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GOSTAVA DE SER MAIS NOVO PARA PODER JOGAR COM ELES

Está para Eusébio como Carlos Resende está para Figo e foi durante muitos anos o melhor jogador de andebol português. Infelizmente para João Gonçalves, não havia esta 'geração de ouro'. Aos 47 anos, o agora administrador do Pavilhão Atlântico – palco da final do Mundial – acaba de lançar ‘A História do Andebol em Portugal’
17 de Janeiro de 2003 às 17:31
No seu tempo, o andebol não tinha a projecção que tem hoje. Como o recorda?
Na altura vivia-se situações estranhas. Lembro-me de que, uma vez, tínhamos ido jogar a Paris e os dirigentes tiveram de contar os tostões para podermos comer uma sandes. Isto não é uma história, mas sim a verdade. Éramos capazes de dormir num centro de estágio, em camaratas de doze pessoas, com os dirigentes a dormirem ao pé de nós. Havia coisas curiosas.

Foi uma fase de transição.
Uma coisa curiosa é que um dos meus últimos jogos em seniores foi contra o Carlos Resende, era ele miúdo. Defrontámo-nos no meu último ano, em 1989, nas meias-finais da Taça de Portugal, que nós ganhámos pelo Sporting. Ele já estava no FC Porto. Ainda me cruzei com a geração deles. Houve uma evolução clara e o andebol cresceu muito de lá para cá. Atravessei toda essa transição, do tempo da baliza às costas, como prova a Taça Latina, em 73/74, na Roménia, em que se jogava em recintos ao ar livre e com piso de alcatrão. A geração actual teve a sorte, felizmente, de ter outras condições de trabalho, jogando ao melhor nível e ambicionando ir aos Jogos Olímpicos.

O Carlos Resende também jogava a lateral esquerdo. É o jogador português com quem mais se identifica?
Não, apesar de ser uma grande referência. Quando ele apareceu já eu estava um pouco gordo. Poucos sabem, mas ele começou a jogar a pivot e não a lateral esquerdo. Nos jogos de preparação e nos três primeiros do Mundial do grupo C, na Finlândia, em 1990, ele começou a trinco e correu-nos mal. Acompanhei a prova, já como jornalista, e fui bastante crítico, dizendo que o treinador estava errado. Quem pusesse o Carlos Resende como trinco estava a cometer um crime, e isso provou-se. Então, ele passou para lateral esquerdo e, nos jogos que restaram, tornou-se no melhor marcador da selecção. Se me perguntar quem é o melhor jogador, o mais genial, digo que é o Ricardo Andorinho, pois vejo nele coisas de génio que só se vêem de vez em quando. Tenho pena que esteja de fora. É um dos melhores pontas do Mundo, sem tirar valor ao Carlos Resende e a outros.

té onde pode Portugal ir no Mundial? Acha que é possível chegar aos Jogos Olímpicos?
Penso que há um jogo-chave: frente à Islândia, um país que tem o andebol como desporto-
-rei. Se ganharmos aos islandeses, até podemos perder com a Alemanha, que está muito forte. Se vencermos a Islândia, isso dará um balanço enorme para o resto do Mundial. Espero que Portugal chegue ao Pavilhão Atlântico para lutar pelos primeiros lugares. Não digo os de topo, pois acho que não temos possibilidades. Só tenho pena de não ter menos uns anos, para jogar com eles.

Como analisa o trabalho do seleccionador, Garcia Cuesta?
Temos de ver isto de uma forma mais ampla. Há que ver o trabalho feito pela Federação e por pessoas como o Aleksander Donner [ex-seleccionador nacional]. Ele teve de mudar a mentalidade, o que veio a acontecer. Ou se trabalha em bloco e um jogador, mesmo como o Resende, dá tudo o que pode na defesa, ou então nada funciona. É esta mentalidade de conquista e de esforço, que se aplica a qualquer grande equipa.
Só se alcança algo trabalhando todos os dias. O Garcia Cuesta já mostrou todo o seu valor em vários países, tem uma carreira vasta, vem de um andebol forte, que é o espanhol, e sabe o que quer...

