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'GANGS': CRIMINALIDADE ORGANIZADA, SA

Contrabando, extorsão, tráfico de droga, prostituição ou lavagem de dinheiro são, para muitos, simples oportunidades de negócio. Ao redor de todo o mundo há organizações criminosas com sector de actividade, área geográfica delimitada, sindicatos e clientes cujos desejos é preciso satisfazer. Parece ser a vida normal. ‘Gangs de Nova Iorque’, de Martin Scorsese, é só a ponta do icebergue
7 de Março de 2003 às 16:18
No imaginário popular, moldado pelo cinema ao longo do séc. XX, os ‘gangs’ surgem como a expressão máxima da criminalidade organizada nos EUA, muitas das vezes identificados com as “máfias”. Trata-se, porém, de realidades diferentes, pois, sendo verdade que os ‘gangs’ são bandos de rua, com actuação violenta e negócios ilegais (geralmente droga), que se identificam por um traço comum e “ocupam” um território, a sua forma de organização encontra-se a uma enorme distância da sofisticação das “máfias”, entendidas como sinónimo de crime organizado. No essencial, este identifica-se com muitas das características das empresas legais. Ou seja, é orientado para o lucro, só que obtido por meios ilegais.

O crime organizado nos EUA encontra as suas raízes no séc. XIX, quando bandos de jovens, terminada a guerra civil, e em vez de regressarem às ocupações habituais, se organizam em ‘gangs’ armados, levando a cabo actividades criminosas em cidades como Nova Iorque ou Filadélfia. Mas um outro fenómeno viria a sobrepor-se a este: a imigração em massa. Vagas de imigrantes pobres, oriundos da Europa, vão chegar aos Estados Unidos e, face às dificuldades de integração numa nova sociedade, agravadas pela falta de conhecimento da língua, irão reforçar os laços de união étnicos.

Desconhecedores das leis e desconfiados face às autoridades locais, que muitas vezes os brutalizam e exploram, tornam-se alvo de bandos de “protectores”, dos quais se notabilizam os de origem siciliana, que viriam a dar origem à Máfia. Mas é também nesta cidade que as rivalidades entre italianos e irlandeses irão agudizar-se, ao ponto de estes últimos criarem a Mão Branca, uma organização rival que irá lutar pelo domínio dos negócios escuros, principalmente na zona dos cais, ponto fulcral para o controle do contrabando. É esta época que Martin Scorsese romantiza em “Gangs de Nova Iorque”, que acaba de estrear.

EUA: DE ROTHSTEIN A AL CAPONE

O início do séc. XX assistirá às primeiras tentativas de unificação das organizações criminosas italianas inspiradas na Máfia (ou La Cosa Nostra) siciliana. Mas o estabelecimento, a partir de 1920, da proibição de fabrico e venda de álcool nos EUA, vem constituir a maior oportunidade de negócio que o crime organizado podia imaginar. Milhões de clientes sequiosos, por todo o país estavam dispostos a pagar o que lhes pedissem por uma garrafa.

Um dos primeiros criminosos a compreender o alcance do negócio que se anunciava, foi Arnold Roths-tein, um judeu nova-iorquino, sob a direcção do qual se revelaram criminosos tão famosos como Charlie Luciano ou Meyer Lansky. Na Costa Leste, sob a batuta de Rothstein, italianos, irlandeses e judeus partilhavam um negócio que parecia não ter fim. Mais a Oeste, em Chicago, italianos e irlandeses continuaram, ao longo dos anos vinte, a lutar pelo domínio do submundo do crime. É a década de afirmação do poder de Al Capone, cujos pistoleiros, disfarçados de polícias, abatem em 1929 cinco membros do grupo de Bugs Moran, naquilo que ficou conhecido como o Massacre de S. Valentim.

Esse é o ano em que Salvatore Lucania, conhecido por Lucky Luciano, se torna patrão dos patrões vindo a organizar mais tarde o Sindicato, uma confederação nacional de grupos criminosos, no topo da qual se encontravam as “cinco famílias” mafiosas de Nova Iorque. O fim da Lei Seca, em 1933, levou o Sindicato a orientar-se para outros negócios – jogo, narcóticos, organizações sindicais e prostituição. Ao mesmo tempo, o ramo dos assassinatos autonomizava-se com a criação de uma empresa especializada, a Murder, Inc. cujos pistoleiros actuavam ao tiro e à bomba.

