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Correio da Manhã

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Há dias de sorte

Com o dinheiro que ganhou no totoloto, Joaquim Rodrigues, ex-agente da PSP, não comprou um relógio nem fez uma viagem à volta do mundo. Gastou-o num táxi para continuar a trabalhar.
12 de Dezembro de 2004 às 00:00
Foi fiel às cruzes do Totobola até ao dia 30 de Março de 1985, data da primeira extracção em directo do concurso Totoloto.
Sem pensar duas vezes, Joaquim Rodrigues, 54 anos, ex-agente da PSP de Braga, trocou a chave 1X2 pela hipótese de acertar nas seis bolas numeradas. E os resultados não se fizeram esperar: logo na segunda semana do concurso, uma brincadeira entre ele e a cunhada revelou-se proveitosa. Joaquim atirou-lhe uns números ao calhas e, no dia seguinte, descobriu que tinha acertado em quatro. Foi premiado com 1400 escudos – o suficiente para pagar uma jantarada aos familiares.
Estava escrito nas estrelas que essa não seria a sua primeira, nem última, vitória. Às sextas-feiras, como de costume, entrava no café ou no quiosque perto de casa para entregar as apostas. “Todas as semanas fazia quatro boletins. Gastava 600 escudos.” O parco ordenado como agente da PSP ia-lhe dando para esses pequenos luxos. “E quando faltava o dinheiro, preferia ‘cortar’ na bica. No totoloto é que não”, admite.
Aos sábados à tarde, sentava-se no sofá da sala a assistir em directo ao concurso da RTP, apresentado por Cândida Gerardo. Semana após semana acabava desiludido; ao fim do dia cortava em pedacinhos os boletins e deitava-os no caixote do lixo. “Nunca pensei ter hipóteses de ganhar.” Uma crença que se manteve, até ao dia 27 de Junho de 1985. “Quando o primeiro número foi revelado, pensei ‘agora dava jeito que saísse o 13’. E foi isso que aconteceu. Saíram os números todos que eu pedi.”
Estupefacto, Joaquim Rodrigues assistiu à extracção das seis bolas numeradas sem saltar do sofá ou dar gritos de alegria. Com o boletim premiado bem apertado nas mãos, por sinal o quarto e último, preferiu jogar pelo seguro e esperar até segunda-feira para ver quantos apostadores tinham acertado na chave mágica: 13, 28, 30, 40, 42 e 44. E a sorte voltou a sorrir-lhe: “Mal acordei, ouvi no rádio que só havia um ou dois vencedores. Para minha surpresa, fui o totalista”.
Com 35 anos, uma vida inteira pela frente, dois filhos pequenos e 48 mil contos no banco, estava em condições de recomeçar tudo de novo. Para não perder os direitos adquiridos, pediu uma licença ilimitada na PSP. A mulher largou o trabalho na Grundig, de modo a acompanhar de perto o crescimento dos dois rapazes. A família, a viver num acanhado apartamento em Braga, mudou-se para uma vivenda, com espaço suficiente para receber o terceiro filho.
No Verão de 1986, foram todos passar 15 dias à Ilha da Madeira. Joaquim Rodrigues já lá tinha estado, ao serviço da PSP. “Gostei tanto que, mal tive oportunidade, resolvi levá-los.” Por concretizar está ainda o sonho de comprar lá uma casa, onde se possa refugiar com a mulher nos rigorosos meses de Inverno. O dinheiro é que não lhe chega para tudo.
TAXISTA 12 HORAS POR DIA
Filho de pais agricultores, Joaquim Rodrigues sabe o que a vida custa a ganhar. Trabalhou na terra até aos 21 anos – interrompendo a actividade na altura de ir para a tropa. Ao serviço da PSP partiu para o Ultramar, onde se instalou numa pequena aldeia a 25 quilómetros de Benguela. Foi a primeira e única vez que saiu para o estrangeiro. “A zona era tão sossegada que nunca precisei de pegar numa arma.” Contava ficar lá mais tempo, mas o 25 de Abril trocou-lhe as voltas. Regressou a Portugal e à farda azul da PSP. Sempre a sonhar com uma vida melhor.
