Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
8

Há dias que mudam uma vida

“Pensou em tudo, na vida estúpida, no tempo perdido. Abre a porta, chama pela mulher”
Tiago Rebelo 19 de Fevereiro de 2012 às 00:00
Despertado pela curiosidade
Despertado pela curiosidade

Ele acorda já derrotado. Tudo o desanima: o corredor escuro, as paredes decadentes, as obras madrugadoras do vizinho. Toma o pequeno-almoço na companhia da mulher, ambos tolhidos num silêncio obstinado. Há muito que se suportam apenas, enredados numa indiferença mútua.

Sai de casa debaixo do cinzento fúnebre de um céu de Inverno, de uma chuvinha mesquinha, exasperado por não se lembrar onde estacionou ontem. Quando encontra o carro, liga o motor, arranca devagar, conduz ensonado, vai pelo trânsito entorpecido numa dormência matinal, irritado com a lentidão das filas, dos semáforos, com o relógio. Vai atrasar-se. Vinte minutos para se libertar da confusão da cidade. Entra na auto-estrada, o trânsito desanuvia, acelera um pouco. Talvez ainda consiga chegar a horas, pensa, esperançado. Os carros a alta velocidade levantam uma nuvem, uma cortina de água que o impede de ver a estrada, obriga-o a levantar o pé, a conduzir mais lentamente.

Vai a pensar na mulher, na vida deles que parou à espera que aconteça alguma coisa, não sabe bem o quê. Sente uma saudade do passado, de eles tal como eram. Nisto, um carro à frente sai descontrolado da sua faixa, atravessa a estrada na diagonal, esmaga-se contra o separador central, é catapultado novamente para o meio da estrada, embate noutro, levando-o a rodar como um pião, a bater num terceiro automóvel. Os carros bailam no lençol de chuva que cobre o asfalto e é tudo tão vertiginoso, tão irreal.

Sabe que não vai conseguir evitar o choque, que, provavelmente, não sobreviverá. Pensa que vai morrer e abate-se numa tristeza lúgubre, ao mesmo tempo que manobra o carro movido pelo instinto, carrega no travão, sente-o derrapar, tira logo o pé, esgueira-se por um túnel caótico que surge milagrosamente no seu caminho, passa sem um toque, sem um risco e, de repente, não tem carros à frente e a estrada abre-se desimpedida e segura, deixando para trás uma confusão de destroços mortais.

Petrificado num espanto mudo, em estado de choque, lívido, leva o carro quase parado. Lentamente, os nós dos dedos, brancos de apertarem o volante, vão descomprimindo, o coração vai abrandando, as tremuras que lhe percorrem o corpo cessam.

Passou mais de uma hora, regressou a casa. E entretanto pensou em tudo, na vida estúpida, no tempo perdido. Abre a porta, chama pela mulher. Tem tanto para dizer, tanto para recuperar. Procura-a pela casa toda, mas acaba sentado na cama em frente ao armário aberto, sem a roupa dela, com uma simples nota de despedida na mão caída no colo. Ela foi embora, precisamente hoje, e ele, com os olhos postos no vazio, perplexo, só consegue pensar que há dias que mudam uma vida.

Tiago Rebelo
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)