ITÁLIA: COSA NOSTRA E CAMORRA

La Cosa Nostra teve origem na Sicília durante a Idade Média, como uma reacção de defesa das populações face ao poder político exercido por governantes distantes, por vezes estrangeiros. Constituíram-se grupos armados que, com o tempo, se foram tornando em instrumento de poder nas mãos dos proprietários rurais, impondo a sua lei às populações subordinadas. De base rural até à II Guerra Mundial, a máfia ganhou então estatuto e importância ao colaborar com as forças americanas na invasão aliada, aproveitando, em seguida, o vazio de poder criado com a queda do fascismo. Domina, hoje em dia, grande parte da actividade económica da ilha e estende o seu poder ao tráfico de droga e lavagem de dinheiro a nível mundial.

Mas em Itália existem ainda, pelo menos, mais três organizações de carácter mafioso. A Camorra actua principalmente na região de Nápoles e tem como actividades principais o tráfico de drogas, as extorsões, o contrabando de tabaco, as lotarias clandestinas e a participação em obras públicas. A Ndrangheta, da região da Calábria, é menos sofisticada e dedica-se principalmente a raptos e extorsões. A Sacra Corona Unita, a mais pequena de todas, actua em torno da cidade de Bari, na região da Apúlia, e dedica-se ao contrabando de tabaco, às extorsões, ao jogo e às fraudes com fundos comunitários.

RÚSSIA: AS MÁFIAS EMERGENTES

O crime organizado na Rússia despontou ainda durante o regime comunista, a partir dos anos sessenta, na era de Brezhnev, dedicando-se sobretudo ao mercado negro de produtos de luxo. O colapso do comunismo, em 1991, com a consequente perda de poder do Estado e entrada do país numa incipiente economia de mercado, possibilitou o rápido desenvolvimento das vulgarmente chamadas “máfias russas”, as quais, com os seus estimados três milhões de membros, controlam quase todos os ramos da actividade económica, não hesitando em assassinar os que lhe fazem frente, de banqueiros a polícias, de políticos a jornalistas.

Presentes nos negócios legítimos – calcula-se que controlem cerca de 60 por cento das companhias estatais – realizam tráficos de todo o tipo, desde armas a drogas e mesmo armamento nuclear, passando por mulheres para a prostituição e produtos falsificados, estendendo hoje em dia os seus “negócios” a três dezenas de países. Israel é um território particularmente fértil para a sua actuação, nomeadamente através da Organizatsiya, que nos tempos da União Soviética criou um intercâmbio com o Chipre e ainda hoje permite a lavagem de milhões de dólares, através de empresas fantasma.

CHINA: 14K E OUTRAS TRÍADES

O crime organizado na China é dominado pelas Tríades, sociedades secretas com uma história de centenas de anos, nem todas necessariamente ligadas à actividade criminosa. Na sua origem esteve a luta entre dinastias no Império Chinês. Com os tempos, algumas Tríades foram-se transformando em associações de artes marciais ou, mais prosaicamente, em associações laborais e/ou comerciais. A notoriedade adquirida no campo das actividades criminosas levou à sua ilegalização, em 1944, na cidade de Hong Kong, considerada a capital das Tríades, onde continuam a operar dezenas de milhares de membros das 15 associações activas, das quais a mais conhecida é a 14K.

A actividade das tríades estende-se a toda a China, incluindo Taiwan, Sueste Asiático, Europa e América do Norte. Com uma organização menos rígida do que a da Máfia, permitindo um maior poder de iniciativa dos criminosos na base, as Tríades focalizam a sua actividade no tráfico de drogas, principalmente heroína, sem no entanto desprezarem a usura, a extorsão, o jogo ilegal, a prostituição e a emigração ilegal, para além de actividades legais como a hotelaria, a restauração, os casinos e o imobiliário.