Quando ganhou o totoloto, era ainda muito novo para calçar as pantufas e viver dos rendimentos. “Nessa altura, os juros ainda eram altos. Hoje, estaria na miséria.” Trabalhar por conta própria parecia-lhe a opção mais viável, e a profissão de taxista fascinava-o.
“É o trabalho certo para quem gosta de conhecer caras novas e de viajar.” De táxi, já veio até Lisboa, mas ainda lhe falta descobrir o mundo. Há quatro anos fez as malas e, pela primeira vez, foi saborear o calor algarvio. Tomou banho nas águas mornas do Atlântico e passeou-se pelo centro histórico de Silves, onde descobriu um património semelhante ao da cidade de Braga.
Gosta de dizer que o dinheiro lhe mudou a vida, mas por dentro, continua o mesmo. Ensinou os três filhos a darem valor a tudo o que têm. “Porque nunca se sabe o dia de amanhã.” E é por isso que Joaquim Rodrigues continua a trabalhar 12 horas por dia.
Por ser um homem de fé, todas as semanas repesca os números vencedores e joga no totoloto ou Euromilhões. Se ganhasse um dinheirinho extra, talvez se pudesse reformar mais cedo.
Joaquim Rodrigues
Idade: 54 anos
Valor do prémio: 48 mil contos
Data: 27 de Junho de 1985
Jogo: Totoloto
Primeira extravagância: mudou-se com a família de um apartamento para uma vivenda.
SORTE AO JOGO
Ganhou cerca de 650 mil euros em dois prémios do Totoloto. Mas o dinheiro não lhe deu a volta à cabeça. Mário Raimundo, 63 anos, residente em Albufeira, continua a olhar o mar todos os dias, agora de forma mais demorada. A vida calma, que os prémios proporcionaram, permite-o.
O restaurante de que era proprietário, junto à Praia dos Pescadores, passou a ser explorado pelos três filhos, a quem deu a mão quando a sorte lhe bateu à porta. Investiu algum dinheiro num apartamento e comprou o carro dos seus sonhos, um Mercedes cinzento claro. “Tive de ganhar o Totoloto para comprar o carro”, diz em tom de brincadeira. As viagens ao Brasil com a esposa também se tornaram mais frequentes e já está a programar mais uma, lá para o início de 2005.
O jogo não deixou de fazer parte da vida de Mário Raimundo e, ao contrário do que diz o velho ditado, tem “sorte ao jogo e ao amor”: “Continuo a jogar no Totoloto e já tenho ganho alguma coisa, acertando em quatro e cinco números. Também no Euromilhões acerto sempre em três números e uma estrela. Ainda esta semana ganhei 121 euros. Entrei noutra sociedade por sugestão da minha filha e ganhámos mais de 200 euros”, revela.
O dinheiro mudou--lhe a vida mas não lhe tirou a simplicidade e simpatia. Aliás, ajudar quem precisa tornou-se um hábito que já não dispensa: “Quando aparece aqui alguém que não tem, eu jogo a mão à algibeira e dou-lhe 10 ou 20 euros, mesmo sem conhecer as pessoas. Quando batem à porta de casa a pedir esmola, a minha mulher, que também é generosa, dá sempre qualquer coisa em dinheiro e um pãozinho. Ajuda-se as pessoas desta forma, com pequenos gestos, para eles é muito e a nós não nos faz falta. Há um rapaz que vem todos os dias aqui ao restaurante e todos os dias dou-lhe cinco ou 10 euros.” O Oceano, restaurante na zona antiga de Albufeira, mesmo em frente ao mar, passou-o para os filhos. Além deste apoio em termos de trabalho, ajudou os descendentes na construção das suas casas.
