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Correio da Manhã

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GOSTAVA DE SER COMO FIDEL

Durante quatro anos, foi segurança de Fidel Castro, o controverso líder cubano. Instalado em Portugal desde 1998, onde agora é relações públicas de um restaurante lisboeta, este admirador confesso do Comandante diz que a democracia é apenas um ‘conceito’. E explica porquê
7 de Março de 2003 às 16:22
Como é a segurança de Fidel?
É muito grande e cerrada. Dentro de Cuba nem é preciso, porque ele está à-vontade, mas anda sempre com seguranças. O problema é quando sai. No início, depois da Revolução [Janeiro de 1959] a segurança era muito mais apertada. Agora, há cerca de 30 homens mais perto do Comandante.

Como chegou a segurança de Fidel?
Formei-me na Escola Militar, em Havana, durante três anos. A partir daí fui seleccionado pelo Ministério do Interior.

Quem escolhe a segurança é o próprio?
Não, Fidel não tem tempo. A selecção passa por vários departamentos do Ministério do Interior, que avaliam a nossa capacidade física e mental.

Quais os requisitos mais valorizados?
Ser ‘revolucionário’. São os princípios cubanos. Há uma palavra que não existe em Cuba e entre os seguranças: ‘traição’. Há outra frase essencial – ‘Patria o muerte’ (‘Pátria ou Morte’) – que resume o espírito indispensável. A capacidade física também é muito importante. Depois há testes específicos, uma escola onde se aprende a trabalhar com armas… Sobretu-do há uma regra para a vida: o segurança tem que ser fiel!

Dá muito valor aos valores revolucionários... E os seus conterrâneos?
Há cubanos que podem não concordar com estas ideias, mas a maioria concorda. Se ele [Fidel] fosse tão mau e tão ditador como se diz, já tinha havido outra revolução em Cuba… A própria segurança do país, o exército do Ministério do Interior, a polícia, são feitos, em grande parte, pelo povo. Um só homem não pode controlar 11 milhões de pessoas. E Portugal é a prova disso: tinham um ditador [Salazar], o povo não o queria e houve uma revolução.

Quantos homens acompanham Fidel diariamente? São sempre os mesmos?
Quase sempre os mesmos. A ideia de que Fidel muda de seguranças todos os anos é falsa. São cerca de dez. Eu trabalhava com ele quase todos os dias.

Vivia perto dele?
Sim, em Havana, perto da casa dele.

Onde? Dizem que muda muito de casa, que o povo não sabe onde vive…
[Risos] Sabem… Fidel trabalha muito e está todos os dias no Conselho de Estado, na Praça da Revolução. É incrível! Tem dias em que entra às oito da manhã e só sai às cinco da madrugada. É claro que estas coisas não se sabem com exactidão em Cuba. Mas ele trabalha o dia todo.

Os seguranças estão em permanente tensão. Lembra-se de momentos críticos?
Em 1986, foram inauguradas mais de 80 creches em Cuba. Era um ‘stress’ enorme. E nos congressos também. Porque a segurança não é só para Fidel. É para ele e para as personalidades recebidas.

E ameaças de atentado…
Houve imensas. Mas nenhuma surtiu efeito. Conseguimos antecipá-las. Cuba tem uma das forças de inteligência [serviços de contra-informação e espionagem] melhores do mundo, melhor do que a própria CIA. A partir do momento em que houve agentes nossos dentro da CIA, já dá para imaginar... Houve um deles, inclusive, a quem o Presidente norte-americano Nixon ofereceu um Rolex. Isso são dados públicos, estão escritos.

Defina Fidel em poucas palavras.
Gostava de ser como ele. Tem uma inteligência incrível. Homens como ele não nascem todos os dias. Antes da Revolução, Fidel foi detido pelos tiranos e houve um dos capitães de Baptista [ditador que governava Cuba antes da Revolução] que disse: “Não matem esse homem porque as ideias nunca morrem”. É verdade. Fidel pode morrer amanhã mas há muitos políticos que vão seguir o seu caminho. Por exemplo, Che Guevara morreu há muitos anos e qual é o movimento de libertação nacional que não tenha a insígnia de Che?

Quem são os amigos mais íntimos de Fidel?
Fidel tem muitos amigos, não é uma pessoa isolada. São membros do governo e amigos que vieram com ele de Sierra Maestra, dos tempo da luta. Fidel é amigo do seu amigo.

Mas diz-se que ele abandonou Che Guevara antes da sua morte…
Isso não é verdade. Sei que se comenta isso... mas onde está a prova?

Fidel falava muito de Che Guevara?
Sim. Em Cuba há um lema que se ensina às crianças: “Pioneiros pelo comunismo, seremos como Che”. Fidel diz que ele é um grande homem e que a sua causa era acabar com a opressão dos povos. Che foi um grande amigo dele.

