. Para cuidar do físico faço ginástica, natação e kung fu.

O que espera estar a fazer daqui a 20 anos?

Vivemos num Mundo com imensas guerras e sofrimento, solidão e armas, drogas, violência... Eu quero ajudar as crianças pobres em África. Adoptei uma à distância. Gostava de viver num Mundo sem guerra, com paz na Palestina, e de ver as pessoas pobres a rir... Quero trazer paz e amor ao Mundo.

A vida desta mulher

O nome dela é Anna Ilona Staller mas todos a conhecem como Cicciolina. Tornou-se modelo aos 13 anos, ainda na Hungria, quando viu a mãe chorar porque não tinha dinheiro para comprar comida. É italiana através do casamento. Mesmo se, não esconde, gosta de sexo, os filmes pornográficos fê-los porque lhe pagavam 250 mil euros por quatro dias de rodagem. Foi a mais bem paga diva porno do seu tempo. Esteve pela primeira vez em Portugal em 1987 e a mitologia erótica masculina nunca mais foi a mesma, embora ela garanta não ser verdade que fez sexo ao vivo com um elemento do público. Meteu-se na política. Foi candidata pelo Partido do Amor e eleita deputada nas listas do Partido Radical. Aos 57 anos, e retirada há muito da pornografia, mantém o visual kitsch que continua a combinar com o arrojo. Tem um filho com 16 anos, fruto da relação com o artista contemporâneo Jeff Koons.

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