Sobre os tempos em que geria o restaurante, herdado do pai, recorda que nem sempre era fácil ter lucros no fim do mês: “Lembro-me do tempo em que tinha de gerir o restaurante e era difícil pagar os empregados. No fim do mês as despesas eram certas. Porque o restaurante só trabalha três ou quatro meses por ano, o resto do ano é o que se vê. Os clientes não abundam”.
Com uma vida mais desafogada, e apesar de não ser hábito o estabelecimento dar prejuízo, foi possível manter o negócio mais despreocupadamente.
NO POUPAR É QUE ESTÁ O GANHO
Perguntamos-lhe se já gastou todo o dinheiro que ganhou. A resposta surge acompanhada de uma gargalhada bem-disposta: “Ainda há uns pozinhos. Gasta-se conforme as necessidades. Não tenho cabeça para grandes avarias”, esclarece, garantindo que os juros dos milhares depositados no banco chegam para viver sem preocupações.
“Agora passei à reserva”, diz. “Tenho uma vida mais descansada, juntamente com a minha mulher. O dinheiro possibilitou isso, graças a Deus! Veio facilitar a vida”, garante. Ao volante do seu Mercedes e acompanhado pela mulher, ocupa o tempo a conhecer o País. “Ainda no último domingo fomos a Setúbal comer um peixinho fresco.”
Também o Natal, que se aproxima, passou a ser mais rico. “Há sempre umas ofertas melhores para a família”, refere, dizendo que já começou a visitar as lojas com o objectivo de fazer as primeiras compras.
Mário Raimundo tem uma vida desafogada, mas esclarece que é “uma pessoa controlada com o dinheiro, não esbanjo”, garante. “Em relação a isso, o meu pai deu-me uma boa criação. Lá por o ter ganho, não gasto ao desbarato”, afiança.
E se ganhasse o Euromilhões, o que faria? Manuel Raimundo garante que dividiria o dinheiro com os filhos e irmãos. Quanto a extravagâncias, “talvez fizesse um cruzeiro com a minha mulher”.
Mário Raimundo
Idade: 63 anos
Valor do prémio: 640 mil euros
Data: 430 mil euros em Abril de 2002 e 210 mil euros em 1998
Jogo: Totoloto
Primeira extravagância: comprou um Mercedes-Benz prateado
Milionários à americana
Um único bilhete de cinco dólares da lotaria Big Game, adquirido na estação de gasolina Gulf Gas/Food Market, permitiu a Joanne e Jorge Lopes, um casal de origem portuguesa residente em Englishtown, Nova Jersei, amealhar mais de 58,9 milhões de dólares (43 milhões de euros). Descontados os impostos, os dois viram a conta bancária engordar 32 milhões de euros.
A extracção do bilhete premiado foi a 16 de Abril de 2002 e, desde então, os milionários puderam mudar de vida: Joanne largou o seu trabalho no infantário e numa florista, dedicando-se agora mais aos filhos.
Já Jorge Lopes, responsável pelos restaurantes Vilamoura (em Hillside) e D. António (em Union), não consegue ficar parado em casa. Recentemente, abriu um novo estabelecimento, Portuguese Fisherman, em South River, Nova Jersei.
Quando se apercebeu que tinha ganho uma fortuna, confessa este emigrante português, começou a tremer. Só teve descanso depois de falar com o seu advogado e validar o bilhete.
Este não é o único caso de emigrantes portugueses com sorte ao jogo na terra do Tio Sam. Em Setembro deste ano, o luso-americano António Fonseca, 64 anos, supervisor de um prédio em Manhattan, e a filha, Ana Christine Melhor, acertaram em cheio no jackpot da lotaria de Nova Iorque.
Os dois nunca mais vão esquecer os números 8, 17, 22, 39, 44 e 54. Foi esta a sequência que lhes permitiu arrecadar 28 milhões de dólares (23 milhões de euros).
Depois deste golpe de sorte, António pôde concretizar o seu sonho mais cedo: voltar com a sua mulher, Maria, à terra natal, na Beira Baixa.
