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Germano Almeida: "Cortei com Deus aos dez anos de idade"

Advogado, político e escritor fala da sua vida, da escrita e explica como Cabo Verde é diferente das outras ex-colónias.
Fernanda Cachão 17 de Novembro de 2019 às 10:00
Germano Almeida
Germano Almeida FOTO: Direitos Reservados

Germano Almeida estava quase em casa. Na Ilha do Fogo, no primeiro fim de semana deste mês de novembro, o Prémio Camões de 2018 era um dos convidados da terceira edição da Morabeza, a Festa do Livro de Cabo Verde. Oportunidade para falar com este cabo-verdiano, que "se não o fosse, seria anarquista", advogado feito escritor, já depois dos 40 anos de idade.

O seu primeiro livro é já do final da década de 1980. O que lhe aconteceu?

Foi quando comecei ‘O Meu Poeta’ porque na altura já havia muitos anos de partido único, de oportunismo na sociedade cabo-verdiana, que eu queria denunciar, brincando. Mas o livro começou a ficar muito longo porque achava que tinha de aproveitar para dizer tudo, pois poderia ser censurado. Achávamos que tínhamos censura, mas na realidade a censura estava em nós. No meio disto tudo, cansei-me e resolvi parar para escrever ‘O Testamento do Senhor Napumuceno da Silva Araújo’ e fi-lo em 15 dias; geralmente, as pessoas não acreditam.

E quando acabou esse primeiro livro pensou: agora sou escritor?

Não. Até hoje não penso isso. Eu escrevo desde rapazinho. Há tempos encontrei uns cadernos desses tempos, coisas horríveis, meu Deus: ‘como tu escrevias tão mal!’. Tenho de queimar tudo antes de morrer. A gente vai guardando e não rasga e um dia morre e vão buscar essas coisas como se fossem parte do espólio e são só asneiras. Devo dizer que já quando fui para a tropa, em Angola, escrevi ‘A Ilha Fantástica’, não com este título, mas já com histórias da Boa Vista.

Fez a tropa em que ano?

Em 1967, e estive em Angola até 1970.

Que memórias tem da guerra?

Eu sempre procurei ver o lado positivo das coisas. Lembro-me dos colegas que diziam: ‘Estamos todos cacimbados’. ‘Cacimbado’ é não estar bom da cabeça e eu pensava: ‘Cacimbado é mais uma coisa inventada por ti, do que propriamente das condições de guerra, que não são fáceis mas é vida de homem’. Aprendi imenso na tropa, sobretudo a conhecer-me. Sempre vi o lado daquilo que podia ajudar-me a ser mais gente. Nunca tive uma ideia negativa da tropa, reconhecendo evidentemente que não é uma coisa boa.

No que é que a experiência como advogado ajudou à escrita?

A advocacia ajudou, mas, sobretudo, a experiência como procurador da República, a seguir à independência, tanto na Praia como em São Vicente, quando criámos o estatuto de procurador nas cidades mais importantes. Na verdade éramos delegados de procurador, magistrados do Ministério Público e tínhamos pela frente aquilo a que se podia chamar de caixote do lixo da sociedade, pois tudo ia lá parar. Uma vez, um senhor foi buscar-me a casa porque sabia que a mulher dele estava com outro. A ideia era que o procurador podia resolver tudo e de alguma forma era verdade; por exemplo, uma vez um sujeito chegou à Procuradoria porque um indivíduo tinha aberto a porta de sua casa e despejado um bacio com urina na sala dele. Se o fulano deixava aquilo para o juiz nunca mais se resolvia. Para mim foi excecional porque aprendi imenso sobre a sociedade da Praia e de São Vicente.

O que é que os países colonizados pelos portugueses fizeram pelos seus próprios países depois da saída dos colonizadores? O que podiam ter feito e não fizeram?

Resta saber se tinham condições para o fazer. Ainda há bocado estava a falar com Abdulai Sila [escritor guineense também convidado da Morabeza, Feira de Livros] e eu dizia: ‘Bom , nós [cabo-verdianos] estamos mais bem servidos a nível de governantes’. Cabo Verde teve escola desde o início do século XIX e isso faz toda a diferença. Os jesuítas não se preocupavam com quem era filho de escravo ou de colono. Quando se deu a independência havia uma massa culta que, digo, talvez com algum exagero, fomos perdendo. Houve uma altura em que o grande orgulho do cabo-verdiano era ter a quarta classe, apenas porque não podia ter mais. As convulsões nas outras colónias, sobretudo em altura de eleições, não as tivemos em Cabo Verde, mesmo na mudança do regime de partido único para pluripartidário. Eu estive do lado do partido da mudança e nós não acreditávamos que houvesse tanta gente a defender essa mudança, simplesmente porque o seu comportamento era normalíssimo. E isto é tudo fruto dessa nossa experiência histórica.

