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Galegos de sucesso

É rapaz ainda novo. Na casa dos 50. Representa a quarta geração de imigrantes oriundos da Galiza instalados em território alfacinha. Bem feitas as contas, há mais de 150 anos que a família está em Lisboa. Mas Amâncio Ribeiro Dominguez foi nascer à terra, La Coñiza, também conhecida como Aldeiña, na província de Pontevedra.
3 de Fevereiro de 2008 às 00:00
Já o pai lá nascera, como o avô e o bisavô. “Acho que faziam um bocado questão disso” (que os filhos nascessem na Galiza). Teria uns sete anos quando o pai foi buscá-lo. “Faço parte da primeira geração que teve oportunidade de estudar. Mas quando saía das aulas, no Instituto Espanhol, seguia directamente para a carvoaria.
Lembro-me de usar uma daquelas capas de couro, com os livros e as sebentas, que, ao chegar, punha de parte para ir servir vinhos”. A ‘Carvoaria’ era também uma taberna, ainda hoje o é. Porém, manteve o nome que remete para a antiga função. Não lhe sabe ao certo a idade, mas terá “seguramente mais de cem anos”. É ainda mais antigo o primeiro estabelecimento da família em Lisboa.
Chamava-se André Ribeiro Gil o antepassado que, em meados do século XIX, saiu da Galiza natal fugindo à pobreza. Trabalhou uns anos a vender carvão e vinhos para os lados da Almirante Reis. Em 1860 fundava a Casa André, uma pequena loja, próxima ao Cais do Sodré, na qual se comercializavam vinhos. Mais tarde, haveria de servir refeições. Hoje tem a porta fechada, mas o bisneto de André ainda não rompeu o contrato de arrendamento do espaço.
“De vez em quando organizamos aqui almoços”. Um dia destes, há-de devolver o estaminé aos actuais proprietários. Sentimentalismos à parte, representa mais chatices que outra coisa. Na posse da família mantêm-se a velha taberna e a Adega dos Canários, “uma casa de petiscos”, ambas nas imediações. Foi já a geração seguinte que a abriu. “Eram três irmãos, e assim trabalhavam os três”. Mas nenhum ficava com o exclusivo. Todos os anos, o negócio ‘rodava’. E assim continuou, à medida que filhos e netos iam nascendo, crescendo e considerados aptos para servir ao balcão.
O que acontecia cedo, embora a situação financeira fosse melhorando sempre. “Era impossível descer na vida”, comenta o primo José, hoje responsável pela taberna. Os pais chegaram a dormir “em cima das sacas de carvão”. Amâncio e José não conheceram tal desconforto. Mas recordam a irritação que sentiam cada vez que tinham de vender petróleo a algum cliente, pelo cheiro que ficava entranhado nas mãos e não havia meio de os largar.
Amâncio herdou do sangue galego o ‘toque de Midas’. Muito cedo, habituou-se a guardar os dez tostões que os pais lhe davam para o eléctrico que poupava optando por ir na ‘penda’. As gratificações obtidas na labuta diária também eram cuidadosamente aplicadas em pequenos negócios próprios da idade e... da conjuntura: “Transaccionava moedas antigas, comprava tabaco de contrabando que depois vendia aos colegas...”. Mais tarde, já depois do 25 de Abril, chegou a ter uma casa de câmbios. Hoje os negócios são outros. O ‘segredo’ mantém-se. Comprar. Valorizar. Vender. Parece simples mas não é dado a todos. Sempre em sociedade, como faz questão de salientar, já foi dono do Hotel Internacional, do Bragança de Lisboa (“vendêmo-lo por uma fortuna!”), do Lis . É co-proprietário do AltoParque (estacionamento do Espaço Chiado) e do Bragança de Coimbra. Prepara-se para construir mais uma unidade hoteleira na Baixa Pombalina.