13 DA SORTE AOS 19 ANOS
Já lá vai tanto tempo, 35 anos…”. Manuel Pereira Vieira acertou em 1969, no Totobola. Tinha 19 anos e o 13 no boletim deu-lhe a volta à vida. O rapaz que fazia a festa dos outros – era pirotécnico – podia finalmente fazer a sua. Estava rico.
Foi no ano em que um americano deu o primeiro passo na lua; em que um escudo e cinquenta centavos bastavam para se dar um passeio pela modernidade do Metropolitano de Lisboa. Numa sexta-feira do mês de Setembro de 1969, Manuel reservou o seu primeiro carro. Um Austin 1000 em segunda mão. Tinha acabado de tirar a carta, a mãe assinara um termo de responsabilidade, depois de Manuel ter ameaçado que contrariado, imigraria.
Naquela sexta-feira, olhos presos no bólide à venda na própria escola de condução, Manuel teve um pressentimento: na segunda-feira haveria de o ir buscar a pronto pagamento, 75 contos na mão.
A premonição foi certeira como as suas 13 apostas. Sairam-lhe 2500 contos, uma fortuna à época. “Nessa semana deixei de trabalhar.” Pudera, havia dois anos que para sustentar uma família de seis irmãos, trabalhava como pirotécnico, tal como seu pai o tinha feito, antes de um foguete o matar.
Manuel Pereira Vieira veio a Lisboa receber o prémio das mãos de Artur Agostinho. O rapaz de Arões, Fafe, era uma figura nacional. Nos estúdios, para o boneco, põem-lhe os maços das notas nas mãos. Está doido de alegria. “Depois tiraram-me a massa para a depositar. Disseram-se que me mandavam uma fotografia para guardar de recordação.”
A foto nunca chegou, mas no banco Manuel passou a ter a conta gorda. Comprou um prédio em Fafe, uma casinha para a família, e depois da tropa tentou fazer vida de merceeiro. Acabou por vender tudo: “Só fiquei com o prédio em Fafe”. Cinco anos depois do prémio gordo, a mesma grelha de apostas ainda lhe rendeu 600 contos. Por um triz não bisou. “Não acertei porque o meu Fafe me tramou.”
Aos 54 anos, com quatro filhos de duas mulheres, tem uma empresa de terraplanagem, que lhe consome os dias. “Isto está mau! Mais por causa de maus pagadores que por falta de trabalho.”
Manuel Vieira
Valor do prémio: 2.500 contos
Data: 1969
Jogo: Totobola
Primeira extravagância: um Austin 1000 em segunda mão pago a pronto.
RICO COM 725 EUROS
Os 145 contos (725 euros) que Carlos Magalhães ganhou no Totobola podem parecer insignificantes perante os milhões de euros que os apostadores de Guimarães levaram para casa. Mas, se recuarmos a 1966, a quantia dava para altos voos. “Naquele tempo, esse dinheiro chegava para uma pessoa compor a vida, comprar uma casa e um carro”, recorda o apostador, que decidiu investir o prémio na sua paixão: as motorizadas.
Na altura era solteiro, militar em Angola, e por 14 contos adquiriu uma Honda que mais tarde trocou por uma Yamaha. “O resto do dinheiro gastei-o em folias com os meus amigos”, diz, lamentando“não ter investido o dinheiro em casas ou em terrenos”.
Apesar dos devaneios, Carlos tinha a sorte do seu lado; voltou a ser premiado, passados dois anos, com 18 contos. O dinheiro serviu para iniciar uma sociedade com o seu comandante nos Bombeiros de Luanda. Com apenas 234$00 cada, investiram semanalmente na ‘sorte grande’. “Utilizávamos o sistema italiano que, através de um desdobramento das apostas, garantia quase sempre um prémio.”
Alcançar o prémio máximo nestes jogos, porém, nem sempre significa muito investimento. Ainda em Angola ganhou grades de cerveja e volumes de tabaco, por não acertar em qualquer número. Era assim que uma tabacaria em Luanda cativava os seus clientes.