Ou de Cabo Verde ser um país pobre...

Sim, aliás a nossa sociedade desenvolveu-se fruto da nossa pobreza. Uma das grandes vantagens de Cabo Verde é ser um país pobre. Não desperta ambições. Não há muita gente a querer estar connosco. Por outro lado, a escravatura em Cabo Verde terminou a partir de 1830 porque a condição dos ingleses, quando criaram o Porto Carvoeiro, em São Vicente, era não haver escravos. A gente pensa que os ingleses eram contra a escravatura, mas não, apenas exploravam mais facilmente as pessoas livres do que as escravas. Já no século XVIII não havia praticamente escravatura porque Cabo Verde era uma sociedade agrária; quando não chovia, não havia agricultura e muitos senhores libertavam os escravos, no sentido de os deixar fugir. Tudo isto influenciou o nosso país.

Cabo Verde tem baseado a economia em setores que não comanda, por exemplo tivemos o tráfico de escravos e quando este acabou entrámos em situação de miséria, depois descobrimos o Porto Grande, que tinha a fama de ser o pulmão por onde Cabo Verde ia respirar, mas não se fez mais nada, toda a exploração do Porto Carvoeiro foi nos anos 1960, quando já não havia muito movimento. Depois descobrimos o Sal, o aeroporto, extraordinário também, deu dinheiro, mas os aviões ficaram cada vez mais autónomos e deixaram de passar por lá. Agora estamos no turismo, mas no dia em que houver uma convulsão ficamos sem nada. Tem de haver um plano B.

Como olha para os outros países africanos de expressão portuguesa?

Estamos esperançados com o João Lourenço. Na Guiné, o presidente tem-se mostrado um louco. Eu conheço o Domingos [Domingos Simões Pereira, escolhido pelo PAIGC para candidato às presidenciais de 24 de novembro na Guiné-Bissau] e parece-me boa pessoa.

Qual é a sua primeira lembrança política?

É complicado responder porque embora nunca tivesse entrado no PAIGC considerava-me um homem do PAIGC. Sempre tive alguma participação na política. Talvez escolha o momento da declaração que a gente fez em 1990 para exigir abertura política. Exigir talvez seja um exagero.

Quem foram os seus pais? Em que é que eles colaboraram naquilo que é hoje?

O meu pai era um pequeno funcionário da Administração Pública, aliás era de família. Há uns tempos encontrei umas atas onde vi que já os meus avós faziam parte da administração. Tinha uma tia que dizia que o meu avô estudou na Sorbonne e eu respondia-lhe: ‘Está bem…’. A verdade é que estudou lá uns tempos e depois desistiu. Todos eles estiveram ligados à administração. Estou a lembrar-me de uma coisa que achei interessante: a inauguração de uma fotografia de Sá da Bandeira [1795-1876, presidente do Conselho de Ministros durante a monarquia constitucional]. Resolveram fazer-lhe umas estátuas, mas a recolha de fundos deu só para um retrato. Na inauguração do retrato, com pompa e circunstância, estavam o meu avô e dois tios meus, como membros vereadores. Mas em minha casa havia muito poucos livros.

Então como lhe aconteceram os livros na sua vida?

Calhou encontrar um livrinho, li e gostei e procurei mais. Com 11 anos, quando tinha algum dinheiro, havia na Praia a loja do senhor Belo Cruz, que aconselhava títulos da Coleção Civilização. Li até chegar ao Eça, mas comecei pelo Júlio Dinis.

Já está em Lisboa em 1974...

Saí da tropa em Angola e fiquei lá a acabar o sétimo ano. Eu queria estudar Direito, mas não tinha como. Um dia, um fulano disse: ‘Porque não pedes uma bolsa à Gulbenkian?’, escrevi e mandaram umas fichas para preencher e o regulamento, onde vi que só davam bolsa até aos 18 anos e eu já tinha 25. Preenchi na mesma e na parte das observações contei uma série de histórias e qual não foi a minha surpresa quando recebi a notícia de que me davam a bolsa. Já estava em Lisboa no 25 de Abril, morando em Campo de Ourique, quando a senhoria vem dizer que não podíamos sair de casa porque havia uma revolução e eu pensei que era uma boa hora para sair de casa. E saí.

