Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
6

‘Guerra dos Tronos’ tem som português

Sem o software criado por Nuno Fonseca, a cena da grande batalha dos mortos-vivos não teria soado com a mesma emoção.
Fernanda Cachão 12 de Maio de 2019 às 11:00
Guerra dos Tronos
Emilia Clarke interpreta Daenerys Targaryen na saga 'A Guerra dos Tronos'
Guerra dos Tronos
Guerra dos Tronos
Emilia Clarke interpreta Daenerys Targaryen na saga 'A Guerra dos Tronos'
Guerra dos Tronos
Guerra dos Tronos
Emilia Clarke interpreta Daenerys Targaryen na saga 'A Guerra dos Tronos'
Guerra dos Tronos

O software criado por Nuno Fonseca usa técnicas de computação gráfica, mas aplicadas ao som, em vez de imagem. É quase como um software de animação 3D ou de efeitos visuais, mas para aquilo que não se vê mas se ouve. Vamos imaginar - propõe o criador do Sound Particles - "alguém a trabalhar no som para uma cena de uma batalha da II Guerra Mundial.

A abordagem tradicional é utilizar um programa de edição de som, e começar a adicionar manualmente diversos sons: uma explosão aqui, outra explosão acolá, uns tiros aqui, outros acolá e assim por diante. E passados dois dias de trabalho, talvez se tenha 40 ou 50 sons a tocar ao mesmo tempo.

Com o Sound Particles, em poucos minutos, consigo criar dez mil sons, espalhados por uma área equivalente a um quilómetro quadrado e obter um resultado final muito mais realista e em muito menos tempo."

Relativamente à série que, no próximo domingo, deixa órfãos em todo o Mundo - ‘Guerra dos Tronos’ - a batalha que opõe milhares e milhares de pessoas a mortos-vivos é um verdadeiro quebra-cabeças auditivo que seria verdadeiramente impossível se tivessem sido adicionados um som de cada vez.

Os emails para Paula Fairfield
O fundador da startup Sound Particles, que dava aulas no Politécnico de Leiria (onde vive) e na Escola Superior de Música de Lisboa, diz que o software já está a ser usado em todos os estúdios de Hollywood. "No caso de a ‘Guerra dos Tronos’, a equipa de áudio já conhecia o software.

A Paula Fairfield (sound designer da série) já o tinha utilizado em filmes como o ‘Mother!’ [Darren Aronofsky, 2017] ou em ‘The Mist’ [série americana de TV estreada em 2017], e um dos re-recording mixers também já conhecia o software de uma das apresentações que tínhamos feito na Sony Pictures", conta.

Para além do contacto (via email e redes sociais) com Fairfield, Fonseca esteve com parte da equipa durante uns prémios em Los Angeles, onde o software do português estava nomeado.

"Na altura, eles não podiam contar nada sobre o contexto da utilização, mas já me tinham avisado que estavam a usá-lo e que quando visse o episódio certo, saberia logo. Depois de ver o episódio da batalha, perguntei-lhes e eles confirmaram que foi um dos episódios onde usaram o Sound Particles de forma massiva", conta, satisfeito.

Embora o software possa ser utilizado em vários tipos de produção, é nas grandes produções de cinema que encontra a sua vocação. Foi usado, por exemplo, em blockbusters como ‘Aquaman’ (James Wan, 2018), ‘Batman vs Superman’ ( Zack Snyder, 2016), ‘Wonder Woman’ (Patty Jenkins, 2017) ou ‘Ready Player One’ (Steven Spielberg, 2018).

"Como é óbvio, Hollywood é um mercado sexy. Eu poderia ter uma empresa de tintas que faturasse 100 vezes mais, que não seria tão interessante para o público. No nosso caso, isso joga a nosso favor: conseguimos ir buscar melhores profissionais, que preferem trabalhar em projetos como o nosso, atrair mais facilmente investidores e como começámos a trabalhar com grandes produções de Hollywood, é mais fácil convencer novos clientes", diz Nuno Fonseca que tem como ambição fazer o mesmo tipo de revolução no áudio que a computação gráfica trouxe ao cinema de animação.

Mais que não seja pode citar George Lucas que diz que "o som é 50 por cento de um filme". Para o fundador da Sound Particles Lda, o grande problema do som "é que trabalha ao nível do subconsciente" e como tal, a maior parte das pessoas, até profissionais de cinema, acaba por não reparar no seu impacto".

Aquando do ‘Mad Max: Fury Road’ (2015), o realizador George Miller, insatisfeito, contratou Mark Mangini para refazer o trabalho de som. Durante a criação dos filmes, os estúdios fazem testes com plateias, de forma a avaliar o filme antes do lançamento: "No caso deste ‘Mad Max’, só a alteração do som fez com que a pontuação geral do público subisse cerca de 15 por cento", conta Fonseca - e nesse ano, Mangini ganhou o Óscar pelo seu trabalho.

Guerra dos tronos Nuno Fonseca batalha dos mortos-vivos
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)