JAPÃO: A YAKUSA

A “máfia” japonesa, ou Yakusa, teve as suas origens no séc. XIV, quando bandos de marginalizados pela sociedade feudal se agruparam para protecção e entreajuda. O nome deriva de um antigo jogo de cartas em que o objectivo era alcançar uma mão de 19 pontos. Como as cartas 8 (ya), 9 (ku) e 3 (sa) totalizavam 20, não valendo nada (o jogador ‘rebetava’), daí nasceu o nome adoptado por estes marginais. O número dos seus membros ascende actualmente a pelo menos 60.000, organizados em gumi, ou famílias, em que os seguidores (kobun) são chefiados por um líder (oyaban), num tipo de hierarquia semelhante a outras organizações criminosas. Controlam grande parte da indústria do sexo, da usura, do jogo e do negócio de “protecção”.

Apesar de terem sido referenciadas operações da Yakusa na Costa Oeste dos EUA, no Havai, em Hong Kong, Banguecoque e Seul, o essencial da organização permanece no Japão, ao abrigo de legislação que só permite que sejam presos os criminosos apanhados em flagrante delito. Os seguidores da Yakusa identificam-se pelas tatuagens que exibem por todo o corpo e pelo facto de muitos terem um dedo mindinho amputado, como castigo por uma acção mal realizada.

AMÉRICA DO SUL: DOS CARTÉIS AOS COMANDOS DE FERNANDINHO

O crime organizado no Brasil, tal como se apresenta actualmente, começou a ser estruturado na década de sessenta, quando a ditadura militar juntou nas penitenciárias os presos políticos – intelectuais e guerrilheiros – com os criminosos comuns. Estes aproveitaram a ocasião para adquirir conhecimentos, não só sobre o poder que poderiam obter junto da população desfavorecida, mas também para se aperfeiçoarem em tácticas de guerrilha urbana, que lhes permitem levar a melhor sobre as forças policiais.

Seguindo a táctica maoísta, segundo a qual “o guerrilheiro deve estar para a população como o peixe para a água”, os principais grupos de criminosos – o Primeiro Comando da Capital, o Comando Vermelho ou o seu dissidente Terceiro Comando – aproveitaram o vazio deixado pelos poderes públicos relativamente à população mais pobre, passando a controlar os habitantes das favelas, onde estabelecem as suas próprias leis e levam a cabo “julgamentos” em que os castigos podem chegar à mutilação ou à execução.

A mais importante destas organizações, o Comando Vermelho, dirigido a partir da prisão pelo famoso “Fernandinho Beira-Mar” e por mais cerca de 30 chefões, por duas vezes mostrou, nos últimos tempos, capacidade para paralisar quase totalmente o Rio de Janeiro, ao mesmo tempo que estende a sua mão até São Paulo. Aos lucros do tráfico da cocaína, adquirida na Colômbia aos cartéis de Cali e de Medellin, junta os do “jogo do bicho”, de raptos, extorsão e assaltos a casas, bancos e carros blindados. A sofisticação – e impunidade – desta organização é tal que lhe permite manter um “sistema de previdência”, pagando mensalmente a pensão das viúvas e das mulheres dos membros do bando mortos ou presos, ao mesmo tempo que não descura o “marketing”, mandando imprimir bonés, camisolas e cartões com a sigla CV para os seus traficantes.

COLÔMBIA: OS CARTÉIS DA DROGA

Virados quase exclusivamente para a produção e distribuição de cocaína, os principais cartéis colombianos – Cali e Medellín – aliaram-se a todas as principais organizações criminosas mundiais, da Ásia à América, operando também com recurso a empresas de fachada, cuja função é facilitar o tráfico ou assegurar a “lavagem” de dinheiro. O Departamento de Estado norte-americano identificou mais de trezentas dessas empresas, operando não só na Colômbia mas também noutros países, como a Espanha, onde actuavam nas áreas do imobiliário, dos serviços da Internet, da distribuição de filmes, das artes gráficas ou da importação e exportação de café.

Na Colômbia as empresas de fachada estão presentes não só em negócios semelhantes, mas também em laboratórios farmacêuticos, cosméticas, emissoras de rádio, companhias emissoras de cartões de crédito e, até, um clube de futebol profissional, o América de Cali.
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