O que foi estruturante para a sua formação política: a vida de estudante em Lisboa nessa época ou a sua experiência em Cabo Verde?

Antes do 25 de Abril, na faculdade, eu já tinha alguns contactos. Os três movimentos com que me dei melhor foram o PC, o MRPP, que eram terríveis e brigavam com tudo, e os anarquistas, a quem achava muita piada. Eu dizia que se não fosse cabo-verdiano seria anarquista.

Porquê?

Como cabo-verdiano tinha outras obrigações que não me permitiam ser simplesmente anarquista. Eu tinha uma ideia deles que não correspondia à verdade, pois achava que levavam tudo na brincadeira e de facto os da faculdade levavam tudo na brincadeira. Havia um slogan de quando surgiu o PPD: ‘Hoje somos muitos, amanhã seremos milhões’, e eles, os anarquistas, diziam: ‘A culpa é vossa, tomassem a pílula.’ Quando havia aquelas grandes confusões, as RGA, aparecia sempre um anarquista com uma proposta qualquer maluca que deitava água na fervura porque punha toda a gente a rir. E eu pensava: ‘Mas esta gente
é excelente.’

O que é mais importante, a cultura ou o pão?

Isso aplica-se a Cabo Verde: não podemos querer que alguém compre um livro se não pode comprar um quilo de milho. Se tiver de escolher um dos dois, claro que o pão está em primeiro lugar.

Tem acompanhado a polémica de Bolsonaro com a atribuição a Chico Buarque do Prémio Camões...

O Chico é um abençoado pois vai ter o diploma assinado só por Marcelo, que é um homem digno. Nós tivemos o azar de termos também o diploma assinado por Michel Temer que não se mostrou uma grande peça.

Parece ser uma pessoa de bem com a vida. Qual é a importância do humor nos livros e na sua vida?

Aconteceu ser bem-humorado. Todas as coisas más têm um lado bom. Eu tinha um primo que era extremamente religioso, coisa que eu não sou. Uma vez teve um acidente e ia ficar paralítico. E eu disse: ‘És religioso, dás-te bem com Deus, fazes-lhe as vontades, és chefe de família e és pobre, já viste a situação em que ele ia deixar-te?’ Ele respondeu-me: ‘Podia ter-me matado e não matou’. Eu não penso desta maneira. Eu era ajudante de padre e desafiei Deus para me fazer um favor e Ele não fez e eu disse: ‘Acabou, cortamos relações’. Tinha 10 anos.

Qual foi o favor?

Tínhamos arranjado a pistola de plástico do meu irmão mais velho. Saí para brincar, encontrei um amigo e a pistola partiu-se. Eu disse: ‘Estou feito, meu irmão vai bater-me’. Então pensei: ‘Sou ajudante de padre, estou a dar missa, ando a trabalhar para Deus, Ele tem de fazer alguma coisa por mim’. Então ajoelhámo-nos no altar e, para ajudar Deus, até pusemos um bocadinho de cola, acendemos velas e ficámos lá. E aquilo partido na mesma. Fizemos uma segunda experiência, não resultou e pensei: ‘Vou apanhar a minha sova e não se fala mais no assunto.’

Então é através do humor que se reconcilia com a vida?

Não, dou-me bem com a vida. Quando me perguntam: ‘Estás bem?’ E eu: ‘Bem’. ‘Então, estás sempre bem?’ ‘Sim, estou sempre bem.’

Isso é uma coisa do Germano ou é uma coisa cabo-verdiana?

Também é uma coisa cabo-verdiana. Se bem que eu tenho uma irmã, a quem telefono todos os dias: ‘Mana como estás?’ E ela: ‘Oh mano, tenho isto e isto, mais isto e isto e tenho até dor nas unhas.’

Isso é português…

Capaz. Eu gosto muito da minha mana, mas ela é uma espécie de ‘cassete Cunhal’, aquela coisa que se dizia do Cunhal dizer sempre a mesma coisa. Há dois meses morreu-me uma cunhada de quem eu gostava muito, de uma forma súbita e estúpida, atacada por um cancro e durou um mês. Claro que não questiono Deus pois não acredito n’Ele, mas, às vezes, a gente finge que acredita só para poder questioná-lo.

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