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GUARDA: ELA APRENDEU A LER AOS 83 ANOS

Em criança, não passou da segunda classe, onde não aprendeu quase nada. Mas, como querer é poder, Teresa Rabaça regressou às aulas aos 83 anos para concretizar um sonho: aprender a ler e a escrever. Depois disso, até trocou correspondência com o então ministro da Educação, Marçal Grilo, que se emocionou com a sua história de perseverance.
7 de Fevereiro de 2003 às 19:30
Durante dois anos, sempre à noite, frequentou a escola da aldeia, completou a quarta classe e, como sempre desejou, passou a escrever com “uma letra miudinha que era a mais bonita que havia na sala”.

Teresa de Ascensão Rabaça, a viver em Casal de Cinza, no concelho da Guarda, completou o 1º Ciclo do Ensino Básico aos 83 anos. “A maior felicidade que tive foi aprender a ler e a escrever”, confessa hoje, aos 93 anos, com um brilho nos olhos e um sorriso esboçado nos lábios.

Mas depois da concretização do sonho, a idade pregou-lhe uma partida. “Já só leio as letras grandes e escrevo pouco. Como não vejo, faço o nome e mais nada”. Apesar disso, não hesita em agarrar numa esferográfica e escrever o nome completo e o da localidade onde vive.

A nonagenária, de corpo franzino e vestida de luto carregado – o marido faleceu há um ano, na véspera de Natal – escreve na perfeição. “Como já não vejo bem, levo mais tempo, mas o nome sempre o tenho feito”, conta, adiantando com ironia: “Também nunca foi preciso escrever nem ao namorado, nem à família”.
Sempre bem disposta, quando convidada a deixar-se fotografar, Teresa Rabaça fixa a objectiva da máquina e repete, vezes sem conta: “Olha para mim e ri-te… Olha para mim e ri-te…”.

Ó SENHOR MINISTRO

Quando completou o 1º Ciclo do Ensino Básico do Ensino Recorrente, Teresa de Ascensão Rabaça chamou a atenção do então ministro da Educação, Marçal Grilo, que lhe escreveu a felicitá-la e a convidá-la para o visitar em Lisboa. “Sei que fez um grande esforço para estudar e acho que aquilo que fez é um bom exemplo para todos os alunos de todas as idades que frequentam as escolas portuguesas. Como não quero que perca o contacto com o mundo das letras e com os livros, tenho o gosto de enviar-
-lhe uma pequena colecção de livros que lhe serão, decerto, muito úteis e lhe darão horas agradáveis de leitura. Espero que quando vier a Lisboa, me dê o gosto de me visitar aqui no Ministério da Educação”, escreveu Marçal Grilo a 26 de Março de 1996.

Na resposta, Teresa Rabaça pediu desculpas ao ministro por não o poder visitar e agradeceu-lhe o os livros: “Peço muita desculpa de tão tardiamente acusar e agradecer a muito apreciada lembrança que me enviou. A minha pouca saúde e a do meu querido marido não me permitiram cumprir os meus deveres, como era meu desejo”.

A nonagenária acabou por nunca ir a Lisboa, apesar da vontade de “meter os pés a caminho”. “Só não fui porque a professora me disse que gastava muito dinheiro, e que depois de lá chegar também ia gastar dinheiro ao Estado”, revela. Quanto aos livros, assegura: “Ainda os comecei a ler, mas depois a vista começou a fraquejar e os meus netos levaram-mos”.

SERAPILHEIRA GUARDA LIVROS

A estudante tardia guarda com carinho os livros e os cadernos que durante dois anos carregou para a escola (nos anos lectivos de 1991/1992 e 1992/1993) num saco de serapilheira azul-escuro. A sacola está arrecadada num armário e só a abre de vez em quando: “Quando cá vêm os senhores (repórteres), mais nada”, afirma. No seu interior estão também a carta do ex-ministro e o Certificado de Habilitações Literárias – encaixilhado – que foi passado a 25 de Janeiro de 1994.

Enquanto remexe na sacola para mostrar os ditados e as redacções escritas com uma “letrinha perfeita, de fazer inveja a esta garotada nova”, regressa ao passado. Lembra-se de que entrou na escola pela primeira vez com seis anos e que saiu aos oito “para tomar conta das cabras”.

Esta verdadeira heroína cresceu no seio de uma família pobre de 13 irmãos. “Naquela altura tive medo de continuar na escola. O professor da terceira e da quarta classe era muito mau, batia muito nos alunos, e eu com o medo fiquei em casa. Os meus pais também não me obrigaram e nunca acabei a quarta classe”, diz.
Quando saiu da escola dedicou-se à pastorícia e apascentou as cabras até casar, aos 27 anos. Agora, aos 93, já sabe ler há 10 anos. Nada mau.
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