O estabelecimento de apostas aumentou os prémios para dez volumes de tabaco e depois para um frigorífico no valor de sete contos. No azar houve porém um engenheiro que a Carlos a melhor, ao ficar dez boletins sem acertar um jogo. “Acordámos: ele deu-me 700 escudos e ficou com o aparelho.”
Essa coincidência valeu o início de mais uma sociedade, desfeita apenas com um resultado da CUF-SL Benfica. “O engenheiro queria fazer uma tripla nessa partida e como o clube da Luz era a referência do futebol nacional, ninguém admitia que poderia perder ou empatar com um clube pequeno.”O destino pregou uma partida aos benfiquistas, que perderam por três a zero. E os apostadores não levaram para casa três mil contos.
Quando regressou a Portugal comprou o primeiro carro, com os 300 contos de um cinco no Totoloto. “Já gastei muito dinheiro, mas agora só invisto cerca de 10 a 12 euros por semana.”
Carlos confessa que gostaria de voltar a acertar em prémio grande, de voltar a ser milionário como em 1966.
Carlos Magalhães
Valor do prémio: 725
Data : 1966
Jogo: Totobola
Primeira extravagância: comprou uma motorizada Honda
SAIU À GUARDA!
“Sabe uma coisa? A GNR de Amares ganhou o Totoloto.” Foi desta forma que a notícia chegou à redacção do ‘Correio da Manhã’, no dia 30 de Outubro de 2002. Já estávamos a meio da semana, porque os guardas tinham pedido aos responsáveis da Casa Leite, onde o boletim havia sido registado, para manter o assunto em sigilo, mas ainda foi a tempo de despertar uma enorme curiosidade popular. Nos dias que se seguiram, as conversas iam sempre dar aos sortudos dos guardas que tinham ganho o Totoloto.
Mas não deu para pedir a reforma antecipada. É que, para além de se tratar de uma sociedade de 17 (quase a totalidade dos agentes do posto), os 602 156 euros do prémio foram repartidos por dois totalistas. Os militares dividiram os cerca de 301 mil euros e meteram ao bolso 17 650 euros cada um (3500 contos).
A verdade é que os 19 militares do posto, dois dos quais já estão na reforma, jogavam em sociedade há mais de um ano, sem que lhes tivesse saído um único cêntimo. Por isso mesmo dois deles resolveram desistir da sociedade precisamente uma semana antes de a sorte bater à porta do posto. Azar o deles e sorte dos outros.
Dois anos passados, quase nada mudou na vida destes homens, que continuam a fazer rondas e patrulhas, pernoitas e plantões. A quase totalidade aplicou o dinheiro na amortização do empréstimo da casa. “Foi, no entanto, uma grande ajuda. Alguns pagavam uma prestação mensal de 350 euros e passaram a pagar menos de 200, o que faz bastante diferença”, disse um deles.
Uma curiosidade registada na altura é que ganharam o Totoloto os guardas que prestavam serviço no posto mais degradado do distrito de Braga e, muito provavelmente, do País. Passados dois anos, e continuam a trabalhar no mesmo.
17 guardas
Idade: várias
Valor do prémio
602 156 euros ou seja 17 650 euros
a cada um (pouco
mais de 3 500 contos)
Data: 2002
Jogo: Totolotro
Primeira extravagância: quase todos os guardas aplicaram o dinheiro para amortizar o empréstimo das casas.
COMO GERIR UMA FORTUNA
A maior parte das pessoas que recebem somas avultadas, resultantes por exemplo de jogos, tendem a suprir em primeiro lugar as necessidades mais imediatas, como a casa ou o carro. Raramente o primeiro pensamento do novo milionário é a gestão do dinheiro com base no investimento.
Instituições como a Caixa Geral de Depósitos dispõem de funcionários que na gíria bancária se chamam de gestores dedicados. Eles procuram ajustar o investimento ao perfil do afortunado, aconselhando depois produtos com maior ou menor liquidez e risco.
