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"Gostava de voltar a Moçambique"

Passei fome e o desgaste psicológico foi muito grande, mas tenho saudades daquela terra.
Ana Maria Ribeiro 22 de Março de 2015 às 10:00
Foto de grupo tirada a um domingo, no aquartelamento de Vila Gamito
Foto de grupo tirada a um domingo, no aquartelamento de Vila Gamito FOTO: D.R.

Assentei praça em Coimbra em outubro de 1972, com 20 anos. Depois fui tirar a especialidade em Sacavém. O estágio foi em Sapadores, na Graça, e daí para a Figueira da Foz e Torres Novas, onde formei batalhão. Na vida civil, era mecânico de motorizadas e de bicicletas, mas na tropa atribuíram-me as funções de mecânico de autorrodas. Não tem nada a ver, mas a gente tem de se desenrascar. Fui mobilizado e, a 12 de julho de 1973, parti então para Moçambique. Sem medo. Tinham-nos dado daqueles comprimidos que não deixam pensar...

Quando cheguei à Beira, estavam 40 graus. Passámos uma noite a dormir no chão, em cima de umas caixas de cartão, e no dia seguinte fomos levados para Furancungo, perto de Tete. O pessoal que lá se encontrava há 24 meses estava doido. Fizeram--nos uma praxe que consistia em chamar a atenção para o tempo que lá iríamos passar e em fazer de conta que filmavam a nossa chegada. Chamavam-nos de "checas".

Mas não fiquei em Furancungo. Em vez disso, fui enviado para o destacamento de Vila Gamito, onde éramos 35 brancos e 15 negros. O comandante era o alferes Lima, um rapaz do Porto, muito humano. Gostava do pessoal. Mas Vila Gamito era o fim do mundo. Não havia estradas nem pontes, tudo tinha sido destruído. Não havia condições de habitabilidade nem de alimentação e, como meio de transporte, só tínhamos um trator e um jipe. A comida e o correio chegavam num avião de carga e não havia nada para fazer a não ser escrever, dormir e jogar às cartas.

Um dia, avariou-se o motor que tirava água do poço, e foi horrível, porque tínhamos de ir buscá-la a um charco a cinco quilómetros. Era água suja, que bebíamos com comprimidos, para minorar o mal que podia fazer. Estivemos três meses sem motor, que só chegou na véspera de Natal. Foi a melhor prenda que tivemos.

ATAQUES ASSUSTADORES

Enquanto for vivo, não vou esquecer os ataques que sofremos ao quartel – todos ao dia 19. O primeiro foi em setembro e durou toda a noite. Começou às seis da tarde e só terminou às sete da manhã. A segunda morteirada arrasou a messe dos oficiais, mas como antes do ataque o inimigo enviava um very-light, para iluminar o espaço, nós tivemos tempo para correr para o abrigo e ninguém ficou ferido.

Mas não pregámos olho noites a fio, imaginando que novo ataque estaria iminente. A 19 de março, dia do meu aniversário, tivemos outro ataque, este mais curto, e o último foi a 19 de maio. Felizmente não tivemos baixas no destacamento, mas houve duas mortes na companhia. Houve uma menina negra, teria uns 15 ou 16 anos, que pisou uma mina antipessoal e perdeu uma perna, do joelho para baixo. Nunca mais me esqueci dela.

Quando se deu o 25 de Abril, soubemos que íamos voltar mais cedo. Fui acabar a comissão a Furancungo, onde estivemos dois meses, a comer e a dormir bem melhor. O regresso foi atribulado, porque no dia 21 de novembro havia tanto nevoeiro sobre Lisboa que o avião não conseguiu aterrar. Mas lá chegámos. O melhor de Moçambique foi a amizade que ficou entre os camaradas. Daríamos a vida uns pelos outros. Todos os anos nos encontramos e falamos em regressar a Moçambique. Seria bom. Este ano, o almoço será a 10 de junho, na Mealhada.

José Travassos

COMISSÃO: Moçambique, 1973-1974

FORÇA: CART. BART. 7221

ATUALIDADE: Completou 64 anos a 20 de março de 2015. Casado, tem dois filhos e está no desemprego

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