O público também parece motivado.
Às vezes somos um pouco ingratos. As pessoas que não se surpreendam com o que Portugal pode fazer... Espero que também contribuam para o êxito. Só com apoio popular é que se consegue algo e a selecção merece um prémio.

Quais são os grandes candidatos ao título?
França, Rússia, Alemanha, Suécia, Islândia, Egipto e Espanha.

Portugal pode chegar mesmo ao título?
Apesar de toda a minha carreira, alinhando várias vezes na selecção, onde o andebol foi uma namorada que me deu muito prazer, acho que seria injusto da minha parte pensar que Portugal pode ser campeão Mundial. É muito difícil. Há cinco ou seis selecções a lutar pelo título e tudo pode ficar decidido por um golo, nos últimos 30 segundos.

O livro que está a lançar, 'A História do Andebol em Portugal', centra-se em quê?
Tive muito orgulho no convite endereçado pelos CTT para fazer este livro. Nunca pensei que tivesse tanta dificuldade. Avisaram-
-me que iria ter dificuldades na pesquisa, e aí fiquei assustado. Sobre o andebol não havia nada palpável. Mas descobri coisas interessantes. Durante anos diziam que o primeiro jogo de andebol 11 em Portugal havia sido numa determinada data. E descobri que estava errado. O jogo realizou-se a 5 de Outubro de 1930 e não a 31 de Janeiro de 1931, como se dizia. Foi possível fazer um “report” sobre o nascimento e crescimento do andebol, a passagem do andebol 11 para o 7, as figuras mais importantes e, no fim, uma selecção dos magníficos feita por mim.

O que sente quando dizem que foi um dos melhores jogadores portugueses – talvez o maior?
Muitos comparam-me com outros jogadores, o que é muito bom, mas aquilo que mais me satisfaz é ouvir dizer que poderia jogar ainda hoje. Com as capacidades técnicas e físicas que eu tinha, dizem-me que podia jogar actualmente. Fico contente quando me comparam com essa grande figura que é o Carlos Resende, ou com outros . Mas é como comparar o Coluna com o Paulo Sousa, ou o Augusto com o Simão Sabrosa. As capacidades eram outras, a técnica, os sapatos, o treino... Era tudo diferente.

O 13 da camisola nacional dava-lhe sorte?
Sempre. Escolhi este número porque foi o que o Eusébio utilizou no Mundial 66, em Inglaterra.


PERFIL

João Gonçalves representou o Sporting e o Benfica, tendo jogado duas vezes em cada um deles. Era lateral-esquerdo, como Carlos Resende, e jogou cerca de 20 anos. Fez todo o percurso de formação no Benfica e foi um dos internacionais ‘A’ mais jovens de sempre, com 17 anos. Esteve no Benfica até aos 21 anos, foi três anos jogar para o Sporting, onde foi campeão nacional nesses anos (75/78), e depois voltou ao Benfica. No último ano de carreira, regressou ao Sporting (88/89). Jogou na selecção ‘A’ durante 15 anos, coisa a que chama “das coisas mais marcantes” na sua carreira. “Fui o primeiro jogador a chegar às 100 internacionalizações [somou 103 no total]. Se jogasse nos dias de hoje, com 15 anos de selecção, no mínimo teria cerca de 300 internacionalizações”, explica. “Antigamente não havia tantas provas. Lembro-me que houve um período de quatro anos em que não competimos. Isto nos anos 70. Ainda participei em sete mundiais dos grupos B e C.” Na selecção marcou 334 golos. “Na altura dava uma média de quatro golos por jogo. Comparando com o melhor marcador actual, que é o Carlos Resende, que tem uma média de seis golos, vê-se logo a evolução do andebol daí para cá.” Conquistou diversos títulos nacionais e Taças de Portugal.
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