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Gémeas marotas, paródias e pastiches

Personagens famosas em brincadeiras eróticas
João Pedro Ferreira 6 de Outubro de 2019 às 06:00

A ‘Odisseia’ foi parodiada no século II, ‘D. Quixote’ é uma paródia dos romances de cavalaria, os Monty Python parodiaram os Evangelhos. Obras literárias de sucesso deram sempre origem a paródias (imitações de um artista ou de uma obra de arte, exageradas para obter um efeito cómico) ou pastiches (o mesmo tipo de imitação ou colagem de géneros, sem ter necessariamente intenção cómica).

Ao contrário das falsificações, as paródias e os pastiches ‘piscam o olho’ ao leitor, evocando,  com ironia, o original. Muitas histórias infantis, filmes ou bandas desenhadas têm sido recriadas dessa forma. Por vezes, os autores (ou respetivos representantes) não gostam de ver as suas criações associadas a práticas que consideram ofensivas da sua imagem, alegam usurpação de direitos – e o litígio acaba em tribunal.

O caso do livro ‘As Gémeas Marotas’, apreendido pela ASAE numa biblioteca pública de Lisboa, é mais um. Trata-se de uma paródia erótica imitando o estilo do autor holandês Dick Bruna (1927-2017), criador da coelhinha Miffy.

A ficha técnica indica como autor das ilustrações "Brick Duna", sendo a versão       portuguesa       de       Maria       Barbosa.

Garante que é "publicado com a autorização de Een Kat in de Zak Kopen BV., Amsterdão", mas esse nome soa a brincadeira: é uma expressão idiomática holandesa equivalente a "comprar gato por lebre" em português. Não é a primeira vez que Miffy senta os seus parodiantes, de vários países, no banco dos réus. Já perdeu e já ganhou.

Do livro ‘As Gémeas Marotas’, trad. Maria Barbosa, impr. Multitipo

"A gina é irmã da gila,

a Gila é irmã da Gina.

A Gina gosta de pila,

a Gila prefere vagina.

 

Gina e Gila são gémeas

são as duas tal e qual.

Convidaram os amigos

para uma tarde especial.

 

Vão as duas para a banheira,

onde lavam as mamocas.

Lá por serem asseadas

são também duas badalhocas.

 

Vestem a sua roupa nova,

azul-claro, cor do céu.

Por debaixo dos vestidos

gostam de ter tudo ao léu.

 

Ao almoço, Gila come

mexilhão na cataplana.

A Gina, por outro lado,

fica-se por uma banana.

 

Eis que chegam os amigos:

o Ribeiro, a Vanessa,

a […], o Vladimiro,

e a paródia começa.

 

Todos ficam à vontade,

a Vanessa despe a blusa.

Gila olha e já se baba,

Vladimiro já tem tusa.

 

Uns em cima, outros em baixo,

toda a gente encontra par.

Gina e Gila só não sabem

por onde vão começar.

 

- Mete mais, mete mais!

Diz a […] ao Ribeiro.

- Não tenho mais, coelhinha!

Diz ele, dando ao traseiro.

A Gina ao ver o Ribeiro

fica toda ciumenta.

Separa-o da coelha,

dá um salto e nele se senta.

 

A Gila ao ver […],

sem cenoura, coitadinha,

salta-lhe logo pra cima:

- Vou comer-te coelhinha!

 

E tal é o frenesim,

tão animada é a festa,

que passada meia-hora,

toda a casa dorme a sesta.

 

É hora de ir embora,

toca a acordar e vestir.

A Vanessa, choraminga:

- Eu não me cheguei a vir…

 

As maninhas vão prá cama,

mas que marota parelha.

Gila ainda tem na boca

o sabor bom da coelha."

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