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Futebol não é só para os meninos

Andreia Norton entrou para a história do futebol português ao marcar o golo que permitiu o apuramento para o Euro 2017
Marta Martins Silva 30 de Outubro de 2016 às 15:00
Andreia Norton no final do jogo contra a Roménia
Andreia Norton no final do jogo contra a Roménia FOTO: Diogo Pinto

Até fazer 13 anos foi a única rapariga a jogar entre rapazes, o que não lhe metia medo nem fazia mossa. Nem a ela, nem a eles. "Os rapazes gostavam de a ter na equipa porque ela garantia as vitórias e o que eles queriam era ganhar, tanto que ela jogava melhor do que eles e eles respeitavam-na por isso. E tinham de ser cavalheiros, ficavam cá fora à espera de que a Andreia se equipasse para poderem entrar nos balneários", recorda Augusto ‘Barbas’, o primeiro treinador da autora do golo de terça-feira frente à Roménia que ficará na história do futebol feminino português.

Andreia Alexandra Norton, nascida em Ovar há 20 anos, é o novo fenómeno português num ano em que a bola já garantiu alegrias de sobra aos portugueses, embora, como se sabe, as alegrias nos relvados nunca sejam demais para quem vibra com o desporto rei. Além de que para a Seleção feminina é um feito de peso: qualifica-se pela primeira vez para a fase final de uma grande competição, o Europeu de 2017, que vai realizar-se na Holanda.

GENES DA BOLA
A família percebeu cedo que, mais do que as bonecas e demais brinquedos, eram as bolas a colorir-lhe o sorriso gaiato, por isso ninguém estranhou quando começou a mostrar em público os dotes para a arte. "Antes de ir para o Clube Desportivo do Furadouro jogar nos infantis era na rua que jogava, com os primos e os vizinhos que aparecessem. Andava sempre com uma bola debaixo da cova do braço, quem a visse na rua era sempre com uma bola", lembra o primeiro treinador – que tinha em campo dez rapazes... e Andreia. "Ela ia sozinha para os treinos, para os jogos fora é que ia sempre com uma prima e uns tios, que a acompanhavam."

Fruto de uma paixão entre uma vareira e um futebolista brasileiro que jogou três épocas em Portugal – e que voltou para o país irmão sem saber que ela existia –, viveu com a avó durante a infância e a adolescência, recorda-se Augusto ‘Barbas’. A influência dos genes pode explicar parte do talento para a bola, porque ‘Pingo’ (como é conhecido Valdecir Ribeiro da Silva), de 43 anos, sempre fez da bola a sua profissão, primeiro como jogador (em clubes como o Flamengo, o Estrela do Norte, o Duque de Caxias e o Fluminense de Feira) e mais tarde como treinador. "É uma honra ter essa filha", diz à ‘Domingo’, via redes sociais, o homem que "só recentemente veio conhecê-la e reconhecê-la como tal".

Aos 13 anos, Andreia teve de abandonar a equipa ‘mista’ do Furadouro – não era possível jogar mais nestes moldes, tinha de passar para o escalão seguinte e isso só poderia acontecer numa equipa feminina – e consegue lugar no Oliveirense, em Oliveira de Azeméis, a 30 minutos de casa. "Mesmo com as dificuldades de transporte, ela sempre tentou encontrar uma solução para poder estar nos treinos e nunca faltava. Conseguimos entre pais de outras jogadoras ir levá-la e buscá-la a casa. A família dela não podia fazê-lo, mas isso não a fez desistir, ainda lhe deu mais força", conta Miguel Tavares, diretor do clube. "Foi um jogador do Oliveirense, que sabia da qualidade dela, que a trouxe para treinar e a Andreia aqui ficou, até sermos obrigados a desistir da equipa feminina – o nosso campo não tinha os limites que a federação exigia. Destacava-se claramente das outras jogadoras, que tinham mais cinco, dez, quinze anos do que ela – a guarda-redes tinha quarenta. Tinha uma paixão pelo futebol como poucas pessoas", acrescenta.

Tentámos falar com Andreia sobre esta paixão (e demais ‘pormaiores’ do currículo) mas o clube que atualmente representa – o SC Braga – só a autoriza a dar entrevistas a partir de amanhã. "Temos no domingo [hoje, às 15h00] um jogo contra o Sporting e queremos que ela esteja totalmente focada nisso. Temos muito orgulho do que ela conseguiu pela Seleção mas já lhe dissemos: ‘o tempo dos festejos já terminou e é altura de mudar o chip, de olhar para a frente’, de continuar", partilha João Marques, o treinador das ‘Guerreiras do Minho’.

"A Andreia vinha de um ano muito complicado no Barcelona, teve muitas lesões e foi operada três vezes. Foi um risco mas acho que tem tudo para correr bem. A qualidade em campo nasceu com ela. É imprevisível. De um momento para o outro pode criar uma situação de golo, uma situação de finalização para a colega... Quando a Andreia entra em campo nunca sabemos o que pode acontecer", acrescenta o atual ‘mister’, que no primeiro treino depois do jogo da Seleção lhe disse: "Da história do futebol já ninguém te pode tirar". Andreia sorriu-lhe, orgulhosa, mas sem perder a humildade que, dizem todos os que a treinaram, a caracteriza. E razões não lhe faltavam para a imodéstia, ela que aos 18 anos foi eleita melhor jogadora do campeonato nacional feminino pela segunda vez consecutiva. "É uma ponta de lança que se destaca pelo seu jogo de costas para a baliza e que pode jogar em qualquer posição do ataque", definiu-a o site oficial do clube catalão na altura da contratação.

MESSI E NEYMAR
"Quando me ligaram do Barcelona pensei que era uma brincadeira", reagiu ela. Saltou do Clube Albergaria para a Catalunha e cruzou-se com Messi e Neymar, embora o seu grande ídolo seja mesmo o português Cristiano Ronaldo. "É perseverante e lutadora e não desarma perante as adversidades. Os grandes defeitos são mesmo a organização, o telefone desligado e um pouco aérea", brinca Paulo Alex, que a treinou três épocas no Oliveirense e outras tantas no Cesarense e hoje gere a carreira de Andreia e as redes sociais da jogadora.

"Houve uma altura em que falei sobre ela com um observador que fazia trabalhos para o Benfica, mas ele queria era rapazes. Eu disse-lhe: ‘Aquela miúda um dia vai jogar na Seleção’", conta o primeiro treinador, que não mais deixou de acompanhar a carreira da menina dos caracóis.

No Facebook que Andreia Norton partilha com o namorado, este dedicou-lhe na quarta-feira passada – no dia da chegada da Seleção a Portugal – uma música [Grupo Revelação - ‘Tá Escrito’] que certamente lhe dirá muito, ela que nunca deixou de acreditar. "Às vezes a felicidade demora a chegar/ Aí é que a gente não pode deixar de sonhar/ Guerreiro não foge da luta, não pode correr/ Ninguém vai poder atrasar quem nasceu p’ra vencer."
Futebol Futebol Feminino Andreia Norton Sporting de Braga Seleção Euro 2017
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