Possui também uma empresa no ramo imobiliário. “Gosto de comprar coisas velhas”, salienta. Que depois viram novas. E se tornam valiosas. Casas, prédios, palacetes. Uma das receitas para o sucesso consiste em perceber “o que está a dar”. Ou melhor, o que vai dar a seguir. Antecipar os ciclos da economia, neste caso, da imobiliária. Transformar condomínios residenciais em edifícios de escritórios e vice-versa.
JOSÉ ANTÓNIO GIL
Se há ‘mercados’ que não oscilam muito, um deles será o sector funerário. Que o diga José António Gil, herdeiro do negócio familiar iniciado pelo avô, António Castro Gil. Para comprar a agência, o patriarca, que começara como empregado, pedira dinheiro emprestado a “um galego de Vigo”. Mas “os juros eram muito altos”.
Então, o avô Gil recorreu a outro conterrâneo, o ilustre “Agapito Serra Fernandes, que emprestou a soma para pagar ao primeiro”. Não chegou a saldar a dívida para com o benemérito fundador do Bairro Estrela de Ouro. Tratava a morte por tu. Ela veio buscá-lo.
Foi a viúva, Rosa Gil Viegas, que pegou na funerária e a tocou para a frente. “A minha avó era uma mulher de armas. Tinha então quatro filhos pequenos, entre os cinco e os onze anos. O meu tio Gabino, o segundo, tinha nove e, à saída da escola, era o contabilista”. Ganharam fama no meio. Na hora da tristeza, os conterrâneos optavam pela Agência Gil.
Gabino Castro Gil, entretanto desaparecido, dedicou a sua vida à causa galega, entre a funerária, o trabalho na Regojo – cujos sócios eram da terra – e a Xuventude da Galiza. “Em 1991, a minha avó morreu. Tinha 90 anos. Larguei a Guérin, onde tinha trabalhado 25 anos”. José António não teve grande dificuldade para se adaptar à mudança de ramo. Afinal, desde pequeno que estava habituado aos rituais da morte.
O filho de Gabino, seu primo, tornou-se ‘alcalde’ de As Neves, Pontevedra, de onde a família é oriunda. Mantém-se sócio da funerária. Tal como a maior parte dos seus compatriotas, José António conhece bem a história da imigração galega em Lisboa. “Começaram a chegar depois do terramoto, para ajudar na reconstrução. Chegaram a ser 80 mil na altura da edificação do Aqueduto.
No início do século XX seriam uns 30 mil. Há que ver que isso representava quase um terço da população”. Trabalhavam nas carvoarias, nas casas de pasto, na restauração. É contudo o aguadeiro galego que ganha relevo no imaginário popular. Aguadeiros, carvoeiros, amoladores, conforme a região de proveniência, mas todos trabalhadores incansáveis. “E assim se fizeram fortunas”, conclui José António Gil. “Mas também”, prossegue, “como não haviam de enriquecer se trabalhavam vinte horas por dia”!
HENRIQUE GRANADEIRO
Uma herança que fizeram questão de passar de pais para filhos, mesmo depois de ultrapassada a barreira da sobrevivência. “Cheguei a trabalhar como um galego”! Quem fala assim é hoje presidente da Portugal Telecom. Henrique Granadeiro não é galego, mas era-o o seu avô materno, imigrante nas terras argilosas “da área compreendida entre Sousel e o Alandroal”.
Foi ali que o jovem Henrique cresceu, educado segundo a convicção galega – e também alentejana – de que era no trabalho que se faziam os homens. Para ele, o que realmente distingue a mentalidade vinda da Galiza é a crença “de que o caminho da libertação do homem é a aquisição do conhecimento”. Assim, “o investimento das famílias” era colocar os filhos na escola, apostar na obtenção do canudo. Granadeiro acredita que, sem isso, “a evolução natural” no seu percurso de vida teria sido tornar-se “tractorista”.
À aposta nos estudos, a educação galega mandava que se somasse uma iniciação precoce à dureza da labuta: “Quais férias?! Às vezes, só estava à espera que estas terminassem para largar o trabalho. Entre as ceifas e debulhas no Verão e a apanha da azeitona no Inverno, venha o diabo e escolha”, desabafa o presidente da PT.
