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Futebol de Salão

Esta semana, a Zero em Comportamento desafiou o bom da fita a apresentar um filme iraniano na I Mostra Internacional de Cinema de Portimão. Recrie-se, então, esse convite, tal como o realizador Jafar Panahi re-cria a realidade, colocando-se depois no ponto de vista da Testemunha e filmando como num documentário.
Joana Amaral Dias 9 de Novembro de 2008 às 00:00
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Este cineasta costuma focar as actividades frenéticas urbanas em espaços exíguos. E ‘Offside’ (2006) não é excepção. Abre num autocarro apinhado e (quase) termina noutro, girando à volta de fãs de futebol. Mulheres que, por serem iranianas, estão limitadas e impedidas de assistirem aos jogos. Neste caso, ao apuramento para o mundial.

Por isso, tentam esgueirar-se para as bancadas, mascaradas de rapazes. Algumas são detidas, barricadas contra o exterior do estádio e guardadas por soldados. É nesse espaço também acanhado que dialogam socraticamente sobre políticas de género e tácticas 4-4-2. Trocas que revelam as fraquezas do sistema através de perguntas-armadilha que as Fanáticas (de futebol) colocam aos Servidores do Fanatismo (religioso/político), confusos quanto às regras que os separam mas que os juntam numa situação tão peculiar. Um deles acaba mesmo por ser driblado por uma das prisioneiras nos WC masculinos (os únicos existentes). E o filme humoriza esses absurdos. Não é maniqueísta e demonstra que os oprimidos são as maiores vítimas. Mas não as únicas.

Assim, quase nunca se vê o jogo, respeitando esse olhar feminino forçado. ‘Offside’ é ainda um filme sobre aquilo que não pode ser visto. Escuta-se, mas não se vê o espectáculo como se, também ele, tivesse uma burka. O título remete para a transgressão, tal como a cometida pelas mulheres e pelo cineasta, censurado no Irão e impedido de entrar nos EUA. Mas, no fora-de-jogo, repara-se melhor nos detalhes. Por exemplo, que o Irão só precisa de empatar. Ou seja, para ganhar basta que seja igual ao seu adversário.

Mas essa equidade só acontece quando soldados e adolescentes saem do estádio num autocarro. Aí, são todos iguais e não diferem muito de quaisquer outros fãs. Aí, podem deixar o espaço claustrofóbico e irem para a rua celebrar com a multidão. Serem livres, cantando loas ao Irão. Mas não ao seu governo. Lá fora, são todos iguais, unidos pelo nacionalismo. Já que o gosto partilhado pela bola não chega, será esse o ingrediente desnecessariamente necessário?

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