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GERAÇÃO FCP

De Norte a Sul do País, do Alentejo profundo às ilhas – as histórias de amor ao FC Porto acumulam-se e avolumam-se ao longo dos anos. Segundo um estudo recente, o clube têm já a segunda maior massa de adeptos a nível nacional (23,1%), ainda longe do Benfica (50,3%) mas já à frente do Sporting (22,5%)
18 de Maio de 2003 às 00:00
Para uns, é uma prova de força. “Do grupo de amigos com quem ia ao cinema ou ao café, quase todos eram anti-FC Porto. Há um ano, até casei com uma benfiquista. Mas nada disto fez esmorecer o meu fervor clubista. Bem pelo contrário: muitas vezes, conta tudo e contra todos, eu simbolizo a força do dragão!”, conta Paulo Luís Ribeiro, 32 anos, residente em Vila Real. Para outros, tudo se resume a uma questão de identidade. “Decidi ser portista aos dez anos. Não me lembro bem das razões, mas acho que foi para ser diferente. Lá em casa eram todos do Benfica, e eu quis ir contra a corrente”, diz Júlio Guerreiro, 28 anos, algarvio de Loulé. Para outros ainda, a lógica é a da vitória. “Nos Açores, é raro encontrar um portista. Toda a gente é do Benfica ou do Sporting e, ao longo da escola, eu era o único adepto do FC Porto nas turmas por onde passei. Mas, como os resultados falavam por si, tinha as discussões com os meus colegas facilitadas”, recorda Mário Mesquita, 22 anos, um natural da ilha Terceira agora a estudar em Coimbra.
De Norte a Sul do País, do Alentejo profundo às ilhas – as histórias de amor ao FC Porto acumulam-se e avolumam-se ao longo dos anos. De um clube deprimido e geograficamente limitado, após quase duas décadas sem títulos entre os anos 60 e 70, os azuis e brancos ganharam quase todos os troféus nos vinte anos seguintes e entram no novo milénio na lista dos melhores clubes do mundo. Hoje, segundo atesta um recente estudo comandado pelo sociólogo Jorge de Sá, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, têm já a segunda maior massa de adeptos a nível nacional (23,1%), ainda longe do Benfica (50,3%) mas já à frente do Sporting (22,5%). E, apesar de nos três últimos anos nenhum campeonato nacional ter rumado às Antas, a verdade é que se foi construindo uma equipa que, este ano, se habilita a ganhar tudo: Superliga, Taça UEFA, Taça de Portugal e Supertaça Cândido de Oliveira.
RENASCIDOS EM VIENA
Para muitos jovens entre os 20 e os 30 anos, o momento de optar em definitivo por um clube aconteceu em 1987, quando, em Viena, uma equipa comandada por Artur Jorge, e com Madjer, Fernando Gomes e Futre no plantel, conquistou a taça dos Campeões Europeus ao Bayern de Munique. “Ao longo de todos este anos, o momento que mais me marcou, enquanto adepto do FCP, foi a final da Taça dos Campeões. Nessa altura vivia no bairro da Musgueira, e os portistas que por lá havia saíram todos à rua. Foi festejar até às tantas da manhã”, diz Bruno Fernandes, lisboeta de 27 anos. “Desde que me lembro de mim que sou adepto do FC Porto. Mas talvez tenha sido por causa da vitória na Taça dos Campeões. Já nem me recordo bem do jogo, mas as emoções sentidas contagiaram-me logo. Percebi que era qualquer coisa especial, que o Porto era mais forte que os outros. E, apesar de o meu pai ser benfiquista ferrenho e de os meu avós serem sportinguistas, não tive problemas em degenerar a família”, conta Mário Mesquita.
Muitos destes jovens, de resto, têm a resistência às pressões familiares como a suprema prova do seu portismo. “Recordo-me dos tempos em que o meu avô me levava a ver os jogos do Benfica, na tentativa de mudar a minha opção”, acrescenta Bruno Fernandes, que é futebolista do Vilafranquense e irmão do jogador do Belenenses Neca – com quem, de resto, partilha a alcunha. “A minha mulher é sportinguista e a mulher do meu irmão também. Sei que é difícil encontrar lisboetas portistas, mas acho que eu sou a prova de que os poucos alfacinhas do FC Porto são bons”, diz. “Quando sofremos uma derrota, não saio de casa. E já estabeleci uma espécie de acordo de cavalheiros com os meus pais, ambos benfiquistas: não gozarmos uns com os outros quando as respectivas equipas perdem. Os meus amigos, aliás, também respeitam essa regra”, explica Júlio Guerreiro.