Por esta altura, já Zé Galego, o avô, desaparecera. Dele guarda apenas uma imagem “nebulosa”, a lembrança da figura de “um ancião sentado numa cadeira com um ar patriarcal”. Tem ideia que se tratava de “um homem muito lutador”, uma opinião que estende a todo um povo, caracterizado, a seu ver, por uma “grande autonomia pessoal”. Nascido em 1929 em Santa Eulália das Neves, José Seoane Seoane tinha seis anos quando chegou a Lisboa. O pai e ambos os avôs já haviam imigrado para a capital portuguesa, assim como um bisavô. Trabalhavam “na indústria hoteleira”, na qual o descendente veio a manter-se, porém, a um outro nível. “Comecei sem nada”, relata, no escritório da sua imobiliária Ponto Certo, no Rossio. O edifício em que nos encontramos será, ultrapassadas as barreiras burocráticas, esventrado para que nele seja construído uma unidade hoteleira.
Apenas a fachada será mantida. Lá em baixo, mesmo ao lado, fica a Pastelaria Suíça, sua inquilina. O quarteirão inteiro pertence-lhe. A “passagem”, como lhe chama, “foi evolutiva”. “Estava na moda a construção. Comecei por comprar um terreno, depois uma urbanização grande em Vialonga. Depois uma urbanização na Parede”.
Seguiu-se-lhe o Hotel Berna, a co-propriedade do Metropolitan, o primeiro Olissipus, o segundo, o terceiro. Três edificados, três “em previsão”.Três são também os filhos que hão-de assegurar a continuidade da expansão familiar.
José Seoane começou a “lavar pratos com treze anos”. Assim continuou “até aos 19/20 anos”. Contudo, não se tratava de uma necessidade ditada pela pobreza: o pai já era proprietário, tal como o avô. O primeiro negócio da família foi uma mercearia, o ‘Celeiro do Intendente’.
Hoje desapareceu, assim como as tabernas que o avô possuiu no Cais do Sodré e na Bica. Passada uma geração, a evolução era evidente: o pai teve um restaurante, “A Flor do Alecrim”, “ali na Rua Nova do Carvalho”. José Seoane prosseguiu a escalada: foi proprietário da ‘Versailles’, na Av. da República.
Actualmente, já só trabalha em part-time. “Não sei estar parado”. Acorda cedo, toma o pequeno-almoço na Suíça. Todos os meses vai a Santa Eulália, onde tem “uma tia com quase cem anos”. A Xunta da Galiza outorgou-lhe a medalha de prata por serviços prestados à comunidade: “Temos que ajudar aquilo”.
SEOANE
O apelido Seoane é comum na Galiza. O empresário do imobiliário herdou-o de pai e de mãe. O seu primo Armindo também o ostenta e transmitiu-o à filha que trabalha consigo, nos escritórios do Gambrinus. Possui actualmente 50 % do luxuoso restaurante às Portas de Santo Antão.
Percorreu um longo caminho, de Santa Eulália, onde nasceu, até à elegante sala decorada por Sá Nogueira. Lembra-se bem dos primeiros anos passados na aldeia, onde havia que “cavar para colher o milho, ir buscar água às fontes e lenha aos montes”. O saneamento básico era precário: “Tomava-se banho de 15 em 15 dias”. O pai já vivia em Lisboa. Nas idas e vindas teve nove filhos.
“Qualquer pai podia reclamar um filho por ano”, explica. A vez de Armindo chegou aos 14 anos. Porém, veio “clandestino, como se tivesse nascido cá”. Aos 15 foi tratar dos documentos. “Andei um bocadinho na escola, no Limoeiro. A professora era uma senhora espectacular”. Mas cedo teve de abandonar os estudos e ceder o lugar ao próximo. A partir daí, foi sempre evoluindo na área da restauração. Trabalhou na Brasileira do Rossio, no Café Nicola e em vários hotéis da Linha.
