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“Fuzileiro uma vez, fuzileiro para sempre!”

Estive 94 meses em campanha, em Angola, Guiné e Moçambique. Fui ferido por estilhaços de morteiro. Vinte dias depois voltei ao activo
28 de Novembro de 2010 às 00:00
A passar revista às tropas na festa do Rei dos Mares, enquanto passaram a linha do Equador, a bordo do navio ‘Vera Cruz’, a caminho de Moçambique
A passar revista às tropas na festa do Rei dos Mares, enquanto passaram a linha do Equador, a bordo do navio ‘Vera Cruz’, a caminho de Moçambique FOTO: Direitos reservados

Entrei para a Armada em 26 de Março de 1960. Depois de ter frequentado o curso de Manobra a bordo do navio-escola ‘Sagres’, fui como voluntário para o 2º Curso de Fuzileiros Especiais, que terminei em Setembro de 1961. Em Novembro desse ano iniciei a minha primeira comissão – Angola. Integrei o 1º Destacamento de Fuzileiros Especiais. Ficámos acantonados em Santo António do Zaire, no Norte do país.

Num fim de tarde, no enclave de Cabinda, enquanto patrulhávamos o rio Chiluango, na fronteira com o Congo, tivemos uma avaria no motor da lancha. Ficamos à deriva. Aquela era uma zona de contenção, o simples exibir de armas era o suficiente para o ataque do inimigo. Com sete homens apenas, não tivemos outra hipótese – ficámos na lancha sem desembarcar. Nove horas depois fomos resgatados por um pelotão do Exército Português de nativos.

FERIDO

Em Julho de 1963 regressei à Metrópole. Em Fevereiro do ano seguinte fui mobilizado para a Guiné integrando o Destacamento Nº 9 de Fuzileiros Especiais. Foi então que senti o peso da guerra. Das 43 operações em que participei, só em duas estive longe do inimigo. Numa delas fui ferido por estilhaços de morteiro e sujeito a intervenção cirúrgica para extracção de esti-lhaços no pescoço, no Hospital Militar de Bissau. Vinte dias depois voltei ao activo.

Em 1966 regressei a bordo da fragata ‘NRP Diogo Gome’s, depois de 24 meses de Comissão de Serviço. No mesmo ano frequentei o curso de Sargentos e em 1968 fui mobilizado para Moçambique, desta feita para a 4ª Companhia de Fuzileiros. Estive em Lourenço Marques 12 meses e outros doze no lago do Niassa. Em Lourenço Marques fazíamos a segurança das instalações da Marinha. No lago do Niassa chefiava uma patrulha de 26 homens. Fazíamos a segurança de toda a Base Naval de Metangula. Numa dessas tivemos de madrugada um frente-a-frente para o qual não tínhamos sido preparados – em vez do inimigo, dois leões.

Regressei em 1970, depois de mais 24 meses de comissão, a bordo do navio ‘Vera Cruz’. Em 1972 voltei a Moçambique. Em Nampula fiz uma comissão de oito meses, como chefe de secção dos Fuzileiros. Fazíamos segurança às instalações do Estado Maior da Armada. Em Setembro de 1972 regressei à Base Naval de Metangula, no lago do Niassa, para mais uma comissão de 16 meses. Fazíamos a segurança da base até ao posto avançado de Cobue, onde se mantinha um destacamento de Fuzileiros Especiais e um pelotão da Companhia de Fuzileiros. Era desse posto que partiam operações e patrulhamentos de toda a zona Norte do lago até à fronteira com a Tanzânia e Malawi.

Em Janeiro de 1974 regressei definitivamente à Metrópole. Ao todo estive 94 meses em campanha, pelos quais recebi entre outras, a Cruz de Guer-ra, a Medalha de Mérito Militar e dois louvores individuais pelo desempenho em duas missões no lago do Niassa.

Depois de 32 anos de serviço efectivo, terminei a minha carreira militar. Passei à reserva em 1992 no posto de Sargento Mor Fuzileiro. Termino com um dos gritos dos Fuzileiros: "Fuzileiro uma vez, fuzileiro para sempre".

PERFIL

Nome: José Coelho Coisinhas

Comissão: Novembro de 1961 a Janeiro de 1974

Força: Fuzileiros

Actualidade: Mora em Moura. Tem 70 anos, é casado. Tem dois filhos e três netos

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