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Haverá mais alguém por aí?

É cá em baixo, na imperfeição do que temos, que se encontra uma espécie de salvação
João Pereira Coutinho 9 de Fevereiro de 2020 às 08:00

A exploração espacial tem os seus encantos: como será a vizinhança planetária? Que lugar ocupamos no puzzle cósmico? Haverá mais alguém por aí, habitando mundos que ainda não conhecemos?

As perguntas são cientificamente relevantes. Mas, nas discussões astronómicas e sobretudo na busca humana por companhia, é impossível não escutar uma questão filosófica (e até teológica) mais profunda: será que estamos sós, radicalmente sós, na imensidão do universo?

Eis a pergunta que moveu Clifford McBride (Tommy Lee Jones), uma lenda da NASA que partiu há trinta anos para os confins do sistema solar, em busca de respostas. Nunca mais deu sinais de vida. Nem para a NASA, nem para o filho, Roy McBride (Brad Pitt), que entretanto cresceu e seguiu as pisadas do pai.

Roy é um profissional de excelência, com um batimento cardíaco imperturbável e uma capacidade sobre-humana para pairar acima das paixões terrenas. Pelo menos, até ao dia em que é informado que o seu pai, que se julgava morto, pode ser o responsável por misteriosas descargas eléctricas que põem em risco o planeta Terra.

A missão de Roy é partir para o espaço e tentar comunicar com o pai; trazê-lo de volta à razão e, quem sabe, de volta a casa. Mas a viagem será o momento em que a fortaleza emocional de Roy acabará por soçobrar – e este, vulnerável ante a hipótese de rever o pai ausente, descobrirá a sua humanidade.

Para os optimistas científicos, ‘Ad Astra’ não é propriamente animador – e Gray parece sugerir que, lá fora, lá no alto, para além de todo o mistério e de toda a beleza, o que nos espera é a escuridão e a loucura.

Se estamos sós, e é bem provável que estejamos, é cá em baixo, na imperfeição do que temos, que se encontra uma espécie de salvação. O momento em que Roy percebe essa desencantada verdade é o momento mais perfeito de um filme quase perfeito, que apenas peca por um excesso de voz-off.

Quanto a Brad Pitt, mil vezes subestimado apesar de mil vezes sublime, este é o papel da sua carreira.

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Filme: o mal e a resistência de que alguns são capazes

Despedi-me de Malick em 2011, com ‘A Árvore da Vida’. Reconciliei-me em 2020, com este documento filosófico sobre a natureza do mal e a resistência solitária e interior de que alguns ainda são capazes. Mesmo que essa resistência implique um preço insuportável, como para o objector de consciência austríaco Franz Jägerstätter.

Livro: devastador relato sobre o inferno

A libertação de Auschwitz foi há 75 anos. Primo Levi, que sobreviveu a esse campo infame, deixou-nos um dos mais devastadores relatos sobre o inferno. O momento em que os soldados nazis espancam os judeus sem exibirem o mais leve esgar de ódio – o mal é banal e burocrático, já sabemos – foi a imagem que me ficou da primeira leitura.

Livro: cultivando o jardim

Alguém dizia que, neste mundo, o melhor que podemos fazer é cultivar o próprio jardim. O filósofo Byung-Chul Han concorda – e executa: cultivando o jardim e deixando-nos este belíssimo diário em que relata o apelo da terra e a minúcia do cuidador. As ilustrações das suas plantas são de Isabella Gresser.

Fugir de … Dois Papas

Fernando Meirelles sempre foi um realizador talentoso. Mas este ‘Dois Papas’, visualmente apelativo, é um desastre de argumento. Dois momentos ilustram o naufrágio: quando o cardeal Jorge Bergoglio se indigna e grita com Bento XVI em plena confissão (surreal); e quando Bento XVI assume as suas culpas por dar cobertura ao padre pedófilo Marcial Maciel (quando fez o contrário, iniciando a sua investigação).
De resto, afirmar que Bento renunciou ao trono porque perdeu a fé está ao nível dos filmes Disney.
Exibição: Netflix

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