Nos anos 50, a experiência valeu-lhe um convite do director da ‘Choupana’, em São João do Estoril. “Toda a clientela era de grande categoria. Iam lá o rei de Espanha, o de Itália... O pianista era o senhor Shegundo Gallarza. As famílias iam lá só para dançar”.
Em 1956, Armindo Seoane sai da Choupana para ir “abrir o Solmar”. Era “um grupo de rapazes” que tinham comprado “uma casa ao pé do Coliseu”. Galegos, todos. Distinguiam-se na restauração. Dominavam as Portas de Santo Antão, onde se movia a nata da sociedade lisboeta. À saída dos espectáculos nos teatros, artistas e espectadores iam cear. As cervejarias e marisqueiras enchiam-se então de gente até altas horas da madrugada.
O trabalho era duro. As noites curtas. Havia que estar na lota à chegada do peixe e do marisco para apanhar as melhores peças. Por essa altura, já Armindo deixara de ser empregado da Solmar. Atravessara a rua para se tornar sócio de três outros galegos no Gambrinus.
O maioritário chamava-se Claudino Sobral Portela. “Nem calcula a pessoa que era esse senhor. Conhecia o mundo da hotelaria como ninguém. Dizia: ‘Armindo, a carne do campo é vermelha. O peixe vai-se buscar a Sesimbra’”.
MANOLO VIDAL
Manolo Vidal conhece todos os restaurantes detidos por galegos. Esteve, aliás, na inauguração do Solmar em 1956. Embora já nascido em Lisboa, considera-se tão da terra quanto os seus antepassados. Foi no futebol que se distinguiu, vestindo a camisola às riscas do Sporting.
Mas paralelamente com o desporto – chegou a assumir a direcção desportiva do clube de Alvalade – manteve sempre o controlo sobre os negócios que herdou do pai e dos tios. Os antepassados não eram tão dotados para a bola mas jogavam em várias frentes: “O meu pai, que tinha estado primeiro no Brasil, deixou padarias”. Os tios tinham descoberto “a galinha dos ovos de ouro”: a embalagem.
“Pode parecer estranho, mas ninguém se tinha lembrado disto”. Os galegos eram muitas vezes moços de fretes. Trabalhavam nas mudanças, no transporte. Ora, não havia ninguém especializado em fabricar embalagens de madeira à medida das necessidades. Os familiares de Vidal montaram uma oficina na Rua dos Douradores. A arte ganhou um nome: caixotaria.
Enquanto jovem, Manolo Vidal cumpriu o desígnio galego. Não se quedava pelos relvados. Durante 16 anos foi empregado num armazém de papel. Só mais tarde foi assumindo os negócios da família na caixotaria, papelaria e embalagens. Ainda tem as padarias dos pais.
E, porque galego que é galego não deixa o empreendedorismo por mãos alheias, encetou novos caminhos: hoje tem também uma empresa de marketing e uma de vidros e cristais. Os filhos seguir-lhe-ão as pisadas.
CONSTANTINO COSTAL
Nem sempre é assim. José António Gil não sabe quem pegará na funerária quando um dia desaparecer. O amigo e conterrâneo Constantino Costal tem assegurada a continuidade da empresa que hoje é sua, a Rebel (andaimes e estruturas para a construção).
O filho e o sobrinho já trabalham consigo. Costal tem uma explicação para o facto de muitos galegos não encontrarem na descendência quem possa levar o barco a bom porto: “Tiveram sempre a preocupação de dar os canudos aos filhos e depois estes não têm capacidade para gerir os negócios”. Ele próprio não se inclui neste diagnóstico. Afinal, foi capaz de somar a instrução com o trabalho duro e acrescentar aos dois factores o faro para o sucesso.
