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Glúten: o mau ou o injustiçado da fita?

Há cada vez mais pessoas a deixar de lado esta proteína na alimentação diária...e não falamos só dos doentes celíacos
Marta Martins Silva 28 de Fevereiro de 2016 às 15:00

Há meia dúzia de anos pouco se falava dele – só não era invisível para os celíacos – mas tem vindo a ser apontado como um dos grandes vilões da alimentação e inimigo número um das dietas. Há cada vez mais pessoas a abolirem o glúten – uma das proteínas mais consumidas no Mundo – do cardápio, ao mesmo tempo que os produtos que garantem ser livres de glúten conquistam cada vez mais espaço nas prateleiras dos supermercados e nos carrinhos de compras dos consumidores mundiais.

A moda não passou ao largo das celebridades. A cantora Miley Cyrus aconselhou no Twitter os seguidores a experimentarem uma dieta sem glúten, garantindo que "as mudanças na pele, na saúde mental e física são extraordinárias" e também Vitoria Beckham, Heidi Klum e Lady Gaga erradicaram da alimentação esta proteína. Também a série televisiva South Park dedicou um episódio ao assunto em 2015: tornou-se a primeira ‘cidade’ totalmente sem glúten, fiscalizada por agentes federais que colocavam de quarentena qualquer pessoa que pudesse ter sido ‘contaminada’.

O mau da fita

O neurologista David Perlmutter, autor do best-seller ‘Cérebro de Farinha - A Chocante Verdade Sobre o Trigo, o Glúten e o Açúcar — os Assassinos Silenciosos do Seu Cérebro’ (Ed. Lua de Papel) vai mais longe e defende que o glúten pode levar a depressão, ansiedade, dores de cabeça e enxaquecas, a demências como o Alzheimer, que potencia a perturbação de hiperatividade com défice de atenção e a epilepsia, agrava a doença bipolar e ainda exacerba os efeitos do autismo.

São acusações de sobra para uma proteína "que se pode encontrar no endoesperma de vários cereais de consumo corrente como na cevada, no trigo ou no centeio e que é frequentemente utilizada na indústria alimentar como forma de instrumento tecnológico devido à sua capacidade de conferir textura e elasticidade aos produtos alimentares. Assim sendo, além de a conseguir encontrar nas típicas farinhas de cereais e nos seus derivados, encontrará também em vários produtos de pastelaria, alimentações pré-feitas, congelados, embalados, entre outros", como explica a nutricionista Lillian Barros. Só nos EUA, 29% da população adulta (cerca de 70 milhões de pessoas) garantiram em meados de 2015 estar a tentar cortar no consumo de glúten e em 10% dos lares britânicos havia alguém (no mesmo período) a acreditar que o glúten é prejudicial à saúde.

Segundo um estudo da Deco de fevereiro do ano passado, um cabaz semanal com produtos sem glúten fica 30% mais caro do que um cabaz cujos alimentos o contenham. Uma sondagem publicada em março de 2015 na revista ‘Time’ revelou que os consumidores americanos admitiam gastar cerca de 7 mil milhões de euros por ano neste tipo de alimentos e estimava que em 2016 as vendas atingissem os 14 milhões de euros. Porém, apenas 1% da população mundial (em Portugal a percentagem é semelhante) sofre de doença celíaca. Para estes doentes a mais pequena exposição ao glúten pode desencadear uma reação imunitária tão forte que cause danos graves na superfície do intestino delgado.

A ligação entre o glúten e o intestino já vem desde a Segunda Guerra Mundial, quando em 1940 o pediatra holandês Willem-Karel Dicke notou que crianças que sofriam do intestino melhoraram durante os tempos de racionamento alimentar. Os sintomas destas crianças viriam a agravar-se quando voltaram a comer cereais.

"O primeiro estudo de sensibilidade ao glúten em doentes não celíacos é de 1981. No entanto, só muito mais tarde, se veio a confirmar que existe uma população significativa com sintomas relacionados com o glúten", explica Minnie Freudenthal, especialista em Medicina Interna e Nutrição.

"Além dos celíacos, há 5 a 10% da população de pessoas com sensibilidade ao glúten não celíaca, que podem melhorar consideravelmente de alguns problemas crónicos", continua. A gastrenterologista Rosa Ferreira corrobora: "São doentes que têm sintomas parecidos com doença celíaca, como distensão abdominal e diarreia, mas a investigação para a doença celíaca dá negativo".


"Eu própria fui o meu primeiro caso de sensibilidade ao glúten não celíaca", acrescenta Minnie Freudenthal. "Confundi os sintomas com queixas de menopausa. Reconheci mais tarde a mesma inflamação das mucosas em mulheres jovens e que igualmente melhoraram ao banir o glúten. Tive casos de sucesso com cansaço, enxaquecas, dores crónicas articulares e musculares e estabilização de doenças autoimunes", acrescenta.

"Ainda não existem estudos científicos que comprovem existir vantagens para um indivíduo saudável não ingerir glúten . Nem é o novo inimigo público da perda de peso. O que acontece é que esta proteína está presente em muitos alimentos processados ou industrializados (ricos em açúcares refinados, gorduras de má qualidade e excesso calórico) pelo que é certo que ao banir estes alimentos o ponteiro da balança irá descer", conclui Lillian Barros.

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