Mas se ele sente que há traição, é vingativo?
Não, em Cuba não se faz justiça pelas próprias mãos. Dizem que se mata, que se manda fuzilar… Em 1989, 1990 houve uma situação no Governo mas… [pausa]

Está a falar da morte do general Ochoa? [um dos braços direitos de Fidel, acusado de tráfico de droga num processo algo ‘obscuro’, e mandado fuzilar] Dizem que Fidel o mandou matar…
[Sorriso]… [pausa] Conheci o general pessoalmente. Mas não posso dizer nada, não sei… Há erros que são imperdoáveis.

Sentindo-se atraiçoado, Fidel seria capaz de mandar matar um amigo?
Não.

Que ‘hobbies’ tem o Comandante?
Pesca submarina, basquete e ‘basebol’. Gosta de jogar como ‘pincher’. Há pouco tempo jogou com Hugo Chávez no estádio de Cuba.

E quando está sozinho, o que gosta mais de fazer?
Ler. Fidel lê muito e gosta de tudo. Ele é muito inteligente. E fala muito bem inglês. É advogado.

Escreve, tem diários?
Com certeza. Algum dia sairá uma auto-biografia. E até pode ser que seja ele a escrevê-la. Ele não tem nada a ocultar.

E vícios?
Fumar charutos. Gostava muito de Cohibas mas já não fuma há vários anos.

Bebe muito?
Não sei. Bebe em ocasiões sociais. Quando foi a Cimeira Ibero-Americana [Outubro de 1998], na Alfândega do Porto, bebeu e gostou muito do Vinho do Porto.

E comer, come bem?
É como um desportista. Segue uma dieta rigorosa feita pelos médicos.

Porquê? É verdade que tem problemas de saúde? Já se falou em cancro…
Mentira. São 77 anos e é o cansaço. Veja a capacidade dele para discursar. Como é possível alguém estar tanto tempo a falar sem repetir a mesma frase?

Qual a característica que mais admira nele?
A ombridade. É um homem que diz o que tem a dizer na cara das pessoas.

Tem mudado ao longo dos anos?
Não se pode parar no tempo e nota-se que até em Cuba há maior abertura. Por exemplo, o dólar foi despenalizado, as pessoas têm mais liberdade… O povo americano é bem recebido. Os problemas de Cuba são com o governo, não com o povo.

Nos anos 80, ainda se sentia muita repressão…
O país estava a passar por uma crise muito grande, as pessoas saíam muito de Cuba. Mas Fidel não caiu. É lógico que se tornou mais flexível. Podemos hoje cometer um erro e amanhã reconhecê-lo. Isso está a acontecer em Cuba, há mais abertura e as pessoas sentem-se mais livres... ainda que digam que Cuba não é livre. Se não é livre, porque é que eu estou aqui?

Mas nem todos saem livremente…
Não é Cuba que não deixa sair. Chega um cubano a uma embaixada de algum país, como a França ou a Itália, e não lhe dão o visto: de quem é a culpa? Não é de Fidel. Agora se um médico não pode sair, eu concordo. Se o governo forma ‘x’ médicos durante cinco anos, gasta milhões de dólares e depois esses médicos querem sair de Cuba, ficamos com quem?

Quantos filhos tem Fidel?
[Risos] Não sei.

Como eram as relações com as mulheres?
Com tanto trabalho, não tem tempo para as mulheres. Mas não é um anjo. Agora dizer que é mulherengo, não.

Quem será o sucessor de Fidel, o irmão Raúl?
Em caso de morte repentina, sim. Mas momentaneamente. Depois teria que haver eleições antecipadas – já não para eleger o Comandante da República de Cuba, mas o Presidente da República de Cuba.

Quem seria então o sucessor ‘legítimo’?
Carlos Laje. É um dos presidentes do Conselho de Estado; é economista, estadista e um dos braços-direitos do Fidel.

Fidel seria capaz de se retirar do poder?
Penso que sim, ele está cansado.

O fim do bloqueio está para breve?
Penso que sim. Não tem lógica continuar. Nós não temos nada. E porquê? Porque Fidel está no poder? O povo não tem por que sofrer, não tem culpa.

O que mudaria com o fim do bloqueio?
Tudo. O país está a produzir com tecnologia dos anos 50. A economia crescia, a tecnologia evoluia e o país mudava por completo. Acabava a palavra ‘repressão’. Não é que haja repressão, há controle. Quando tens muito, não há controle. Mas quando não tens nada, tem que haver.

SOLTAS

Uma vez, numa final de ‘basebol’ em Havana, estavam a preparar um atentado contra Fidel. Mas o indivíduo foi detido antes. Era alguém contratado pela CIA.

Nunca vi nenhuma proibição de celebrar o Natal. Mas a Revolução triunfa no dia 1 de Janeiro e é natural que se celebre mais o seu aniversário do que o Natal.

Nunca seria capaz de viver nos EUA. Mas gostava de ir lá de férias, a Miami.

A democracia não existe. Demo-cracia é entre-aspas. O meu país é democrático. Mas há quem diga que não, e que em Cuba não existe liberdade de expressão. A liberdade de expressão existe até certo ponto. Quando se fala de mais é sempre complicado. Em Cuba também é assim.

Sou contra a guerra [com o Iraque] mas os americanos querem o petróleo... O único país com quem os EUA mantêm uma guerra, e que não tem nada, é Cuba.
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