“Comecei a trabalhar aos 11 anos”, relata. O pai, galego de Campo Covelo, imigrara aos 14 para o Brasil. “Eram os dificílimos anos 30 ”. Mais tarde, esteve na guerra de Espanha, foi preso por motivos políticos e, em 1941, casa na terra natal. À diferença de tantos outros galegos, veio para Lisboa com a mulher. “Habitualmente, o galego emigrava e a mulher ficava. Os meus pais vieram ambos. A minha mãe calibrava e o meu pai trabalhava”. Era descarregador no porto de Lisboa. “Até aos 73 anos, assim fez a sua vida”.
Os filhos, Constantino e Dolores, fizeram a escola comercial. O rapaz trabalhou com o pai nas descargas dos navios, foi jornalista no ‘O Século’ e na ‘Tribuna’. Entrou como paquete na empresa de que hoje detém a quase totalidade das acções. Hoje, a Rebel domina, não só os andaimes na construção civil, como tudo quanto é “estrutura amovível” para eventos em todo o país. “Montámos o primeiro palco do Rock in Rio, o Vilar de Mouros é nosso desde a primeira hora.”
O nicho de mercado dos espectáculos começou, como todos os negócios galegos, de forma modesta... com os primeiros comícios políticos após o 25 de Abril de 74. Foi bem sucedido, como grande parte dos seus conterrâneos. Nos negócios, já que, como diz brincando, no que toca ao jornalismo, as coisas não foram bem assim: “Todos os jornais onde trabalhei fecharam pouco tempo depois!”
FUNERÁRIA GALEGA
Os amigos costumam meter-se com ele, dizendo que se já quase não restam galegos em Lisboa “é porque ele os enterra a todos”. Fundada em 1873, a Agência Gil é a mais antiga do País. O avô de José António Gil entrou como empregado e comprou-a recorrendo ao empréstimo de “um galego de Vigo”. Mais tarde, pediu ajuda a Agapito Serra Fernandes para saldar a dívida.
MARCAS DO PASSADO
Da antiga carvoaria só restam hoje algumas marcas. Ao fundo, na sala escura, consegue vislumbrar-se a peneira do carvão (redonda) e as serras com que este era partido. Amâncio e José ainda se lembram de vender as “bolas”, uma alternativa ao carvão. Eram feitas de cinza ardente envolta em argila.
COSTAL: GRATO A TIO DE GIL
Para além do traba-lho na Rebel, Constantino Costal está ligado “há mais de trinta anos” aos corpos dirigentes da Xuventude da Galiza, de que é actualmente presidente da Assembleia Geral. Mas não esquece Gabino Castro Gil, tio do seu amigo José António, que foi para ele como “o irmão mais velho” que nunca teve e foi “o grande homem da Xuventude da Galiza”. Recorda que Gabino foi agraciado pela medalha de prata da Galiza.
O AVÔ GALEGO DE HENRIQUE GRANADEIRO
A herança galega já lhe chegou indirectamente por via do seu avô materno, que por terras alentejanas era conhecido como o ‘Zé Galego’. Na verdade, chamava-se José Fusco, apelido que manteve antes do ‘Granadeiro’ alentejano de seu pai. À diferença de tantos outros galegos, o avô não emigrara para a cidade. Optara antes por “uma região de minifúndios” seme-lhante àquela que deixara para trás, “fugindo à miséria”.
"A ÁGUA É DELES E NÓS VENDEMOS-LHA"
Os primeiros galegos em Lisboa eram carvoeiros, moços de fretes, empregados das casas de pasto, amoladores, conforme a aldeia de onde eram provenientes. Mas a figura mais conhecida é a do aguadeiro galego, carregando os pesados barris de madeira repletos de água, que apregoavam, entoando o vocábulo: ‘aúa’ e vendiam porta-a-porta. Esvaziado o recipiente, voltavam à bica e recomeçavam vezes sem conta. Com grande capacidade de trabalho e abnegação, não perdiam, contudo, o sentido de humor. Mandavam recados para casa: “Xosé, a terra é boa, a xente é tola: a água é deles e nós vendemos-lha!”