PINTO DA COSTA: O REI
Todos têm em Madjer, Fernando Gomes e Futre, assim como em Jaime Pacheco, António Sousa ou André, os seus ídolos de adolescência. Ao longo dos anos, porém, outro homem foi ganhando espaço como depositário das suas esperanças portistas: Pinto da Costa, o presidente que nunca muda, que já ganhou tudo, que já suportou todas as críticas, que já atacou todos os poderes. Porque ser do FC Porto, dizem, é resistir. “Constatei as injustiças de que o clube era alvo, a bravura com que superou a situação e a forma como isso se transformou numa bandeira. Nos meus 24 anos festejei doze títulos”, diz José Paulo Santos, jornalista de Vila Real. “Um dia, quando morrer, espero que o clube tenha mais títulos do que o Benfica”, acrescenta.
“Pinto da Costa é o timoneiro que idolatramos. É o nosso ‘Pintinho’, ou ‘Papa’, como o tratamos entre nós, muito embora eu pense que os adeptos mais novos se revejam mais na mística que o clube foi adquirindo do que no estilo do presidente, com quem muitas vezes não estamos de acordo”, explica Paulo Luís Ribeiro. “Adoro o Pinto da Costa. É das personalidades que mais admiro no País. Admiro a sua frontalidade e a sua postura. Já tive a oportunidade de o conhecer pessoalmente e ele não me desiludiu. É uma pessoa excepcional, cinco estrelas”, acrescenta Raquel Loureiro, modelo, apresentadora de TV e ex-cantora nascida em Tavira.
EM DIA DE JOGO, O CLIMA FICA PESADO
Júlio Miguel Guerreiro; 28 anos;
Estudante universitário; Loulé
“Não fui influenciado por ninguém para ser portista mas por vezes tento convencer uma criança ou outra a sê-lo. No entanto, não me sinto sozinho, até porque conheço muitos portistas no Algarve. Nos dias de jogo, o clima em casa torna-se pesado e, como levo as coisas muito a sério, assisto sozinho à transmissão. A festa portista deste ano, vivia-a normalmente. Não fiz nada de especial porque estou habituado a ganhar. Esta foi mais uma vitória. Mas fiquei muito feliz. Até agora, no entanto, só assisti a dois jogos no Estádio das Antas. Não posso assistir a mais porque o Porto é muito longe. Tenho alguns objectos alusivos ao clube, como medalhas comemorativas e um peluche. Também tenho um cachecol e uso um porta-chaves com o símbolo dos ‘dragões’.”
“Não fui influenciado por ninguém para ser portista mas por vezes tento convencer uma criança ou outra a sê-lo. No entanto, não me sinto sozinho, até porque conheço muitos portistas no Algarve. Nos dias de jogo, o clima em casa torna-se pesado e, como levo as coisas muito a sério, assisto sozinho à transmissão. A festa portista deste ano, vivia-a normalmente. Não fiz nada de especial porque estou habituado a ganhar. Esta foi mais uma vitória. Mas fiquei muito feliz. Até agora, no entanto, só assisti a dois jogos no Estádio das Antas. Não posso assistir a mais porque o Porto é muito longe. Tenho alguns objectos alusivos ao clube, como medalhas comemorativas e um peluche. Também tenho um cachecol e uso um porta-chaves com o símbolo dos ‘dragões’.”
É MAIS DO QUE UMA DOENÇA
Paulo Luís Ribeiro; 32 anos;
Metalúrgico; Vila Real
“Quando comecei a entender o futebol, principiava a dar frutos o reinado de Pinto da Costa. Em casa, a minha mãe é ferrenha e sofredora do Benfica, ao passo que duas irmãs são do Sporting. Para mim, no entanto, vencer tornou-se um hábito e era sempre com agrado que sentíamos o sofrimento dos nossos rivais com as nossas vitórias. Acredito numa vitória em Sevilha, tal a qualidade de futebol e objectividade que o plantel nos habituou esta temporada. Pelo FC Porto choro, rio, fico feliz ou triste. O FC Porto é algo mais do que uma doença: faz parte do mais íntimo do meu ser.”
