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Georges Bataille: deboche e bizarria surrealistas

Bibliotecário defendia a transgressão das normas sociais através de uma escrita provocatória e escatológica.
João Pedro Ferreira 9 de Junho de 2019 às 12:00
Georges Bataille

Georges Albert Maurice Victor Bataille (1897-1962) foi um romancista, poeta e ensaísta francês que desenvolveu uma filosofia – incluindo uma teoria económica – baseada no Surrealismo, com forte componente erótica, traduzida numa linguagem desbragada. Converteu-se ao catolicismo aos 17 anos, mas depressa rompeu com a religião.

Formado pela elitista École des Chartes, tornou-se bibliotecário do Departamento de Medalhas da Biblioteca Nacional de Paris, tendo escrito vários artigos académicos sobre numismática,  ao mesmo  tempo que aderiu ao Surrealismo e passou a dedicar-se à bebida e à frequência de bordéis, o que lhe valeu a alcunha de ‘filósofo debochado’.

Em 1928 publicou ‘História do Olho’ com o pseudónimo Lord Auch, sem indicação de editor – medida aconselhada pelo previsível escândalo e consequente reação censória, que se confirmaram. Depois da 2ª Guerra Mundial elaborou uma teoria crítica do consumo no livro ‘A Parte Maldita’ (1949).

Já doente, em 1956, apresentou-se em tribunal para testemunhar, na qualidade de "bibliotecário e filósofo", a favor do editor Jean-Jacques Pauvert no processo em que este respondia por ter publicado obras do Marquês de Sade.

Em 1957, Bataille publicou ‘O Erotismo’, ‘O Azul do Céu’ e ‘A Literatura e o Mal’. O seu último projeto literário foi uma revista sobre erotismo, que não chegou a ser lançada devido ao desentendimento com o editor.

Do livro ‘Histoire de l’Oeil’, trad. da ed. francesa de UGE, col. 10/18

"Tinha quase dezasseis anos quando conheci uma rapariga da minha idade, Simone, na praia de X. (…) Ela vestia um avental preto (...). As suas meias de seda preta subiam acima do joelho. Eu ainda não tinha conseguido vê-la até ao cu (esse nome, que eu sempre empregava com Simone, era para mim o mais belo entre os nomes do sexo). Imaginava apenas que, levantando o avental, veria o seu rabo nu. Havia no corredor um prato de leite para o gato.

— Os pratos foram feitos para nos sentarmos — disse Simone.

— Queres apostar que eu me sento no prato? — Aposto que não te atreves — respondi, ofegante. Estava calor. Simone colocou o prato num banquinho, instalou-se à minha frente e, sem se desviar dos meus olhos, sentou-se e mergulhou o rabo no leite. Por um momento fiquei imóvel, tremendo, o sangue subindo-me à cabeça, enquanto ela olhava para a minha verga a crescer dentro das cuecas. Deitei-me a seus pés. Ela não se mexia; pela primeira vez, vi a sua ‘carne rosa e negra’ banhada em leite branco. Permanecemos imóveis por muito tempo, ambos ruborizados. De repente, ela levantou-se: o leite escorreu-lhe pelas coxas até às meias. Limpou-se com um lenço, por cima da minha cabeça, com um pé no banquinho. Eu esfregava a verga, agitando-me no chão. Viemo-nos ao mesmo tempo, sem nos tocarmos. No entanto, quando a mãe dela voltou, sentando-me numa poltrona baixa, aproveitei um momento em que a menina se aninhou nos braços maternos: sem ser visto, levantei o avental e enfiei a mão entre as coxas quentes. Voltei para casa correndo, louco para bater outra punheta. No dia seguinte, acordei cheio de olheiras. Simone olhou-me   de   frente,   escondeu   a   cabeça contra o meu ombro e disse: ‘Não quero que voltes a bater punheta sem mim.’

(…)   Simone   ganhou   a   mania   de   partir ovos com o cu. Para isso, punha a cabeça no assento de uma poltrona, as costas coladas ao espaldar, pernas dobradas na minha direção enquanto eu batia punheta para me vir na cara dela. Só então eu punha o ovo por baixo do buraco: ela deliciava-se a agitá-lo na racha profunda. No momento em que a esporra jorrava, as nádegas partiam o ovo, ela vinha-se e eu, mergulhando a cara no cu dela, inundava-me com aquela langonha abundante.

(...) Simone, de pé entre Sir Edmond e eu — a sua excitação semelhante à minha —, recusou-se a sentar-se depois da ovação. Segurou a minha mão sem dizer palavra e conduziu-me a um pátio fora da arena onde imperava o cheiro a urina. Agarrei Simone pelo cu enquanto ela tirava a minha verga para fora, com   um   tesão   colérico.   Entrámos   assim numa casa de banho malcheirosa, onde moscas minúsculas maculavam um raio de sol. A jovem despiu-se e enfiei a minha verga rosada na sua carne peganhenta e cor de sangue; penetrou naquela caverna do amor enquanto eu lhe apalpava o ânus raivosamente: ao mesmo tempo, as revoltas das nossas bocas misturavam-se. O orgasmo do touro não é mais violento do que aquele que nos rasgou mutuamente, dando-nos cabo dos lombos, sem que o meu membro recuasse na vulva rebentada e afogada em langonha."

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O olho mais célebre
Luis Buñuel, companheiro surrealista de Bataille, leu com atenção ‘A História do Olho’ (1928), como se vê na cena   icónica   de   ‘Um   Cão Andaluz’ (1929).  

Ao lado de Cartier-Bresson
Georges Bataille (à direita) fez de seminarista, ao lado do fotógrafo Henri Cartier-Bresson (à esquerda), no filme   ‘Passeio ao Campo’, de Jean Renoir, em 1946.

Ilustrações do ‘Olho’
O pintor surrealista francês André Masson e o escultor alemão Hans Bellmer ilustraram com desenhos eróticos as primeiras edições de ‘A História do Olho’.

‘Simona’ Antonelli
Laura Antonelli, a diva das comédias eróticas italianas dos anos 70, foi a protagonista da versão de ‘A História do Olho’, realizada por Patrick Longchamps (1974).

Inspiração de Björk
O tema ‘Venus as a Boy’, da cantora islandesa Björk, admiradora de Bataille, é inspirado em ‘A História do Olho’, nomeadamente  o  uso  de ovos no videoclip.

Claudia Ohana
A  sensual  Claudia  Ohana (‘Rainha da   Sucata’,  ‘Fera Ferida’, ‘Vamp’) é Simone, a personagem principal de ‘A História do Olho’, na curta brasileira de 2013.

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