O GALEGO 'LAGARTO' E PORTUGUÊS
Todos o conhecem como o ‘homem do Sporting’ mas Manolo Vidal, de 77 anos, é, antes do mais, um homem de negócios. Dos seus familiares herdou padarias e caixotarias. Tem ainda uma papelaria, uma firma de vidros e cristais e uma empresa de marketing, a InExtremis. Nascido em Lisboa, considera-se tão galego quanto português.
O RESTAURANTE DAS PORTAS DE SANTO ANTÃO
“O meu avô tinha umas residências modestas junto à Casa dos Bicos e outra na Rua do Terreiro do Trigo”, recorda Armindo Seoane, hoje detentor de 50 % do conceituado restaurante Gambrinus. Contudo, nunca chegou a trabalhar nos estabelecimentos dos seus familiares. Foi sempre empregado até à entrada para o Gambrinus, já como associado. Quase meio século depois, os bastidores do restaurante não têm segredos para si. Conhece como ninguém cada prateleira da adega, das dispensas, dos frigoríficos que estão por trás da elegante sala da Rua das Portas de Santo Antão.
MANUEL BOULLOSA E A XUVENTUDE DA GALIZA
No salão nobre da Xuventude da Galiza estão pendurados os retratos de Manuel Cordo Boullosa e de sua mãe Leocádia. Foi o grande empresário de origem galega que ofereceu à associação, que comemora este ano o seu centenário, o magnífico palacete onde está instalada. Nascido em Lisboa, em 1905, Manuel Boullosa perdeu a mãe com apenas um ano de idade, pelo que o pai o enviou para Caritel, de onde era oriundo, para ser cuidado por uma tia.
Aos nove anos, mandou-o buscar. Começou cedo a trabalhar no negócio do carvão do pai, mas adoeceu com tuberculose aos 18 anos. O pai enviou-o então para um sanatório na Suíça onde, consta, fez os primeiros conhecimentos que viriam a ser-lhe preciosos no seu trajecto ímpar. Terá sido também por essa altura que se apercebeu da importância do petróleo para o progresso económico.
Subiu a pulso e foi efectivamente no petróleo que se notabilizou, tendo reunido a segunda maior fortuna do País. Paralelamente, era um autodidacta e grande amante da cultura, tendo fundado as livrarias Difel e Bertrand. Parte da sua fortuna e dedicação foram para a sua Galiza, que lhe outorgou, postumamente, a Medalha de Ouro, distinção máxima da Xunta.
OS HERDEIROS DA SOLMAR
António Pedro e Luís são os filhos e herdeiros dos irmãos António e Manuel Paramés que, a 13 de Dezembro de 1956, fundaram a Solmar. A dinastia iniciou-se quatro gerações atrás. “O meu bisavô”, conta ‘Tó Pê’, como é conhecido, “tinha um negócio de ovos”. Mais tarde os avós tiveram carvoarias e os pais foram donos da primeira grande cervejaria de Lisboa, a Brilhante. O velho bisavó morreu de comoção ao agradecer à Virgem a compra do terceiro prédio.
A EXCEPÇÃO DOS PORTAS
Representam uma excepção na imigração galega para Lisboa. O bisavô de Catarina, Miguel e Paulo Portas era “um pequeno proprietário rural de Tomiño, na baixa Galiza, junto ao Rio Minho”, explica o arquitecto Nuno Portas, pai do trio. Não terá sido, pois, um caso de imigração por via da pobreza.
O patriarca investiu nuns “prédios modestos na zona do Bairro Alto”. 1898 é o ano inscrito sobre a porta de um deles, que a família ainda mantém na Rua das Taipas. Nesse ano nasceu Leopoldo Portas, pai de Nuno, o único de três irmãos a nascer em Lisboa, já que a família passava “metade do ano cá e a outra na Galiza”.
Leopoldo, que se distinguiu como brilhante aluno do Técnico, engenheiro de minas e mais tarde chegou a edil de Vila Viçosa, optou pela nacionalidade portuguesa à diferença das “tias espanholas”, que haviam nascido “na metade do ano galega”. O ‘clã’ Portas ainda conserva a casa dos antepassados em Tomiño.
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