Para maiores somas de dinheiro e milionários dispostos a arriscar a valer existe a chamada gestão discricionária, em que o investimento é feito em mercados internacionais em acções nas bolsas mundiais, petróleo, ouro ou noutras posições especulativas. O risco é maior, mas o ganho muito mais elevado.
Dispostos a ajudar os novos ricos estão ainda os private bankers e os consultores financeiros, sendo que estes últimos são os que mais praticam a angariação de clientes.
Nesta conjuntura económica, mesmo para milionários, o melhor verbo é poupar. E nunca pôr os ovos no mesmo cesto.
PERGUNTAS A... TELMO BAPTISTA, PROFESSOR NA FACULDADE DE PSICOLOGIA E CIÊNCIAS DA EDUCÇÃO DA UNIVERSIDADE DE LISBOA
Os jogos da sorte entusiasmam os portugueses. Sonhamos com um enriquecimento rápido?
E não só. A maior parte das pessoas gostava de ter uma oportunidade de ganhar dinheiro para investir em projectos pessoais. Além disso, há estudos que indicam que as pessoas jogam mais em épocas de crise.
Os jogadores admitem que largavam logo o emprego se ganhassem um prémio importante.
E mesmo os que gostam do que fazem, arranjavam maneira de o fazer noutros moldes. Queriam ter mais tempo para gastar com a família, em actividades de lazer. Mas ninguém fica um ano de férias. As pessoas precisam de diversidade.
Há duas semanas, um pasteleiro e um operário têxtil ganharam 43,75 milhões de euros. De que modo é que a vida dessas pessoas se altera?
Vai mudar radicalmente. Mas o salto qualitativo vai depender da personalidade delas. Se já tivessem vontade de conhecer mais coisas e de desenvolver outras actividades, o dinheiro vai ajudá-las. Caso contrário não terá servido de muito.
Estarão os milionários preparados para lidar com as novas responsabilidades?
Como é óbvio, um operário têxtil vai-se ver mais aflito para administrar milhões de euros do que um gestor profissional. Vai ser confrontado com amigos e familiares, todos a pedirem-lhe o mesmo. E terá de aprender a dizer não.
Alguns gastam o dinheiro em poucos anos. E vêem-se outra vez na miséria.
Isso decorre das dificuldades em gerir o património. Um estudo recente mostrou que as pessoas compram uma casa de sonho e um carro. Um ano depois, verifica-se que o nível de satisfação desce, porque se habituam.
PERGUNTAS A... PAULO AIDO, AUTOR DO LIVRO 'HÁ HORAS DE SORTE' E EDITOR DA 'TV GUIA'
Os protagonistas das histórias deste livro têm alguma coisa em comum?
As pessoas não mudam com os prémios do jogo. Não mudam na essência, apenas ‘engordam’. No fundo, poucos são os que alteram os seus hábitos.
Claro que o dinheiro permite outro conforto na vida, mas, mesmo em termos materiais, fica a sensação de que todos temos hábitos. E o dinheiro não tem força suficiente para os alterar. Com um bom prémio, as pessoas tendem a mudar de carro mas insistem na marca; mudam de casa, mas não de cidade ou região; e se insistem em trabalhar, fazem-no quase sempre na mesma profissão.
Houve então vencedores para quem o (muito) dinheiro não alterou a vida?
Sim. Há imensas histórias de pessoas que não souberam administrar o dinheiro e que, em pouco tempo, voltaram aos apertos financeiros. Há a história de um senhor que obteve um prémio e que perdeu tudo em meses, passando a viver nas ruas de Lisboa como um sem-abrigo.
É verdade que os vendedores dos prémios são recompensados?
Há registo de milionários do jogo que, agradecidos com a sorte grande, lhes dão uma pequena gratificação. Mas os cauteleiros tendem a desaparecer com a introdução dos novos sistemas de apostas, por exemplo através da Internet.
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