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"Gritavam água! Água! Água"

Lucinda e Paulo deram mil litros de água na A1 durante incêndio.
Marta Martins Silva 14 de Agosto de 2016 às 11:11

Das janelas da casa que há anos estão a construir em Avanca com as próprias mãos, Lucinda e Paulo têm paisagem para a A1 - Autoestrada do Norte. Habituaram--se ao bulício dos carros apressados para cá e para lá, uma banda sonora que se entranhou nos ouvidos do casal que há uma semana ninguém conhecia, mas que num fósforo as redes sociais tornaram familiar, mostrando que nem só os insólitos negativos se tornam virais: as boas ações também são capazes de sensibilizar os internautas (e até de comover um país descrente num verão quente sem tréguas).

No domingo passado, enquanto um incêndio num eucaliptal em Salreu, Estarreja, consumia tudo o que apanhava pela frente, a janela da tal casa que Lucinda Borges e Paulo Pereira vão construindo "devagarinho e à medida das possibilidades" mostrava-lhes filas e filas de carros debaixo de um calor tórrido que não avançavam um milímetro que fosse. "Quando vi aqueles carros parados só disse para o meu marido: ‘Meu Deus, tantos carros parados com o calor que está, imagino a sede que ali vai’. E o meu companheiro até disse: ‘Se calhar levávamos lá umas garrafitas de água que temos aí e uns garrafões, não serve de muito, achas que eles vão querer?’ E foi assim que tudo começou", recorda Lucinda, sobre as sete horas que passou com o marido a distribuir água aos automobilistas que desesperavam com sede.

Ao início, de facto, as pessoas estranharam quando do lado de lá da vedação, no meio das silvas, um casal estendia água como quem estende a salvação. Terá parecido certamente uma miragem (milagre? oásis?) aos olhos de quem sofria debaixo do calor intenso e sem esperança de continuar o caminho tão cedo. "Ao início as pessoas nem reagiam porque achavam estranha a atitude, mas a notícia espalhou-se e às tantas já era tudo a gritar: ‘Água! Água! Água!’ Eram crianças, idosos, estrangeiros, tudo vinha ter connosco, as pessoas pareciam formigas umas atrás das outras, parecia que o Mundo ia acabar e que a água não chegava." E não chegava mesmo a que trouxeram de casa, tanto que se deslocaram ao supermercado mais próximo para comprar cerca de mil litros de água. "Esgotámos o stock sem pensar em mais nada, só vamos ajudar e depois logo se vê. As pessoas queriam-nos pagar, mas nós não aceitámos, Deus me livre, só queríamos ajudar sem pedir nada em troca", conta Lucinda, escusando-se a revelar quanto gastaram: "Não me fica bem dizê-lo, foi de coração. Podemos viver mais ‘apertados’ durante a semana, mas ninguém nos tira o orgulho do que fizemos."

Vida com dificuldades

Lucinda, de 33 anos, já foi operadora de caixa, repositora e jardineira. Fez um pouco de tudo nesta vida "sempre com contratos precários" e neste momento está desempregada. Terminou agora um curso de técnica de apoio à família e à comunidade que lhe deu a certificação do 12º ano que não conseguiu concluir em idade escolar. "Tive de sair da escola cedo porque tinha epilepsia e problemas cardíacos", explica esta mulher que sonha "com um trabalhinho fixo" que lhe permita terminar a casa que os dois sonham ver pronta. "Sempre passámos dificuldades, mas desde a crise ficou pior porque o Paulo [44 anos] trabalhava na construção civil e as obras pararam. Agora faz uns biscates aqui e ali. A nossa sorte é que sempre fomos poupados: se tivermos 50 euros gastamos 25 ou 30 e deixamos o resto de lado para o que for preciso. E, felizmente, o dentista deixou-me pagar o aparelho da minha filha [Cíntia, de 14 anos] a prestações. Somos pessoas normais como as outras, que ajudam e são ajudadas." Fossem todas assim as pessoas normais e, atrevemo-nos a dizer, o Mundo seria um lugar melhor apesar de tudo.

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