Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
7

Gestores em crise vão ao psicanalista

A recessão económica também transtorna aqueles que têm muito mais do que o ordenado mínimo no fim do mês. Por isso, desabafam no divã.
6 de Junho de 2010 às 00:00
O psicanalista Carlos Amaral Dias no seu consultório
O psicanalista Carlos Amaral Dias no seu consultório FOTO: Sérgio Lemos

Deitar contas à vida não é exercício exclusivo de pobres e remediados. A crise tira o sono a grandes e pequenos, numa irónica indiferenciação de classes. Muitos gestores e directores estão à beira de um ataque de nervos e, por isso, procuram o psicanalista.

Vamos chamar-lhe João. Anda na casa dos 50. Toda a vida foi um puro sangue na gestão e obtenção de lucros nas empresas onde passou. Um profissional brilhante. Um homem de sucesso. Até a catástrofe económica ter batido à porta da multinacional que gere, uma das mais importantes do País.

"Procurei ajuda na psicanálise, quando a empresa onde trabalho se ressentiu da actual crise económica. As mudanças operadas levaram-me a pensar e a sentir um pessimismo crescente, tendo mesmo chegado a encarar a hipótese de mudar a minha vida profissional. Solicitei ajuda a um profissional, embora tenha sido com algumas reticências que me decidi a marcar a primeira consulta", recorda.

Na altura, sentia-se irritado, em tensão permanente e tinha insónias. No gabinete de psicanálise estava Carlos Amaral Dias. O psicanalista garante que a conjuntura económica não levou "mais gente" ao seu consultório, mas reconhece que em tempos difíceis "há maior fragilidade nos altos quadros". "Não sou padre para dar conselhos nem polícia para prender. O que posso é recomendar que a inquietação perante o futuro não invada a esfera pessoal nem diminua o prazer de viver, ainda que em situações difíceis".

A crise é seguramente um "factor desestabilizador" – garante Amaral Dias – e a desestabilização pessoal retira capacidade para gerir, fragiliza o poder de decisão e cria tensões emocionais. "As motivações que são trazidas pelos meus pacientes enquadram-se nos quadros psicopatológicos mais frequentes, embora os transtornos ansiosos e depressivos sejam mais habituais. Muitos dos problemas dos altos quadros não são dissociáveis dos resultados económicos das responsabilidades sociais. Por exemplo, e ainda por aquilo que me é dado observar, despedir alguém é penoso".

MELHOR DO QUE A ECONOMIA

No divã do psiquiatra, o gestor confessou-se e, a pouco e pouco, descobriu que a fraqueza e a força são versos da mesma medalha: "pergunta-me que tipo de respostas tenho obtido com a psicanálise. Percebi que algum excesso de escrúpulo tinha a ver com um perfeccionismo que ‘alimentei’ desde muito jovem e que nunca me pareceu ser um problema. Parecia-me até uma vantagem", admite João, acrescentando: "o estado actual da economia é aquele que se sabe. As perspectivas para o futuro são inquietantes. Mas, o que para mim conta, hoje, é o meu desenvolvimento pessoal, já que ele é fundamental para o meu trabalho e para as relações com os meus familiares, que se encontravam também elas em crise", sublinha.

NOTAS

CONSUMO

Quase 6,4 milhões de embalagens de antidepressivos foram consumidas pelos portugueses em 2008.

26,4 POR CENTO

O consumo de antidepressivos em Portugal aumentou 26,4% entre 2003 e 2008.

PROZAC

Os inibidores selectivos de recaptação da serotonina mais receitados são Prozac, Paxetil, Zoloft e Cipralex.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)