SÓ TENHO PENA DE NÃO IR A SEVILHA
Raquel Loureiro; 26 anos;
Manequim e apresentadora
de TV; Tavira
“Nasci portista e hei-de sê-lo, de corpo e alma, até morrer. Da minha família, a minha mãe era a única benfiquista mas não teve outra hipótese senão mudar-se para o nosso clube. Lá em casa, sempre que o Porto joga fica tudo em estado de euforia. É uma loucura. Considero-me uma adepta fanática mas saudável, pois, se a minha equipa jogar mal, sou capaz de admiti-lo. O momento que recordo com mais emoção foi a festa após sermos Penta Campeões. Fui com o meu irmão para o estádio, completamente equipados, e só sei que tirámos dois rolos de fotografias numa tarde. Foi fantástico, uma alegria. Só tenho pena de não poder ir a Sevilha, mas vou estar atenta. Estou com um ‘feeling’ de que vamos ganhar. Se não estiver a trabalhar, visto a camisola, pego na bandeira e vou para a Casa do FC Porto em Lisboa.”
JÁ TENTARAM FAZER-ME MUDAR
Bruno Miguel Duarte Fernandes; 27 anos;
Futebolista; Lisboa
“Nasci e vivi toda a minha vida em Lisboa, mas sou do FC Porto desde que me lembro. Foi a minha primeira e única escolha. Aliás, não foi bem uma opção, porque teve a influência do meu pai que também é portista. Ele nasceu em Pedras Salgadas e toda a família da parte dele é do FC Porto. A minha mãe e o meu avô, pai dela, é que eram benfiquistas. Tive mais familiares e amigos que me tentaram fazer mudar de clube, mas mantive-me firme. Nunca ninguém conseguiu dar-me a volta. Já fui um adepto ferrenho, quase doente. Quando era mais novo, chegava a chorar com as derrotas do Porto e ficava apático durante pelo menos quinze minutos, a olhar para a televisão. Depois, com a idade, fui mudando a forma de reagir às derrotas – que, diga-se, também não foram assim tantas. Infelizmente não vou a Sevilha, mas tenho a certeza de que vamos vencer. Faço questão de assistir a tudo. Se sairmos vencedores, é bem provável que vá por aí dar umas buzinadelas.”
ADORAVA O FERNANDO GOMES
Rosa Maria Duarte Monteiro; 24 anos;
Estudante/trabalhadora; Braga
“Eu tinha oito anos quando o Porto ganhou a Taça dos Campeões Europeus. Estávamos no sofá, eu e a minha irmã, a ver o jogo e a jantar massa. Quando o Madjer marcou o golo de calcanhar, saltei a gritar golo, sem me lembrar que tinha o prato no colo.Espero que no próximo dia 21 a história se repita, embora não seja provável que eu esteja a comer massa. E daí, não sei.... Quem sabe se não dá sorte?… Os meus pais não gostam de bola. Morávamos perto do Estádio 1º de Maio e o meu pai dizia que sempre que o Braga ganhava era um tormento, dado o barulho que as pessoas faziam até às tantas da madrugada. Já a minha irmã é, como eu, adepta do FCP, mas não liga grande coisa. Eu gosto e, ainda no outro dia, quando fomos campeões, festejei com os meus amigos na Avenida da Liberdade. Sou adepta do Porto porque nasci numa época de claro ascendente do clube e porque convivia bastante com uns primos, que eram sócios. O meu grande ídolo era o Fernando Gomes.”
FC PORTO É UMA PAIXÃO INDESCRITÍVEL
José Paulo Santos; 24 anos;
Repórter de Imagem da TVI; Vila Real
“Desde tenra idade, quando comecei a sentir o que era o futebol, o meu coração vestiu-se de azul e branco, a tal ponto de que me fiz sócio do clube e, sempre que a minha profissão o permite, mesmo que os jogos sejam transmitidos na televisão, gosto de ir ao estádio, onde se vive um grande espirito de união. Apraz-me registar que, para além de símbolo do Norte, hoje o FCP é uma referência mundial e uma paixão indescritível. Os triunfos deste ano não me surpreendem, dada a forma como a equipa foi estruturada. Penso mesmo que, pela qualidade e juventude dos jogadores, o FCP está ‘condenado’ a somar uma nova vaga de triunfos nos próximos anos. Vejo, com grande satisfação, a presença no plantel de uma maioria esmagadora de jogadores nacionais e uma grande parte oriundos das escolas de formação do clube. A continuidade está assegurada pelo lote de atletas que estão a despontar, dando a garantia de um futuro risonho para o Porto.”
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